2017-08-16

Subject: Serpentes marinhas perdem as riscas para lidar com a poluição


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Serpentes marinhas perdem as riscas para lidar com a poluição

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@ Nature/Klaus Stiefel

As serpentes marinhas que vivem em águas poluídas evoluíram de forma a perder as suas riscas claras, escurecendo a sua pele como forma de lidar com a poluição.

A descoberta acrescenta a serpente marinha cabeça de tartaruga Emydocephalus annulatus à tão diversa lista de organismos que apresentam melanismo industrial, quando as variedades mais escuras dos animais se tornam dominantes em ambientes poluídos. O fenómeno é um exemplo clássico de seleção natural e um dos casos mais conhecidos, o aumento da frequência da versão escura de uma traça na Inglaterra cheia de fuligem do século XIX, é frequentemente citado nos manuais de biologia.

Durante décadas, o ecologista Rick Shine tem nadado nas baías de Nouméa na ilha da Nova Caledónia no sul do Pacífico, para estudar as espécies de serpentes marinhas e recolher as peles que largam.

Ao longo dos anos, enquanto estudava as cobras do Indo-Pacífico, ele apercebeu-se de algo curioso: em algumas populações a maioria das cobras eram completamente negras, enquanto noutras a maioria tinha riscas pretas e brancas ou manchas.

Em 2014, Claire Goiran, bióloga marinha na Universidade da Nova Caledónia em Nouméa e que por vezes ajudava Shine a recolher serpentes marinhas, descobriu um estudo sobre pombos parisienses. Nesse estudo, os investigadores tinham descoberto que as penas mais escuras armazenavam mais zinco e outros elementos típicos da poluição do que as penas mais claras, pois estes elementos ligam-se ao pigmento melanina.

Isso sugeria que os pelos ou penas melânicos podem ser uma vantagem seletiva para animais que vivem em zonas poluídas pois permite-lhes libertarem-se mais rapidamente dos químicos perigosos.

Assim, Goiran e Shine, que está sediado na Universidade de Sydney, colaboraram para ver se o mesmo acontecia com as serpentes marinhas, dado que algumas zonas da lagoa Nouméa estão poluídas por escorrências de atividade mineira. Publicaram os resultados na revista Current Biology.

Os investigadores compararam as cores de 1400 serpentes marinhas cabeça de tartaruga que Shine recolheu ao longo de 13 anos de locais industriais e não industriais na Nova Caledónia e na Austrália. A variedade preta era mais comum nas populações industriais, descobriram eles, enquanto nas zonas não industriais havia muito poucas.

Seguidamente testaram as peles descartadas em busca de elementos como arsénico e zinco, tendo descoberto que, tal como nos pombos, as peles negras continham concentrações mais elevadas de poluentes. Mais, nas cobras listradas, os anéis negros armazenavam mais poluentes que os anéis brancos, revelando que a melanina devia ser responsável pela retenção dos contaminantes.

Os investigadores descobriram que o mesmo se aplicava a outros tipos de serpentes marinhas listradas, como a Laticauda saintgironsi ou a Laticauda aggregate, que vivem em baías mais límpidas de Nouméa. As cobras podem ingerir os poluentes dos sedimentos quando se alimentam de ovos de peixes no fundo do mar, diz Goiran.

 

As serpentes negras também mudam de pele mais frequentemente, descobriram os investigadores: “Se a mudança de pele é um mecanismo para se livrarem dos poluentes então pode realmente ser uma vantagem", diz Shine.

“Não tenho problema em aceitar que as zonas escuras da pele tenham maior concentração de poluentes", diz Arne Rasmussen, herpetólogo na Faculdade de Arquitetura, Design e Conservação da Academia Dinamarquesa de Belas Artes em Copenhaga. "Mas daí a concluir que há mais cobras negras a viver em áreas poluídas por causa da poluição é capaz de ser demasiado." Outros fatores, incluindo a temperatura, podem explicar a distribuição das cobras negras versus cobras listradas, diz Rasmussen. Pesquisas anteriores revelaram que as cobras mais escuras tendem a viver em zonas mais frias.

Shine sabe desses estudos e chegou mesmo a realizar um deles. A ligação faz sentido para cobras terrestres, diz ele, que podem beneficiar de uma pele escura que absorve calor, mas a vantagem da cor não se aplica às suas parentes aquáticas. Para elas, a água é um isolante que mantém tanto as cobras negras, como as listradas quentes.

Anedoticamente, Rasmussen diz ter visto tanto cobras negras, como listradas, a viver em zonas mais poluídas que Nouméa mas “se seria fantástico se pudessemos usar uma serpente marinha para indicar a quantidade de poluentes numa dada área".

Isso não resolve a questão de as cobras terem tido que se adaptar à poluição em primeiro lugar, diz Shine. Apesar de a muda a pele poder ser vantajosa, há limites para o que pode fazer par proteger uma população, acrescenta ele. Ainda assim, “é uma história encorajadora em termos de evolução rápida, mostra que há uma outra via para os organismos lidarem com alguns dos problemas que lhes causamos".

 

 

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