2018-02-25

Subject: Procura chinesa de presas de jaguar está a ameaçar felídeos

Procura chinesa de presas de jaguar está a ameaçar felídeos

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@ Nature/Staffan Widstrand/NPL

O jaguar foi encontrado num canal de águas pluviais na Cidade de Belize, Belize, no dia a seguir ao Natal do ano passado. O seu corpo estava praticamente intacto mas a cabeça não tinha as presas. A 10 de Janeiro um segundo animal, desta vez um ocelote, talvez confundido com o jaguar juvenil, apareceu sem cabeça no mesmo canal.

As mortes indiciam um crescendo no comércio ilícito de jaguares Panthera onca que está a perturbar os peritos em vida selvagem. As presas, crânios e pelagem destes felinos há muito que são troféus apetecidos para os colecionadores latino-americanos que ignoram as proibições internacionais do comércio de partes de jaguar mas nos anos mais recentes surgiu uma rota de tráfico para a China, devido ao bloqueio do contrabando de partes de tigre usadas na medicina tradicional chinesa.

O tráfico de vida selvagem segue frequentemente projetos de construção chineses noutros países, pois os trabalhadores chineses levam objetos para casa, diz o ecologista Vincent Nijman, da Universidade Oxford Brookes em Oxford, Reino Unido. “Se há procura na China por partes de grandes felinos e essa procura pode ser satisfeita por pessoas que vivem em África, outras zonas da Ásia ou América do Sul, então alguém há-de vir satisfaze-la: muitas vezes o comércio é de chinês para chinês mas está a tornar-se global.”

Isso parece ser o que se está a passar na Bolívia, onde oito embalagens contendo um total de 186 presas de jaguar foram confiscadas antes de chegarem à China, entre Agosto de 2014 e Fevereiro de 2015, sete das quais tinham sido enviadas por cidadãos chineses que vivem na Bolívia. Oito outras terão sido intercetadas em 2016 e uma embalagem com 120 presas foi apreendida na China, refere Angela Núñez, bióloga boliviana que investiga este comércio.

Estas embalagens podem representar a more de mais de 100 jaguares, ainda que seja impossível termos a certeza, diz Núñez. No norte da Bolívia, onde há várias companhias chinesas a trabalhar, anúncios na rádio e folhetos já ofereceram entre US$120 e $150 por presa, mais que os ganhos mensais dos locais. Dois chineses foram presos por comércio de partes de jaguar: um, em 2014, foi condenado a 3 anos de pena suspensa e o outro, em 2016, aguarda sentenças mas as autoridades bolivianas temem que já tenha deixado o país.

É esse o problema com o tráfico global de vida selvagem, diz Nijman, que acrescenta que muito poucos casos levam a sentenças criminais. “A dissuasão acontece quando alguém acaba na cadeia mas isso raramente acontece porque a sociedade no seu todo não se interessa”.

As presas e os crânios apreendidos na Bolívia, bem como as 38 presas confiscadas em Lima, Peru, em 2015, podem ser provenientes de jaguares mortos recentemente ou há anos. Como estes felinos têm grandes territórios, Núñez considera que estudos genéticos podem determinar se os animais abatidos ilegalmente pertenciam a populações bolivianas ou dos países vizinhos.

Esse aspeto também interessa à bióloga brasileira Thais Morcatty, que está a fazer o doutoramento com Nijman. Há um mercado doméstico no Brasil para peles de jaguar para artigos decorativos mas as partes dos animais também têm sido enviadas para o estrangeiro a partir do Rio de Janeiro e de São Paulo, diz ela.

Há mais de um século, os jaguares percorriam as florestas, savanas e estepes desde o sul dos Estados Unidos ao Paraguai. A desflorestação e outras perturbações causadas pelo Homem, especialmente a expansão da agricultura, reduziram o habitat dos felinos a metade, diz o ecologista John Polisar, que coordena o programa do jaguar na Sociedade da Conservação da Vida Selvagem em Nova Iorque.

Isso levou à escassez de presas para os jaguares e, em algumas zonas, isso levou ao contacto com pessoas e gado, diz Polisar, que trabalha nas Américas centrale do sul. Estimativas das populações remanescentes de jaguares vão desde cerca de 60 mil animais a perto do triplo desse número.

  Se um criador de gado perde uma vaca para um predador pode matar um jaguar em retaliação, mesmo que ele não tenha sido o culpado. Depois da perda de habitat, essas mortes são a segunda maior ameaça aos jaguares, diz Esteban Payán, diretor do programa do jaguar para a América do Sul da Panthera, uma organização global de conservação de felinos. As mortes por retaliação também fornecem esporadicamente partes dos animais ao comércio de vida selvagem mas a escassez de dados torna difícil saber se os incidentes são isolados ou alimentam redes de crime organizado, dizem os investigadores.

Medidas designadas para ajudar pessoas a coexistirem com jaguares podem reduzir essas mortes, diz Payán. Em alguns casos, vedações elétricas têm desencorajado os jaguares de entrar nas pastagens e painéis solares para essas vedações também ajudam as famílias a ter luz em casa, o que lhes pode revolucionar a vida, diz ele.

Outras táticas prometedoras incluem badalos nas vacas, luzes intermitentes em redor das pastagens e colocar tanques de água para evitar emboscadas nos ribeiros. Estábulos para os bezerros, animais de guarda (como burros ou touros) também podem desencorajar os predadores, diz ele.

Os governos podem ajudar com incentivos, diz o biólogo Ricardo Moreno, diretor do grupo Yaguará Panama. Neste momento, um agricultor que compra uma vaca a crédito terá que pagar mesmo que perca o animal, diz Moreno, que mistura estudos científicos e trabalho comunitário e com os decisores para proteger os jaguares mas tornar os empréstimos dependentes da melhor gestão do gado pode beneficiar todos, diz ele.

Entretanto, investigadores e governos latino-americanos estão preocupados com o comércio de vida selvagem: o governo do Belize estáa oferecer uma recompensa de US$5000 por informações sobre os jaguares mortos e o grupo Polisar está a recolher dados sobre a região.

Apesar das ligações do tráfico internacional serem claras na Bolívia, Payán preocupa-se que “esta seja apenas a ponta do icebergue" de uma rede mais vasta pois há relatos noutros países também. As organizações conservacionistas não conseguem lutar contra “a violência, dinheiro e a escala” das redes de traficantes de vida selvagem: “O potencial de ameaça é enorme.”

 

 

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