2017-09-11

Subject: Chovem críticas a artigo que alega poder prever rosto de uma pessoa a partir do seu DNA

Chovem críticas a artigo que alega poder prever rosto de uma pessoa a partir do seu DNA

Dificuldades em visualizar este e-mail? Consulte-o online!

@ Nature/Sarah Leen/NGC

Uma tempestade de críticas caiu sobre um artigo, publicado pelo pioneiro da sequenciação genética Craig Venter, que alega poder prever as características físicas a partir do seu DNA. Revisores e até um dos coautores do artigo dizem que este exagera a capacidade de usar os genes de uma pessoa para identificar o indivíduo, o que pode levantar receios desnecessários sobre a privacidade genética.

No artigo, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), Venter e os seus colegas da companhia Human Longevity, Inc. (HLI), sediada em San Diego, Califórnia, sequenciaram os genomas completos de 1061 pessoas de diferentes idades e etnias. Usando dados genéticos, bem como fotografias tridimensionais de alta qualidade dos rostos dos participantes, os investigadores utilizaram uma abordagem de inteligência artificial para encontrar pequenas diferenças nas sequências de DNA conhecidas por SNP e associadas a características faciais, como a altura do malar. A equipa também procurou SNP que estivessem correlacionadas com fatores como altura, peso, idade, características vocais e cor da pele.

A abordagem identificou corretamente um indivíduo de um grupo de 10 pessoas escolhidas aleatoriamente na base de dados da HLI em 74% das vezes. As descobertas, de acordo com o artigo, sugerem que as agências de aplicação da lei, cientistas e outros que lidam com genomas humanos devem proteger esses dados cuidadosamente para impedir que as pessoas sejam identificadas apenas com base no seu DNA. “A crença central dos investigadores da HLI é que não existe verdadeiro anonimato e privacidade nas bases de dados com acesso público”, disse a HLI num comunicado.

Mas outros geneticistas, tendo estudado o artigo, referem que, na sua opinião, a alegação é vastamente exagerada: “Não penso que este artigo levante esses riscos porque não demonstraram qualquer capacidade para individualizar esta pessoa a partir do DNA", diz Mark Shriver, antropólogo na Universidade Estadual da Pensilvânia em University Park. Num grupo aleatoriamente selecionado de 10 pessoas, especialmente um escolhido de um conjunto de dados tão pequeno e diverso como o da HLI, saber idade, sexo e raça eliminam logo a maioria dos indivíduos, diz ele.

Para o demonstrar, o biólogo computacional Yaniv Erlich, da Universidade de Columbia em Nova Iorque, analisou os dados de idade, sexo e étnia do artigo da HLI. Num estudo publicado no servidor bioRxiv, ele calculou que saber apenas essas 3 características era suficiente para identificar um indivíduo de um grupo de 10 pessoas na base de dados da HLI em 75% das vezes. Erlich defende que não houve necessidade de saber alguma coisa sobre o genoma da pessoa, portanto. Mais, as reconstruções da estrutura do rosto da HLI a partir de SNP não são altamente específicas, tendem a ser semelhantes a qualquer um desse sexo e raça.

Antes de ser publicado na PNAS, o artigo tinha sido submetido à Science, diz Shriver, que reviu o artigo para essa revista. Ele considera que os dados da HLI são sólidos e está impressionado com o método inovador do grupo para determinar a idade sequenciando as extremidades dos cromossomas, que encurtam ao longo do tempo. Mas também considera que o artigo não demonstra que os indivíduos podem ser identificados através do seu DNA, como alega: “Penso que representa de forma completamente errada o que fizeram e descobriram."

A HLI refere que o seu artigo afirma usar diversos parâmetros, dos quais o rosto de uma pessoa é apenas um, para identificar para identificar alguém é possível com base no trabalho com milhares de genomas: “Defende que a predição se tornará cada vez mais precisa", diz Heather Kowalski, porta-voz da HLI. A HLI afirma manter a confiança na sua metodologia e ainda que reconheça que a amostra era pequena, está a "trabalhar em refutar as críticas de Yaniv na BioRxiv”.

Shriver diz que ele e Erlich salientaram as suas preocupações aos autores nas revisões do artigo para a Science. Tanto Shriver como Erlich referem que a revista acabou por rejeitar o artigo, razão porque este foi depois submetido à PNAS segundo uma opção que permite a um membro da Academia Americana de Ciência, Engenharia e Medicina, como Venter, escolher os revisores.

 

Dois deles são peritos em proteção da informação e o terceiro é um perito em bioética. A PNAS confirmou que Venter escolheu os 3 revisores mas a HLI recusou comentar o processo de revisão.

Jason Piper, biólogo computacional e um dos coautores do artigo, agora na Apple, Singapura, concorda que o artigo não representa as descobertas que ele e os restantes coautores produziram. Piper acrescenta que o seu contrato com a companhia prescindia da sua aprovação do manuscrito antes deste ser submetido, o que permitiu à HLI apresentar os seus dados como muito bem entendesse. A HLI diz que “os autores tiveram oportunidade de rever e comentar o artigo".

Desde então, Piper tem criticado fortemente o artigo no Twitter e considera que, na sua opinião, a HLI tem um potencial conflito de interesses ao encorajar a restrição de acesso às bases de dados de DNA. A HLI, uma entidade comercial que procura o lucro, está a tentar construir a maior base de dados do mundo de informação genética humana.

“Penso que a privacidade genética é muito importante mas a abordagem seguida é errada”, diz Piper. “Para se obter mais informação do genoma, é preciso partilhar.” Um abordagem bem mais útil, diz ele, seria encontrar uma forma de tornar os dados genómicos públicos sem permitir que os indivíduos fossem identificados.

Em resposta às críticas ao artigo, a companhia respondeu com um comunicado onde se lê que “a HLI defende a proteção dos dados genómicos e a promoção de soluções modernas para a partilha de dados”. Acrescenta que o artigo pretendia lançar a discussão sobre a forma de partilhar informação genética protegendo a privacidade de uma pessoa.

Ainda assim, Erlich está preocupado com a possibilidade de o estatuto de Venter dar ao artigo peso aos olhos dos decisores, que podem tornar-se excessivamente preocupados com a privacidade do DNA: “Novas regras e regulamentações são baseadas em artigos destes, é importante que, quando lidamos com riscos de privacidade, ter os factos corretos antes de mais.”

 

 

Saber mais:

Cromossomas de leveduras sintéticas ajudam a sondar mistérios evolutivos

Revelado genoma bacteriano radicalmente alterado

Célula minimalista sobe a parada na corrida para dominar a vida sintética

História humana escrita num único genoma

Genoma construído à mão

Requerida patente para 'vida sintética'

 

 

Facebook simbiotica.orgTwitter simbiotica.orgPinterest simbiotica.orgInstagram simbiotica.orgYouTube simbiotica.org

 

Arquivo  |  Partilhar Comentar |   Busca Contacte-nos  |  Imprimir  |  Subscrever | @ simbiotica.org, 2017


Return to Archives

Newsletter service by YourWebApps.com