2017-06-19

Subject: Resistência a antibiótico de último recurso alastrou mais do que se antecipava

Resistência a antibiótico de último recurso alastrou mais do que se antecipava

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@ Nature/Qilai Shen/Bloomberg/Getty

Há dezoito meses, o gene que confere resistência à colistina, conhecida por ser um antibiótico de último recurso, surgiu em bactérias de porcos na China. Desde então, o gene da resistência, batizado mcr-1, foi encontrado por todo o mundo a uma taxa alarmante, revelam várias apresentações no encontro da Sociedade Americana de Microbiologia (SAM) em Nova Orleães, Louisiana.

Em alguns locais, perto de 100% do gado transporta o gene mcr-1, para além de um crescente número de pessoas. A propagação do gene é um dos claros exemplos da forma como a utilização de antibióticos na pecuária pode conduzir a resistência de infeções humanas, refere Lance Price, investigador de antibióticos na Universidade George Washington em Washington DC.

A colistina existe desde a década de 1950 mas raramente foi usada em pessoas pois provoca problemas renais. Em vez disso, muitos países usam-na para promover o crescimento do gado, uma prática que parece ter levado ao desenvolvimento de bactérias resistentes. Isso é um problema porque os médicos cada vez mais se estão a voltar para a colistina ao longo da última década para tratar pacientes que não reagem a outros antibióticos: “É uma porcaria de medicamento e é um sinal do nosso desespero estarmos preocupados com a perda de um antibiótico tão tóxico", diz Price.

Os genes de resistência à colistina evoluíram naturalmente em bactérias mas peritos em saúde pública começaram a preocupar-se quando os investigadores chineses relataram, no ano passado, que o gene mcr-1 tinha passado do genoma bacteriano para um plasmídeo, um segmento circular de DNA capaz de passar ser transmitido entre bactérias de espécies diferentes de bactérias.

Evidências sugerem que plasmídeos com mcr-1 existem nas pecuárias há décadas mas os investigadores apenas agora se aperceberam disso por andarem à sua procura. Ainda assim, a sua ocorrência não parece estar a aumentar.

Uma análise de bactérias intestinais de 8 mil amostras fecais humanas recolhidas ao longo de cinco anos em Guangzhou, China, revelaram o mcr-1 em 497 delas. Também foi encontrada uma crescente prevalência do gene nesse período de tempo, de acordo cm Guo-Bao Tian, microbiólogo na Universidade Sun Yat-sen em Guangzhou. Tian descobriu que 10% dos genes mcr-1 surgiram em estirpes das bactérias intestinais Escherichia coli que também são resistentes a outros antibióticos.

Noutro estudo, também apresentado no encontro da SAM, a equipa de Tian descobriu mcr-1 em 25% dos pacientes de um hospital de Guangzhou em 2016. A estirpe de E. coli encontrada nas amostras também continha o gene blaNDM-5, que confere resistência às carbapenemas, outra classe de antibióticos de último recurso.

Apesar dos dois genes serem encontrados em plasmídeos diferentes, é vulgar um plasmídeo transportar resistência a vários medicamentos, recorda Catherine Logue, microbióloga veterinária na Universidade Estadual do Iowa em Ames. O tratamento com um medicamento pode selecionar bactérias com esses plasmídeos, potencialmente aumentando a resistência a vários medicamentos.

  Na sua apresentação no encontro da SAM, Logue relatou ter descoberto genes de resistência às carbapenemas e a antibióticos da classe da penicilina. Estes genes foram descobertos em esfregaços de 107 galinhas de capoeira no Brasil, o maior exportador de frango do mundo. Cerca de 60% das amostras tinham estirpes de E. coli contendo mcr-1.

A prevalência do mcr-1 foi ainda maior em duas quintas aleatoriamente escolhidas em Portugal: 98% dos 100 porcos saudáveis que os investigadores analisaram continham o gene da resistência, referiu Laurent Poirel, investigador de resistência a antibióticos na Universidade de Fribourg, Suíça, também presente no encontro da SAM. Ele também descobriu mcr-1 em três tipos diferentes de plasmídeos e em várias estirpes de bactérias, sugerindo que os porcos não estavam necessariamente a transmitir o gene uns aos outros mas estavam a recebê-lo de múltiplas fontes: “Não temos a menor ideia de como lá chegou", disse ele.

Logue e Tian também encontrou mcr-1 em vários plasmídeos e estirpes bacterianas diferentes. O gene parece ser particularmente bom a saltar para diferentes organismos, o que o pode tornar muito bem sucedido e difícil de tratar. Se alguém comer carne mal cozinhada ou trabalhar com animais contendo bactérias com mcr-1, os microrganismos intestinais dessa pessoa podem adquirir o gene da resistência.

Price está espantado com a prevalência do mcr-1 que se verificou nestes países. O Brasil baniu o uso da colistina na pecuária em 2016, enquanto a China o fez já em 2017, mas Price não tem a certeza se isso irá conter a propagação desses genes. Ele apenas espera que o caso do gene mcr-1 sirva de alerta para a utilização excessiva de antibióticos na pecuária.

 

 

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