2017-07-03

Subject: Maior estudo de sempre com neonicotinoides confirma danos a abelhas

Maior estudo de sempre com neonicotinoides confirma danos a abelhas

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@ Nature/Frank Bienewald/LightRocket/Getty

O maior estudo à data sobre a polémica questão de os neonicotinoides serem perigosos para as abelhas veio fornecer novos argumentos aos que defendem a proibição destes químicos.

O estudo de campo em larga escala revelou que a exposição a neonicotinoides é perigosa para as abelhas pois estes pesticidas reduzem a capacidade das abelhas melíferas para sobreviverem à hibernação invernal, referem os investigadores. “Mostrámos efeitos negativos significativos em fases críticas do ciclo de vida, o que é uma grande preocupação", diz Richard Pywell, que estuda gestão sustentada de terras no Centro de Ecologia e Hidrologia de Wallingford, Reino Unido e é coautor do artigo resultante da experiência, publicado na revista Science.

No entanto, o trabalho foi financiado por dois dos principais produtores de neonicotinoides, a Bayer CropScience e a Syngenta. Eles questionam as conclusões dos cientistas e defendes os pesticidas, que já estão proibidos ou restringidos em vários países. Os investigadores, por sua vez, consideram que o seu trabalho foi totalmente independente.

Nos últimos anos tem vindo a crescer a preocupação entre cientistas e decisores com a possibilidade de os neonicotinoides serem perigosos para as abelhas. Os pesticidas são frequentemente aplicados às sementes antes de serem colhidas e, posteriormente, surgem no pólen. Mas estudos de laboratório que investigaram os efeitos sobre a saúde e comportamento das abelhas foram criticados por exporem as abelhas a doses superiores dos químicos do que as que receberiam no campo. Já outros estudos de campo forneceram resultados inconsistentes, revelando, por exemplo, perigo para as abelhas selvagens mas não para as abelhas melíferas.

Para tentar responder definitivamente a todas estas questões, uma equipa liderada pelo Centro de Ecologia e Hidrologia realizou o maior estudo de sempre do seu tipo, financiado com US$3 milhões pela Bayer CropScience e pela Syngenta, bem como outros US$520 mil do próprio centro.

Distribuíram três espécies de abelhas, melíferas Apis mellifera e duas variedades selvagens (abelhões Bombus terrestris e abelhas solitárias Osmia bicornis) por 33 locais no campo no Reino Unido, Alemanha e Hungria com culturas de colza. Algumas foram colocadas perto de culturas protegidas com neonicotinoides e outras em campos que não usavam esses pesticidas.

Apesar de o estudo não revelar que os neonicotinoides têm um efeito globalmente negativo sobre as abelhas, os resultados não completamente claros: os pesticidas parecem ser perigosos para as abelhas nos locais no Reino Unido e Hungria mas aparentemente tiveram um efeito positivo nas abelhas melíferas alemãs. Pywell salienta que os efeitos na Alemanha foram de duração mais reduzida e a razão para isso não é clara. Podem estar associados, em parte, a um estado de modo geral mais saudável das colmeias na parte alemã dos testes, especula ele.

Os financiadores do estudo responderam questionando a análise dos dados feita pelos autores, bem como as suas conclusões. Peter Campbell, especialista ambiental na Syngenta, considera que os dados mostram que existem circunstâncias em que os neonicotinoides podem ser usados de forma segura e, acrescenta ele, a conclusão "muito negativa" do estudo é injusta.

Christian Maus, cientista principal da Bayer para o cuidado das abelhas, também contesta as conclusões dos autores e questiona alguma da sua análise estatística. Num comunicado, a Syngenta também apelida os dados de “variáveis" e a Bayer CropScience considera que o estudo forneceu “resultados inconsistentes". As descobertas chegam num momento crucial para a indústria pois a União Europeia está a rever a sua proibição de 2013 da utilização de neonicotinoides nas sementes.

Pywell mantém as suas conclusões do artigo, que foi revisto por pares. Ele salienta que toda a experiência foi realizada sob o escrutínio e um corpo de aconselhamento independente que incluía um estatístico. As diferenças entre os países são intrigantes e devem ser melhor investigadas, considera, e, ao contrário das queixas da indústria, aqueles que defendem mais controlo dos neonicotinoides receberam os resultados de braços abertos.

 

“Temos que lhes dar nota 10", diz Dave Goulson, investigador de abelhas na Universidade de Sussex em Brighton, Reino Unido. O estudo está “bem concebido, bem replicado e bem financiado, ironicamente pela indústria que não vai ficar satisfeita, mas os resultados estão de acordo com o que já foi feito". “Chegou-se a um ponto em que já não é plausível continuar a negar que estas coisas são perigosas para as abelhas em estudos realísticos, para mim é o prego que faltava no caixão."

Nigel Raine, que estuda polinizadores na Universidade do Guelph, Canadá, considera que o estudo responde a uma série de questões debatidas, por exemplo, a descoberta de que os neonicotinoides afetam negativamente as abelhas melíferas nos campos.

Um outro estudo publicado ao mesmo tempo na revista Science analisa a situação norte-americana. O entomólogo Amro Zayed estudou de que forma os neonicotinoides afetaram as abelhas nas quintas canadianas de milho. O seu trabalho foi financiado pelo ministério da agricultura, alimentação e assuntos rurais do Ontário.

“O conhecimento de quantos neonicotinoides se encontram na natureza é incompleto", explica Zayed. “Uma das maiores surpresas que encontrei foi detetar neonicotinoides ao longo de toda a estação de crescimento, ou seja, a duração da exposição era francamente maior do que se esperava."

A equipa de Zayed descobriu que as abelhas melíferas são expostas a níveis significativos toxicologicamente de neonicotinoides ao longo da sua estação ativa. Quando alimentaram abelhas em laboratório com níveis equivalentes de químicos, descobriram que os insetos tinham menos esperança de vida e as suas colónias tinham menos possibilidade de manter rainhas saudáveis.

Muitas das descobertas são resultados que “outros investigadores já tinham revelado mas o seu trabalho tinha sido criticado por ser pouco realista", salienta Zayed. O seu estudo também mostra que as abelhas têm pior desempenho quando expostas a uma combinação de neonicotinoides com fungicidas, algo que Raine considera dever ser o próximo passo de investigação, para além das diferenças entre países observadas por Pywell: “O que se retira destes estudos é a complexidade do sistema", diz ele.

 

 

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