2017-04-14

Subject: Perseguição aos imigrantes causa danos à saúde

Perseguição aos imigrantes causa danos à saúde

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@ Nature/David Lienemann/NYT/Redux/eyevine

Alondra Garcia nunca se esquecerá do dia em que os agentes da imigração americana entraram pela sua casa adentro em Ann Arbor, Michigan, à procura do passaporte do seu padrasto. Ela tinha apenas 11 anos mas um dos agentes agitou as algemas à sua frente dizendo "se me apetecer algemo a tua mãe agora mesmo e ficas sozinha". Garcia e a sua mãe eram imigrantes ilegais do México, tal como o seu padrasto hondurenho, que foi detido nesse dia e posteriormente deportado.

Durante meses, Garcia tremia de cada vez que alguém batia à porta e, agora que tem 18 anos, continua a temer que o mesmo aconteça ao seu irmão mais novo se o governo enviar a sua mãe de volta para o México. O presidente americano Donald Trump prometeu acabar com a imigração ilegal deportando mais pessoas e o resultado, diz Garcia, “é que tenho medo de tudo".

A sua história não é inédita. Mais de 2,7 milhões de imigrantes ilegais foram deportados nos primeiros sete anos da presidência de Barack Obama mas os planos de Trump de apertar os controlos fronteiriços veiram exacerbar o medo e a incerteza sentidos por muitos imigrantes e suas famílias. Os investigadores estão apenas a começar a compreender os danos físicos e mentais a longo prazo trazidos pelo stress, especialmente nas crianças.

"A exposição prolongada a stress severo, conhecido por stress tóxico, pode colocar o risco o desenvolvimento do cérebro e ter impactos negativos na saúde, a curto e a longo prazo”, alertou a Academia Americana de Pediatria após Truassinar a ordem executiva que ordenava aos governo que contratasse milhares de agentes de imigração e controlo de fronteira, bem como que deportasse mais pessoas sem documentos. “A mensagem que estas crianças imigrantes receberam hoje do mais alto nível do nosso governo federal exacerba esse medo e ansiedade", referiu na altura a academia.

Alguns investigadores sugerem que as crianças dos imigrantes começam a sentir os efeitos danosos do stress mesmo antes de nascerem. Em 2008 perto de 900 agentes de imigração americanos fieram uma rusga numa fábrica de processamento de carne em Postville, Iowa, uma pequena cidade com uma grande comunidade latina. Prenderam quase 400 trabalhadores ilegais sob acusação de roubo de identidade e fraude, acabando por deportar cerca de 300 deles.

Quando Nicole Novak, epidemiologista na Universidade do Michigan em Ann Arbor, examinou os certificados de nascimento de mais de 52 mil crianças do Iowa, descobriu que as mães latinas de todo o estado tinham 24% maior probabilidade de dar à luz bebés de baixo peso depois da rusga do que no ano anterior. O peso dos bebés causasianos não latinos permaneceu constante, sugerindo que as populações latinas foram traumatizadas de forma única. pelo incidente.

“Estas são mulheres que derão à luz cidadãos norte-americanos e este stress vai ter impacto na sua saúde e nas suas possibilidades de vida", diz Kate Strully, socióloga médica na Universidade Estadual de Nova Iorque, Albany. O baixo peso à nascença está associado a atrasos no desenvolvimento, problemas comportamentais e risco aumentado de doenças crónicas. Alguns estudos sugerem que o stress extremo pode alterar o DNA de uma criança de formas que alterem a expressão génica e podem ser transmitidas às gerações futuras.

Strully e a sua equipa estão agora a examinar milhões de certificados de nascimento de todos os Esatdos Unidos para tentar perceber se padrões de peso à nascença emergem quando estados individuais aplicam leis que têm como alvo os imigrantes. O Arizona, por exemplo, permite que a polícia verifique o estatuto de imigrante de todos os que manda parar, detém ou prende.

Para alguns investigadores o tópico é pessoal. Na Universidade do Novo México, Albuquerque, os estudantes sem documentos estão a registar os desafios emocionais e mentais dos imigrantes das suas comunidades: “Isto é uma forma de os estudantes sem documentos darem algo de volta”, diz Josué De Luna Navarro, um dos líderes da equipa que estuda engenharia.

  Tal como os seus colaboradores, ele tem o estatuto legal conhecido por ação diferida para crianças recém-chegadas (DACA), que dá residência temporária a pessoas que entraram ilegalmente nos Estados Unidos em crianças. “Estamos sempre em modo 'lutar ou fugir'", diz De Luna Navarro, "nunca temos um momento para apenas respirar." Para além do medo de deportação, os estudantes DACA têm que lidar com o facto de não serem ilegíveis para apoios financeiros federais, empréstimos e alguns empregos.

Ainda assim, investigação direta sobre os ilegais continua a ser difícil. Por raões éticas a maioria dos investigadores não pergunta aos participantes nos estudos o seu estatuto de cidadania e muitos imigrantes hesitam em procurar ajuda médica ou fazer algum tipo de registo junto do governo, o que limita os dados públicos relevantes.

Mas, por vezes, as circunstâncias fornecem experiências naturais. Em 2013, agentes da imigração americana realizaram uma série de rusgas no condado de Washtenaw, Michigan, onde o sociólogo William Lopez estava a realiar um estudo de saúde. As 151 pessoas que responderam ao censo depois das rusgas relataram saúde genericamente pior do que as 325 que já o tinham realiado, recorda Lopez, da Universidade do Michigan. Muitos disseram que depois das rusgas tinham demasiado medo de sair de casa para ir buscar alimentos ou pedir ajuda médica e apresentavam sintomas de perturbação de stress pós-traumático.

Alguns investigadores temem que as regras de Trump também possam perturbar os estudos a longo prazo de saúde dos imigrantes, como um na Califórnia central dirigido pela Universidade da Califórnia, Berkeley. Durante 17 anos, o programa tem seguido 600 crianças de trabalhadores agrícolas, a maioria os quais mexicanos, muitos quase certamente ilegais, diz a líder do estudo Brenda Eskenazi, neuropsicóloga em Berkeley.

No último ano, os investigadores acrescentaram pela primeira vez questões sobre o medo de deportação às suas entrevistas e também começaram a distribuir brochuras que descrevem os direitos dos participantes, caso os agentes federais lhes surjam à porta, explica Eskenazi, “estamos mesmo preocupados com estas pessoas”.

 

 

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