2017-06-11

Subject: Fóssil mais antigo de Homo sapiens pode reescrever história da nossa espécie

Fóssil mais antigo de Homo sapiens pode reescrever história da nossa espécie

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@ Nature/NHM London

Investigadores alegam ter descoberto os mais antigos vestígios de Homo sapiens de que há registo num local improvável: Marrocos.

Num local arqueológico perto da costa atlântica vestígios identificados como crânio, face e maxila dos primeiros membros da nossa espécie foram datados de há cerca de 315 mil anos. Isso indicia que o H. sapiens terá surgido mais de 100 mil anos mais cedo do que antes se pensava: os investigadores localizavam a origem da nossa espécie no leste africano há cerca de 200 mil anos.

As descobertas, publicadas na revista Nature, não significam que o H. sapiens tenha surgido no norte de África, sugerem antes que os primeiros membros da espécie evoluíram por todo o continente, dizem os cientistas.

“Até agora, pensava-se que a nossa espécie tivesse relativamente depressa algures numa espécie de Jardim do Paraíso na África subsaariana", explica Jean-Jacques Hublin, autor do estudo e diretor do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, Alemanha. Agora, “eu diria que o Jardim do Paraíso algures em África é provavelmente toda a África, o que o torna um enorme Jardim". Hublin foi um dos líderes da escavação que durou mais de uma década nesta localização em Marrocos, conhecida por Jebel Irhoud.

Hublin conheceu Jebel Irhoud pela primeira vez na década de 1980, quando lhe mostraram um espécime intrigante de uma mandíbula de criança do local. Mineiros tinham descoberto um crânio humano praticamente completo em 1961 e escavações posteriores também tinham revelado uma caixa craniana, bem como ferramentas de pedra sofisticadas e outros sinais da presença humana.

Os ossos “pareciam demasiado primitivos para serem alguma coisa compreensível por isso as pessoas inventaram algumas ideias muito estranhas", diz Hublin. Os investigadores consideraram que teriam 40 mil anos e proposeram que Neanderthal teriam vivido no norte de África.

Mais recentemente, os investigadores sugeriram que os humanos de Jebel Irhoud eram uma espécie arcaica que sobreviveu no norte de África até que o H. sapiens vindo do sul do Saara o substituiu. A maioria dos cientistas coloca a origem da nossa espécie no leste de África: dois dos fósseis conhecidos mais antigos de H. sapiens, crânios com 196 e 160 mil anos, vêm da Etiópia e estudos do DNA das populações atuais por todo o mundo apontam para uma origem africana há cerca de 200 mil anos.

Hublin visitou Jebel Irhoud pela primeira vez na década de 1990, dando com o local enterrado. Não teve tempo, nem dinheiro, para o escavar até 2004, quando se juntou à Sociedade Max Planck. A sua equipa alugou um trator e um bulldozer para remover cerca de 200 metros cúbicos de rocha que bloqueavam o acesso.

O seu objetivo inicial era recriar o local usando métodos novos mas no final da década de 2000 a equipa descobriu mais de 20 novos ossos humanos relativos a, pelo menos, cinco indivíduos, incluindo uma mandíbula espantosamente completa, fragmentos de crânios e ferramentas de pedra. A equipa liderada pelos arqueólogos Daniel Richter e Shannon McPherron, também do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, datou o local e todos os vestígios humanos lá encontrados entre 280 e 350 mil anos, usando dois métodos diferentes.

A nova datação e a descoberta de novos ossos humanos convenceram Hublin que os primeiros H. sapiens viveram em tempos em Jebel Irhoud: “É um rosto com o qual nos poderíamos cruzar na rua", diz ele. Os dentes, apesar de grandes quando comparados com os dos humanos atuais, são muito mais parecidos com os do H. sapiens do que com os dos Neanderthal ou outros humanos arcaicos. Os crânios de Jebel Irhoud, alongados quando comparados com os de H. sapiens posteriores, sugerem que os cérebros destes indivíduos estavam organiados de forma diferente.

Este facto dá pistas sobre a evolução da linhagem do H. sapiens até aos humanos anatomicamente modernos. Hublin sugere que os humanos anatomicamente modernos podem ter adquirido as suas faces características antes das alterações à forma dos seus cérebros terem ocorrido. Mais, a mistura de características observada em Jebel Irhoud permanece e outros fósseis semelhantes a H. sapiens de outras localizações em África apontam para uma génese diversa para a nossa espécie e lança dúvida sobre uma origem exclusivamente no leste africano.

“O que pensamos é que antes de há 300 mil anos houve uma dispersão da nossa espécie, ou, pelo menos, da versão mais primitiva da nossa espécie, por toda a África", diz Hublin. Por volta desta altura, o Saara era verde e repleto de lagos e rios. Animais que deambulavam pela savana do leste de leste africano, incluindo gazelas, gnus e leões, também viveram em Jebel Irhoud, sugerindo que estes ambientes estiveram em tempos unidos.

 

Uma origem anterior do H. sapiens também é apoiada por um estudo de DNA antigo publicado no servidor bioRxiv. Investigadores liderados por Mattias Jakobsson, da Universidade de Uppsala, Suécia, sequenciaram o genoma de um rapaz que viveu no sul de África há cerca 2 mil anos, e foi apenas o segundo genoma antigo de um africano subsaariano a ser sequenciado. Eles determinaram que os seus ancestrais da linhagem H. sapiens divergiram de algumas das populações africanas atuais há mais de 260 mil anos.

Hublin refere que a sua equipa tentou obter DNA dos ossos de Jebel Irhoud mas falhou. A análise genética poderia ter estabelecido de forma clara se os vestígios pertencem à linhagem que conduz aos humanos modernos.

O paleontólogo Jeffrey Schwartz, da Universidade de Pittsburgh, Pennsylvania, considera as novas descobertas importantes mas não está convencido que devam ser consideradas H. sapiens. Demasiados fósseis de aspeto diferente foram amontoados sob essa designação, pensa ele, complicando os esforços para interpretar novos fósseis e criar cenários sobre como, quando e onde a nossa espécie surgiu.

"O Homo sapiens, apesar de ser tão bem conhecido, era uma espécie sem passado até agora", diz María Martínon-Torres, paleontropóloga no University College de Londres, salientando a escassez de fósseis associados às origens humanas em África. Mas a falta de características, diz ela, que definam a nossa espécie, como o queixo proeminente e a testa, convencem-na de que os vestígios de Jebel Irhoud não devem ser considerados H. sapiens.

Chris Stringer, paleoantropólogo no Museu de História Natural de Londres, diz ter ficado intrigado pelos vestígios de Jebel Irhoud quando primeiro os viu, no início da década de 1970.

Percebeu que não eram Neanderthal mas pareciam demasiado novos e de aspeto primitivo para serem H. sapiens. Mas com as datas mais antigas e os novos ossos, Stringer concorda que os ossos de Jebel Irhoud pertencem certamente à linhagem H. sapiens: "Mudaram Marrocos de uma posição subalterna na evolução da nossa espécie para uma posição proeminente."

Para Hublin, que nasceu na vizinha Algéria, de onde fugiu quando tinha oito anos no início da guerra civil, voltar ao norte de África para um local que o cativou durante décadas foi uma experiência muito emotiva: “Sinto que tenho uma relação pessoal com este local”, diz ele. “Não posso dizer que fechámos um capítulo mas chegámos a uma conclusão tão espantosa depois desta viagem tão longa que fico maravilhado com tudo."

 

 

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