2017-05-15

Subject: Como os dingos podem estar a moldar a paisagem australiana

Como os dingos podem estar a moldar a paisagem australiana

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@ Nature/Simon King/Nature Picture Library

Os dingos podem lançar o pânico na população australiana de ovinos, pelo que têm sido mantidos afastados por vedações de uma grande parte do país mas agora uma nova investigação sugere que a sua exclusão pode conduzir a uma explosão populacional das suas presas preferidas, os cangurus, que que são capazes de alterar a vegetação de uma paisagem e até a química do seu solo.

A descoberta é a mais recente contribuição para um debate longo e amargo sobre os efeitos dos dingos sobre os ecossistemas australianos.

Esse debate é parte de uma discussão mais vasta sobre cascatas tróficas, a ideia de que os predadores de topo alteram o número e o comportamento dos herbívoros, que, por sua vez, afetam a vegetação e a composição do solo de um dado habitat. A mais recente investigação, publicada na revista Proceedings of the Royal Society B, não resolve o debate mas contribui sem dúvida com uma experiência controlada para um campo muito criticado por depender de fracas evidências.

O estudo foi possível por uma vedação à prova de dingos com 5400 quilómetros, que se estende por todo o outback australiano e foi construída há décadas para manter os predadores afastados do gado. Mas a vedação também desencadeou uma experiência inusitada pois “dois universos ecológicos completamente diferentes" emergiram, explica o ecologista Michael Letnic, da Universidade da Nova Gales do Sul em Sydney. Existem diferenças óbvias no número de cangurus e no tipo e quantidade de plantas de cada um dos dois lados: Há mais ervas do lado dos dingos e mais vegetação lenhosa, como árvores e arbustos, do lado dos cangurus.

Para aferir a forma como os dingos estão a afetar o ambiente, Letnic e o seu colega Timothy Morris, que dirigiu o trabalho quando estava na Universidade da Nova Gales do Sul, estimaram o número de dingos e cangurus de cada um dos lados da vedação. Para o fazer realiarão censos noturnos com luzes. A equipa também estabeleceu 16 lotes, cada um com 11 metros quadrados, oito de cada lado da vedação. Quatro de cada lado foram fechados aos cangurus para verificar de que modo os herbívoros afetam a vegetação.

Do lado dos dingos da vegetação, os investigadores observaram 85 canídeos e 8 cangurus, já do lado dos cangurus a equipa apenas encontrou um dingo e mais de 3200 cangurus.

Os lotes do lado dos dingos da vedação não revelaram grandes diferenças em termos de vegetação mas do outro lado, as zonas vedadas aos cangurus tinham cerca de 12% mais coberto vegetal, implicando que o elevado número de herbívoros reduz o coberto vegetal de uma paisagem.

Os lotes vedados do lado dos cangurus também revelaram mais carbono, fósforo e nitrogénio no solo, sugerindo que a intensa pastagem fora dos lotes estava a alterar a química do solo na área. Letnic pensa que os cangurus tendem a mover os nutrientes para longe das pradarias, os animais descansam à sombra de árvores durante o dia logo os nutrientes das onas herbáceas são depositados nas zonas lenhosas quando os cangurus defecam.

Benjamin Allen, ecologista da vida selvagem na Universidade de Queensland Sul em Toowoomba, é o autor principal de uma análise publicada em março que questiona o rigor da investigação sobre cascatas tróficas e, apesar de Morris e Letnic terem a componente do controlo nos cercados à prova de cangurus (ao contrário de muitos estudos sobre o tem), ele não considera este novo trabalho convincente.

  Ele considera que alguns dos métodos usados, como a contagem com holofotes, são demasiado grosseiros para fornecerem números corretos e pensa que hipóteses alternativas , como por exemplo a presença de ovelhas na zona e a disponibilidade de água, não foram adequadamente tidos em conta como explicações para as diferenças de vegetação à escala de paisagem.

Em último caso, a diferença de 12% no coberto vegetal parece demasiado pequena para afetar a estrutura de todo o ecossistema, diz Allen. Claro que os dingos suprimem os números de cangurus, acrescenta ele, “mas não concordo que esse seja o motor de todo o sistema".

Os ecologistas Matt Kauffman, da Universidade do Wyoming em Laramie, e Oswald Schmitz, da Universidade de Yale em New Haven, Connecticut, concordam que alguns investigadores no campo das cascatas tróficas se tornaram demasiado entusiasmados: ”Durante muito tempo as pessoas pensaram que os predadores não tinham importância num ecossistema", diz Schmitz, ”e agora o pêndulo passou totalmente para o lado onde são o mais importante, as pessoas tornaram-se quase religiosas com isso."

Mas ambos pensam que o nvo trabalho sobre os dingos dá um sinal claro de que há uma ligação entre os caninos e o ecossistema mais vasto. “É uma espécie de evidência experimental", diz Schmitz.

Kauffman e Schmitz aplaudem o uso dos lotes de exclusão dos cangurus: “É uma das forças deste estudo, o facto de ser experimental", diz Kauffman. “Estamos desesperadamente a tentar compreender o que significa o significado de perder grandes carnívoros e o que isso pode significar em locais onde estes são restaurados ou estão a regressar."

 

 

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