2005-02-28

Subject: Canções de baleia e estranhos ecossistemas

News of the Wild

 

Bem-vindo(a) a mais uma edição do boletim informativo  News of the  Wild

Este boletim é mantido pelo site Born to be Wild, em colaboração com o site educativo À Descoberta da Vida,              para que não esqueça o seu lado selvagem ...

 

Em destaque:

Canções de baleia e estranhos ecossistemas

 

  Questões ou comentários para: biologia@sapo.pt

Dê os sites Born to be Wild/À Descoberta da Vida a conhecer a um amigo!!

Há mais de uma década que o investigador da Universidade de Cornell Christopher Clark vem ouvindo o oceano, na esperança de decifrar as enigmáticas canções das baleias. Utilizando hidrofones da marinha dos Estados Unidos, recolheu milhares de sinais acústicos de baleias azuis, anãs, comuns e corcundas.

O seu laboratório de bioacústica é agora capaz de localizar cada um dos cantores e determinar o comprimento da sua canção. Como resultado, teve de redesenhar o mapa da acústica das baleias. "O seu alcance é enorme", explica Clark. "As suas vozes podem alcançar oceanos inteiros."

Recolhendo dados recentemente desclassificados recolhidos pelo Sound Surveillance System (Sistema de vigilância sonora - SOSUS), e utilizando novas ferramentas capazes de trabalhar grande volume de dados, Clark determinou que a canção das baleias viajam milhares de quilómetros e que o aumento da poluição sonora nos oceanos impede a comunicação dos animais.

Não é claro se as baleias a milhares de quilómetros de distância comunicam directamente entre si ou o que contêm as suas mensagens mas os resultados apoiam uma teoria com 30 anos que, antes do advento dos transportes marítimos modernos, as vozes dos animais ressoariam de uma bacia oceânica para outra.

Com sonoridade alta, de baixa frequência e redundante, por outras palavras, "maravilhosamente adaptada" para viajar grandes distâncias, a canção de uma baleia nas águas de Porto Rico podia viajar 2600 Km até às costas de Newfoundland, diz Clark. Quando os cientistas criam um mapa digital da forma como o som se propagas na água, este "ilumina todo o oceano."

O alcance pan-oceânico é adequado para animais de que atingem as 30 a 190 toneladas de peso e que dependem do som reflectido, em vez da luz, para navegar. "Trata-se de animais acusticamente orientados", diz Clark. "A sua consciência e sentido de identidade são baseados no som, não na visão."

Clark está particularmente preocupado com a poluição sonora ou "smog acústico". Os ruídos da navios mercantes duplicam a cada década, diz ele, o que significa que o mundo das baleias diminui por um factor de dois. Ao longo de 20 anos, o seu raio acústico de 1600 Km reduziu-se a 400 Km, o que, presumivelmente, limita o alcance ao longo do qual os animais podem navegar para encontrar alimento ou parceiros.

"Estamos vagarosamente, mas inexoravelmente, a aumentar o nível de ruído ambiente de tal forma que o mundo das baleias está a encolher até ao ponto em que se tornará disfuncional", acredita Clark.

Apesar da proibição da caça comercial à baleia, outras ameaças para além da poluição sonora, como as redes de pesca comercial e os contaminantes oceânicos também continuam a ameaçar a saúde das populações de baleias, segundo Roger Payne, presidente do grupo conservacionista Ocean Alliance.

Pesticidas industriais de longa vida, como o DDT e os PCB são concentrados à medida que se sobre na cadeia alimentar marinha e as baleias estão no topo. O seu navio, o Odyssey, tem viajado por todo o oceano Pacífico recolhendo amostras de tecido de cachalotes, cuja longevidade permite que os químicos se acumulem no tecido gordo. Recolheram, até agora, 1100 amostras e já fizeram testes preliminares em 30 delas.

O estudo será o primeiro a medir a nível mundial o nível de poluição de uma espécie no topo da cadeia alimentar aquática, apesar dos níveis elevados de poluentes em animais marinhas detectados em estudos anteriores.

 

O nível de toxicidade dos PCB, por exemplo, foi definido em 50 ppm (50 miligramas por quilo de tecido vivo) mas testes têm revelado até 400 ppm em orcas, 3200 ppm em belugas e 6800 em golfinhos, o que torna estes animais verdadeiras "lixeiras de resíduos tóxicos com barbatanas", diz Payne.

Enquanto algumas populações de baleias estão a recuperar desde a entrada em vigor da moratória de 1986 sobre a caça comercial à baleia, a influência antropogénica pode ter um papel decisivo nas populações que estão em níveis críticos de ameaça, como as da baleia franca do Atlântico norte.

Quando as baleias estão ameaçadas, também o são ecossistemas especializados que dependem delas e das suas carcassas. Novos estudos sobre o afundamento de carcassas de baleia para o fundo oceânico revelaram um estranho sortido de criaturas, algumas delas nunca vistas noutros pontos do oceano.

O afundamento de carcassas de baleia é um acontecimento tão raro actualmente que os cientistas da Universidade do Hawai, como o oceanógrafo Craig Smith, resolveram rebocar para alto mar carcassas de baleias encalhadas e afundá-las eles próprios. "Na realidade é um serviço à comunidade", diz Smith. "Uma baleia encalhada é uma enorme massa malcheirosa."

Bathykurile guaymasensis (Smith/Glover)Depois ficam à espera de quem aparece. Primeiro vêm os necrófagos como as mixinas, que devoram o tecido mole. Depois as bactérias e invertebrados vários devoram o esqueleto. Quimioautotróficos como o verme zombie chegam quando os ossos começam a emitir sulfito, altura em que a carcassa pode ser comparada com os ecossistemas das nascentes hidrotermais.

Os cientistas especulam que organismos que precisam de sulfito utilizam as carcassas de baleia para se dispersar para novas nascentes hidrotermais. "É provável que os ancestrais dos vermes tubulares gigantes das nascentes termais sejam animais que vivam nas carcassas de baleias mortas e afundadas", diz Smith.

Mas à medida que as baleias desaparecem, o mesmo acontece a estes ecossistemas exóticos.

Segundo algumas estimativas, o efectivo populacional das grandes baleias foi reduzido em 75% como consequência da caça à baleia. Segundo a teoria biológica da conservação, diz Smith, uma queda de 75% numa população significa que 30 a 40% das espécies que dela dependem se vão extinguir.

"Estamos apenas a começar a apreciar os efeitos da caça à baleia nessas comunidades especializadas", explicou Smith. "É muito provável que tenha havido ou vá haver grandes extinções de espécies que vivem no fundo do oceano em associação com a caça à baleia."

 

 

Saber mais:

Christopher Clark

American Association for the Advancement of Science

Science

 

 

Comentar esta notícia           Imprimir

 

Recebeu este boletim através de um amigo??

Faça a sua própria subscrição aqui!!

Se não deseja voltar a receber o boletim News of the Wild clique aqui!!

@ Born to be Wild & À Descoberta da Vida, 2005


Return to Archives

Newsletter service by YourWebApps.com