2005-10-12

Subject: A teoria da conspiração de Crichton, segundo Harold Evans

 

Bem-vindo(a) a mais uma edição do boletim informativo  News of the Wild

Este boletim é mantido por simbiotica.org, uma rede simbiótica de Biologia e Conservação da Natureza

mantenha-se informado das últimas novidades e troque ideias com todos os que fazem parte desta rede!

 

Em destaque:

A teoria da conspiração de Crichton, segundo Harold Evans

 

  Questões ou comentários para: webmaster@simbiotica.org

Dê a rede simbiotica.org a conhecer a um amigo!!

Na sua coluna de opinião desta semana, transcrita de seguida, o jornalista da BBC Harold Evans comenta a última obra do conhecido escritor Michael Crichton, onde o aquecimento global é apresentado como o produto do trabalho de eco-cientistas loucos.

Com certeza já todos leram esta frase no início de algum livro: "Qualquer semelhança entre as personagens e acontecimentos retratados nesta obra e situações reais é pura coincidência." Mas no mais recente livro de Michael Crichton, State of Fear, a semelhança é puramente intencional.

O livro trata do tipo de furacões, inundações, tsunamis e tornados a que temos vindo a assistir. A arte de Crichton é instilar um agradável terror nos seus milhões de leitores através de histórias de ciência mal conduzida, como em Jurassic Park e A ameaça de Andrómeda.

Neste novo bestseller esses furacões não são naturais mas sim a criação de activistas contra o aquecimento global, eco-maníacos desesperados por defender o controlo das emissões de dióxido de carbono para a atmosfera. Para reforçar o seu ponto de vista, Crichton acrescenta uma nota pessoal de 32 páginas, onde declara a sua convicção de que o aquecimento global é um temor sem bases científicas.

Esta posição polémica sobre a questão do aquecimento global está a levar Crichton à categoria de herói para os que lutam arduamente para impedir a implementação de tratados como o de Kyoto. 

E os cépticos do aquecimento global bem que precisavam deste reforço. Têm-se mantido sossegados após a ferocidade do Katrina e do Rita, criados pelas quentes águas do Golfo. Al Gore, num empolgado discurso exigindo "acção imediata" que impressionou os líderes económicos na cimeira Clinton recentemente realizada em Nova Iorque, salientou que que desde a década de 70 que os furacões do Atlântico e do Pacífico aumentaram de intensidade em 50%.

É significativo que o presidente Bush, activo nas operações de apoio às vítimas dos furacões, não tenha reiterado as suas famosas dúvidas sobre se o aquecimento global é uma ameaça real ou uma farsa. Nem se ouviu nenhum senador tentar explicar o raro consenso de mais de 2000 cientistas de renome mundial em mais de 100 países, que emitiram um comunicado onde alertavam para o perigo da emissão desregrada de gases de efeito de estufa.

Como historiador, nunca me atraíram muito as histórias de conspirações mas se procuramos uma, parece-me mais credível a situação documentada pela organização ambientalista Greenpeace. Analisemos os nomes de algumas das organizações preocupadas com o aquecimento global:

  • - Advancement of Sound Science Centre Inc (Centro para o Progresso da Ciência Segura);

  • - Committee for a Constructive Tomorrow (Comité para um Amanhã Construtivo);

  • - Heartland Institute (Instituto Terra-mãe);

  • - Competitive Enterprise Institute (Instituto para a Iniciativa Competitiva);

  • - Annapolis Center for Science-based Public Policy (Centro de Política Pública com base na Ciência de Annapolis).

Nunca o adivinharíamos mas todas estas instituições de nome sonante são dedicadas a minar a ciência por trás do aquecimento global e a impedir que os Estados Unidos assinem algo como o Protocolo de Kyoto. E ainda seria menos provável que adivinhássemos que todas recebem milhares de dólares da maior petrolífera do mundo, a Exxon Mobil, um dos principais oponentes de Kyoto pelos elevados custos económicos para o ocidente deste tratado.

 

Estas cinco organizações não são as únicas com títulos enganadores. A Greenpeace identificou 40 destes alegres receptores de dinheiro da Exxon. Só por isso, deveríamos ser um pouco mais cépticos em relação às opiniões que emitem, se fossem transparentes na sua relação com os seus patrocinadores da Exxon.

Quando questionada sobre a questão, a Exxon defende-se referindo que as fundações e grupos defensores de Kyoto ainda recebem mais dinheiro, o que é verdade. Mas o que nos preocupa é o facto de os grupos apoiados pela Exxon serem menos abertos nas suas relações e dependências, apresentando-se nos meios de comunicação como corpos científicos independentes.

Para além disso, a Exxon refere que doou $100 milhões à Universidade de Stanford para investigação em formas alternativas de energia. Com certeza o financiamento de investigações a longo prazo é excelente mas como o conhecido economista Keynes disse noutra situação, a longo prazo estaremos todos mortos. Os danos estão a ser causados agora e todos os dias, estão a acelerar e podem ser irreversíveis.

Todas as tácticas de atraso, negação e ofuscação trazem à memória o que aconteceu em 1974 a dois cientistas americanos, Sherwood Roland e Mario Molina. Eles apresentaram as provas que mostravam que os cloro-fluorocarbonetos (CFC) usados na refrigeração e no ar condicionado estavam a destruir a camada de ozono que nos protege da radiação UV.

Foram imediatamente caluniados e qualificados como agitadores e alarmistas. Os fabricantes dos produtos organizaram uma campanha para abafar o assunto e meios de comunicação pouco interessados rapidamente morderam o isco, o público aborreceu-se com a questão e milhões de toneladas de poluentes mais foram lançados na atmosfera.

Treze anos depois, o mundo acordou finalmente para um buraco na camada de ozono como nunca se tinha imaginado, e imediatamente um acordo internacional (liderado pelos Estados Unidos) foi criado para procurar alternativas aos CFC. Entretanto, graves danos tinham sido causados.

Winston Churchill, na década de 30, fez este comentário acerca de outro governo que não acreditava que a ameaça de Hitler era real: "Continuam num estranho paradoxo, decididos a ser indecisos, resolvidos a não resolver e poderosos na sua impotência. Mas a era dos adiamentos, da amenidade e dos expedientes confusos está a chegar ao fim. Estamos a entrar no período das consequências."

 

 

Saber mais:

Alterações climáticas não são prioridade em Portugal?

Animais fortemente atingidos por alterações climáticas

Bush rejeita acordo ao estilo Kyoto na cimeira G8  

Cientistas apelam a uma acção urgente em relação ao teor de CO2 na atmosfera

Relatório alerta novamente para o declínio do planeta

Maior simulação climática de sempre prevê subida de temperaturas até 11ºC

 

 

Comentar esta notícia           Imprimir

 

Recebeu este boletim através de um amigo??

Faça a sua própria subscrição aqui!!

Se não deseja voltar a receber o boletim News of the Wild clique aqui!!

@ simbiotica.org, 2005


Return to Archives

Newsletter service by YourWebApps.com