2017-07-11

Subject: Estudos de genomas antigos revelam passado africano

Estudos de genomas antigos revelam passado africano

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@ Nature/Chris Johns/NGC

Ignorados há demasiado tempo pelos investigadores, os humanos antigos que viveram em África há milhares de anos estão finalmente a ter os seus genomas estudados. Dois projetos publicaram resultados sobre os genomas de cerca de 20 indivíduos que, juntos, revelam que a história da nossa espécie no continente é muito mais complexa do que se pensava.

África foi negligenciada, até agora, pelos investigadores de DNA antigo devido ao clima inclemente do continente. Dado que o calor acelera a deterioração do DNA, os cientistas focaram-se em sequenciar vestígios de locais europeus e siberianos mais frios.

O primeiro sucesso em África surgiu em 2015, quando os investigadores sequenciaram o genoma de um homem etíope com 4500 anos, preservado numa gruta montanhosa relativamente fria. Mas avanços na remoção de contaminantes e a descoberta de um minúsculo osso do ouvido interno carregado de DNA antigo convenceram os cientistas de que a tecnologia está finalmente preparada para revelar o passado de África.

Stephan Schiffels, geneticista populacional no Instituto Max Planck para Ciência da História Humana em Jena, Alemanha, considera "embaraçosas" as lacunas na história subsaariana, especialmente à luz do que os investigadores sabem sobre as populações antigas da Eurásia. Isto torna ainda mais importante a utilização do DNA para revelar a história escondida das migrações humanas em África, diz ele.

Isso é precisamente o que a equipa liderada por Pontus Skoglund e David Reich, geneticistas populacionais na Faculdade de Medicina de Harvard em Boston, Massachusetts, agora fez. Numa palestra no encontro anual da Sociedade de Biologia Molecular em Austin, Texas, Skoglund explicou que a sua equipa tinha examinado os genomas de 15 indivíduos antigos que viveram há 6 mil anos no leste e sul de África, onze dos quais sofreram uma análise detalhada.

Os resultados mostraram que os humanos antigos se deslocaram no continente muito mais do que se pensava. O genoma de um indivíduo com 3 mil anos da Tanzânia revelou ancestralidade de caçadores-recoletores do leste africano mas também de dos primeiros agricultores do Médio Oriente. Isso apoia estudos anteriores que documentaram uma migração 'de volta a África' há vários milhares de anos: esses migrantes eram parentes próximos dos primeiros agricultores da região do Levante no Médio Oriente.

O fóssil tanzaniano foi encontrado num local arqueológico associado à pastorícia e algumas das suas assinaturas genéticas também foram encontradas nos atuais pastores do sul de África, diz Skoglund. Isso sugere que as populações da África oriental levaram a pastorícia para o sul de África.

O estudo ainda não publicado de Skoglund revelou ainda mais movimentos. O genoma de um indivíduo sul africano com 2 mil anos está relacionado com o dos caçadores-recoletores sul-africanos contemporâneos, conhecidos por San. Também está relacionado com genomas antigos de caçadores-recoletores, cujos vestígios foram encontrados no Malawi e na Tanzânia e sequenciados pela equipa, mas não com com o DNA dos atuais habitantes do leste de África.

Skoglund sugere que a razão para isto é a bem documentada migração dos grupos falantes de Bantu da África ocidental, que levaram uma linguagem distinta e agricultura para o leste e o sul de África há mil ou 2 mil anos. Estes migrantes parecem ter substituído completamente os caçadores-recoletores locais. Um indivíduo que viveu na península de Zanzibar há 750 anos, depois da migração, não partilha qualquer ancestralidade com os caçadores-recoletores anteriores do sul ou leste africano.

 

Uma equipa diferente, liderada por Mattias Jakobsson, da Universidade de Uppsala, Suécia, encontrou evidências das mesmas migrações no genoma de um rapaz que viveu perto da baía de Ballito há 2 mil anos e seis outros sul-africanos antigos. O seu estudo foi publicado no servidor bioRxiv no mês passado.

Provas de migrações como a expansão Bantu têm sido encontradas em locais arqueológicos e no DNA dos africanos contemporâneos, diz Schiffels, mas é gratificante ter evidências diretas destes movimentos.

Os genomas africanos antigos também têm o potencial de iluminar eventos muito mais antigos. A equipa de Jakobsson usou o genoma do rapaz da baía Ballito para inferir que o Homo sapiens emergiu há, pelo menos, 260 mil anos, muito antes do que estudos genéticos anteriores sugeriam. A equipa de Skoglund, entretanto, usou os genomas antigos que sequenciou para ajudar a descobrir uma possível 'população fantasma'. Esta, sugere a sua equipa, teria divergido da população fundadora do H. sapiens antes de qualquer outro grupo africano e posteriormente teria contribuído para a composição genética de alguns africanos ocidentais atuais.

Iain Mathieson, geneticista populacional na Universidade da Pensilvânia, Filadélfia, espera que o DNA africano antigo possa explicar a migração da nossa espécie para fora de África, há cerca de 50 a 100 mil anos, pintando uma imagem genética dos habitantes do continente nessa época.

Mas esse feito pode exigir DNA muito mais antigo que alguns milhares de anos e obtê-lo pode exigir outro grande salto tecnológico. A análise de ossos que se pensa terem cerca de 300 mil anos de Marrocos, atribuídos aos primeiros H. sapiens conhecidos, até agora não forneceu DNA utilizável.

 

 

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