2017-04-10

Subject: Estudos CRISPR confundem resultados de estudos genéticos mais antigos

Estudos CRISPR confundem resultados de estudos genéticos mais antigos

Dificuldades em visualizar este e-mail? Consulte-o online!

Parecia um plano perfeito: Jason Sheltzer, biólogo do cancro no Laboratório Cold Spring Harbor de Nova Iorque, andava em busca de genes envolvidos no crescimento de tumores, por isso planeou desativar genes usando a popular técnica CRISPR–Cas9 e procurar alterações que reduzissem a taxa de multiplicação das células tumorais.

Para o fazer, a sua equipa precisava de um gene controlo que produzisse o mesmo efeito. A literatura sugeria que o gene MELK era o ideal pois havia amplas evidências de que seria importante na proliferação de células tumorais e estavam em curso testes clínicos para testar medicamentos que inibem a proteína MELK. Mas desativar o gene usando a CRISPR–Cas9 não causou qualquer efeito, "o que bloqueou completamente as nossas experiências", recorda Sheltzer.

Com esse resultado, Sheltzer juntou-se a um crescente clube de laboratórios que se viram forçados a reavaliar e repetir experiências à medida que a vulgarização da CRISPR–Cas9 revela potenciais erros em dados recolhidos usando técnicas mais antigas. A equipa de Sheltzer apresentou os seus resultados no encontro da Associação Americana de Investigação do Cancro em Washington DC, bem como na revista eLife. “Há muito trabalho a ser feito, simplesmente repetir as mesmas análises que já foram feitas" com outros métodos, diz Michael Bassik, biólogo molecular na Universidade de Stanford, Califórnia.

Nathan Lawson, biólogo molecular na Faculdade de Medicina da Universidade do Massachusetts em Worcester, foi um dos primeiros a caracterizar de forma sistemática o problema. Em 2015, ele relatou os resultados da comparação de dois métodos usados em peixes-zebra: desativar genes usando nucleases dedo de zinco ou reduzir a expressão genética usando morfolinos. A sua equipa descobriu que metade dos 20 genes testados tinham resultados diferentes conforme a técnica usada. Uma análise adicional das bases de dados e da literatura sobre morfolinos revelou que 80% dos resultados de experiências publicadas com morfolinos não podiam se reproduzidas em mutantes genéticos.

Alguns investigadores de peixes-zebra receberam bem o artigo pois forçou a comunidade a confrontar o problema que apenas tive recebido atenção anedótica, mas outros não ficaram muito felizes: “Alguns disseram-me que eu tinha arruinado o campo", recorda Lawson.

Conflitos semelhantes surgiram com outros organismos. Na planta modelo Arabidopsis thaliana, a utilização da CRISPR–Cas9 mostrou que uma proteína que antes se pensava mediar os efeitos da hormona vegetal auxina afinal não tem esse efeito. Em moscas-da-fruta e células humanas, estudos de grande dimensão revelaram vastas discrepâncias  entre resultados obtidos usando interferência de RNA (RNAi), uma técnica que reduz a expressão génica, e os obtidos com mutantes genéticos.

Ambos os métodos têm as suas limitações, salienta Lawson. A RNAi por vezes altera a expressão outros genes, que não os inicialmente previstos e interferir com a maquina celular de processamento do RNA pode, por vezes, alterar outros sistemas celulares que envolvem RNA. A CRISPR–Cas9, por sua vez, exige a quebra de cadeias de DNA, o que pode desencadear outras respostas celulares, incluindo o suicídio celular. A técnica também pode acabar por cortar o DNA em locais não pretendidos.

  Resultados contraditórios entre RNAi e análises genéticas não significam obrigatoriamente que uma das abordagens está certa e a outra errada, alerta Bassik. Algumas células podem responder de forma diferente a uma alteração genética que elimina a expressão de um gene, como muitas vezes se pretende com a CRISPR–Cas9, comparada com a forma como respondem à redução da expressão para níveis muito baixos, como acontece com a RNAi.

Mas frequentemente, acrescenta ele, o culpado pela discrepância pode ser encontrado no potencial para os efeitos colaterais da RNAi, algo que já leva os investigadores a a reproduzir resultados antigos.

No caso da MELK, os resultados da CRISPR–Cas9 são particularmente preocupantes pois podem minar os fundamentos científicos de um teste clínico. Mas a equipa de Sheltzer apenas mostrou que a MELK não parece ter um papel na divisão celular em tumores, salienta Carlos Moreno, investigador do cancro na Universidade Emory em Atlanta, Georgia. É possível que outros aspetos da MELK, como o alegado papel em tornar células tumorais mais resistentes à radiação, continuem válidos, diz ele.

Também é facto que muitos medicamentos bem sucedidos foram desenvolvidos à custa de uma hipótese científica com falhas, acrescenta ele. Os inibidores da MELK em testes clínicos podem funcionar através de algum outro tipo de mecanismo, por exemplo. “Isso não seria razão para parar um teste clínico se está a revelar resultados positivos", continua ele, "é importante não deitar fora o bebé com a água do banho".

 

 

Saber mais:

Jardim zoológico híbrido

Cromossomas de leveduras sintéticas ajudam a sondar mistérios evolutivos

Edição genética CRISPR testada numa pessoa pela primeira vez

Os monstros esperançosos da CRISPR

Investigadores chineses pioneiros com primeiro teste CRISPR em humanos

Luz verde de painel americano para teste clínico com CRISPR

 

 

Facebook simbiotica.orgTwitter simbiotica.orgPinterest simbiotica.orgInstagram simbiotica.orgYouTube simbiotica.org

 

Arquivo  |  Partilhar Comentar |   Busca Contacte-nos  |  Imprimir  |  Subscrever | @ simbiotica.org, 2017


Return to Archives

Newsletter service by YourWebApps.com