2005-07-15

Subject: Salve-se as espécies emblemáticas em primeiro lugar

 

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Salve-se as espécies emblemáticas em primeiro lugar

 

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A declaração de princípio da organização conservacionista Wildlife Conservation Society refere que esta pretende salvar a vida e as terras selvagens, o que, se presume, implique todas as formas de vida selvagem.

No entanto, uma visita à página da organização na internet sugere que quase todos os seus projectos se focam na protecção de predadores de topo, desde tigres a ursos pardos.

Esta não é uma estratégia invulgar, os conservacionistas usam frequentemente predadores carismáticos como pósteres para conseguir mais apoios para as suas campanhas de protecção do ambiente.

De acordo com Joel Berger, cientista chefe da delegação da WCS em Teton, Wyoming, "Elefantes e gorilas atraem muito mais atenção pública e interesse científico que os ratos", embora esta estratégia tenha sido muitas vezes criticada por ser pouco científica.

No entanto, um novo estudo mostra que os predadores de topo estão consistentemente associados a uma maior biodiversidade que as espécies dos patamares mais baixos da cadeia alimentar. O estudo, publicado na revista Nature, sugere que os conservacionistas têm razão, de acordo com critérios ecológicos, em usar os predadores de topo para atrair apoio público e financeiro.

Fabrizio Sergio, da Estación Biológica de Doñana em Sevilha, comparou a biodiversidade em áreas dos Alpes italianos onde havia colónias reprodutoras de aves de rapina, corujas, falcões, águias, etc., com outros locais escolhidos ao acaso.

Descobriu que, ao contrário dos locais controlo, as zonas ocupadas por predadores de topo apresentavam uma maior variedade de plantas e animais.

"Os nossos resultados provam que há uma associação forte, pelo menos em alguns sistemas biológicos, entre os predadores de topo e uma biodiversidade alta. Isto significa que a conservação focada nos predadores de topo pode ser justificada do ponto de vista ecológico, pois representa benefícios mais vastos a nível da biodiversidade", escrevem os autores.

"Muito dinheiro e esforço têm sido devotados à conservação de predadores de topo, com o pressuposto que também irá beneficiar outras espécies", diz ele. "No entanto, este pressuposto nunca tinha sido explicitamente e adequadamente testado."

Muitos conservacionistas não estão surpresos com o resultado do estudo. "As descobertas são interessantes e clarificam as relações que há muito se suspeitava existirem mas nunca tinham sido confirmadas", diz Berger.

"É bom saber que estes estudos salientam o valor dos predadores de topo nos ecossistemas terrestres, especialmente as aves", acrescenta ele. "Trabalhos anteriores tinham-se focado neste tipo de relação em ecossistemas marinhos e com mamíferos carnívoros de grande porte."

Berger tem estudado as relações presa/predador no Montana e nos Parques Nacionais de Yellowstone e Grand Teton no Wyoming. Em ambos os parques, os predadores de topo como os ursos pardos e os lobos tinham sido dizimados por caçadores no século XIX, deixando os bisontes, alces e renas a reproduzir-se livremente.

"Onde os ursos pardos e os lobos se perderam, a biodiversidade das aves é menor", diz Berger. "Sem ursos e lobos, as populações de alces pastaram excessivamente a vegetação que suporta as aves."

O recente retorno de ursos pardos a Grand Teton e à região de Jackson Hole, a sul de Yellowstone, e a reintrodução de lobos no Parque Nacional de Yellowstone permitiu à área recuperar o seu equilíbrio, refere Berger.

 

A remoção dos predadores dos ecossistemas também teve um efeito dominó sobre as populações animais e vegetais do lago Guri, Venezuela. O lago foi criado pela construção de uma barragem hidroeléctrica no rio Caroní. Com a inundação da região pelo novo lago e a transformação das elevações em pequenas ilhas, os predadores como os jaguares e as águias deixaram a zona.

Na ausência de predadores, as suas presas, macacos uivadores, iguanas e formigas cortadoras de folhas, multiplicaram-se nas novas ilhas e rapidamente destruíram o que antes era floresta intocada.

"O impacto da herbivoria intensiva levou a um aumento da mortalidade das árvores e dos rebentos, reduzindo o recrutamento de novos indivíduos para a população", diz John Terborgh, professor de ciência ambiental na Universidade de Duke em Durham, Carolina do Norte.

Parte das críticas contra a utilização dos predadores de topo como animais ícone derivam do facto destes animais serem frequentemente altamente impopulares junto das populações que têm que viver com eles.

"Gastar milhões a proteger espécies que devoram o gado das populações humanas e ameaçam as suas famílias pode levar a antagonismos entre os conservacionistas e as comunidades locais", diz Bob Smith do Durrell Institute of Conservation and Ecology da Universidade de Kent no Reino Unido. "É por isso que temos assistido a um movimento a favor de uma abordagem mais equilibrada, que encoraja as pessoas a viver em conjunto com estas espécies e a tirar partido dos benefícios do ecoturismo ou da caça de trofeus", diz ele.

No passado, os grandes carnívoros eram usados frequentemente como espécies "guarda-chuva", assumindo-se que a sua conservação permitiria conservar habitat suficiente para uma vasta gama de outras espécies.

"Escolher áreas apenas com base nos grandes predadores e decididamente uma abordagem errada, pois animais como os leopardos ou os tigres são geralmente generalistas em relação ao habitat", diz Smith. "É perfeitamente possível conservá-los em habitats com baixa biodiversidade, ao mesmo tempo que não se protege organismos com uma distribuição mais restrita."

Pelo seu lado, Sergio considera necessários muito mais estudos para que o impacto da preservação de predadores sejam plenamente compreendidos.

"Uma palavra de cautela para futuros estudos", diz ele. "O nosso estudo foi feito nos Alpes, o que não significa que automaticamente os predadores sejam indicadores de biodiversidade noutros locais. O mesmo tipo de estudo tem que ser feito noutro tipo de ecossistema para se puder concluir se este é um fenómeno global ou localizado."

 

 

Saber mais:

Nature

Wildlife Conservation Society

Durrell Institute of Conservation and Ecology

 

 

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