2017-04-06

Subject: Proteína bússola atrai severas críticas

Proteína bússola atrai severas críticas

Dificuldades em visualizar este e-mail? Consulte-o online!

@ Nature/George Grall/NGC

Há décadas que os cientistas se questionam sobre a forma como os animais conseguem navegar longas distâncias usando os fracos sinais do campo magnético da Terra. Por isso, o interesse atingiu o rubro em 2015 quando duas equipas publicaram artigos em rápida sucessão descrevendo as funções de uma proteína encontrada em animais que pareciam ser capazes de detetar campos magnéticos mas essas alegações revelaram-se controversas e as questões não param de aumentar.

A ciência básica por detrás da descoberta foi relatada por Xie Can, biofísico na Universidade de Pequim em Beijing. Num artigo publicado na revista Nature Materials, ele alegava que a proteína forma nas células animais um a estrutura que responde aos campos magnéticos, podendo, assim, ajudar na navegação. No mesmo ano, um grupo liderado por Zhang Sheng-jia, então na Universidade Tsinghua em Beijing, tinha publicado um artigo na revista Science Bulletin relatando que a mesma proteína poderia ser um poderoso meio para controlar as células cerebrais.

A batalha académica entre Xie e Zhang continua mas cada vez mais evidências têm vindo a lançar dúvidas sobre ambas as suas descobertas. Vários investigadores desafiaram as alegações de Xie de que a proteína reage aos campos magnéticos e, no mês passado, Xie foi o coautor de um artigo na revista Frontiers in Neural Circuits onde contesta o trabalho de Zhang sobre o potencial da proteína para controlar magneticamente células.

Isto deu origem a questões sérias sobre o papel da molécula no centro da disputa. No seu artigo de 2015, Xie relatou que a proteína IscA1 forma um complexo com outra, a Cry4, que explica a forma como os organismos detetam as pistas magnéticas. O estudo descobriu que este complexo incorpora átomos de ferro, que lhes confere as propriedades magnéticas, e tem uma forma de bastonete que se alinha com um campo magnético aplicado.

Dois meses antes, Zhang descreveu ter usado a IscA1 para controlar neurónios e células musculares em vermes. Zhang soube das propriedades da IscA1 e obteve as suas amostras da proteína de Xie, por isso o facto de a sua equipa ter publicado primeiro foi uma fonte inicial de tensão que rapidamente se transformou numa disputa agreste. Funcionários das Universidades de Tsinghua e Pequim pediram à Science Bulletin que retirasse o artigo de Zhang e nesse novembro ele perdeu a sua posição em Tsinghua, por raões não esclarecidas.

As dúvidas sobre o trabalho de Xie surgiram depois disso. Michael Winklhofer, geofísico na Universidade de Oldenburg, Alemanha, examinaram os dados de Xie e descobriram que o complexo teria um magnetismo demasiado fraco para detetar o campo terrestre. Markus Meister, biofísico no Instituto de Tecnologia da Califórnia em Pasadena, levantaram questões semelhantes: Xie tinha relatado que o complexo teria apenas 40 átomos de ferro mas Meister defende que o íman natural mais pequeno que se conhece tem um milhão de átomos de ferro agrupados num pequeno espaço.

David Keays, neurocientista no Instituto de Patologia Molecular de Viena, também questionou o estudo. Ele refere que a IscA1 e a Cry4 se encontram em muitos tecidos, enquanto o que seria de esperar era que estivesse restritas a áreas específicas, se funcionassem como parte de um recetor de campo magnético: “Os recetores sensoriais, sejam eles do gosto, da audição ou da visão, tendem a estar restritos a um padrão de expressão", diz ele.

  Os colaboradores de Xie alegam ter sido capazes de reproduir algumas das suas descobertas e o próprio também mantém os seus resultados. Ele contesta a alegação de que as propriedades magnéticas da IscA1 seriam demasiado fracas referindo que a Cry4 pode potenciar o seu efeito: “Os dados são o que são e isto pode expandir o nosso conhecimento sobre os imãnes moleculares."

A contestação ao artigo de Zhang tem sido mais acutilante. Zhang alegou ter transferido a IscA1 para neuónios de vermes e depois usado um campo magnético para induzir as células a absorver cálcio. A capacidade para manipular uma função celular tão básica podia prometer aos neurocientistas uma ferramenta poderosa e menos invasiva que as técnicas de optogenética, que usam proteínas sensíveis à luz para conrolar neurónios em animais vivos.

Mas no mês passado, Xie, o neurocientista da Universidade Tsinghua Lu Bai e o seu estudante Pang Keliang relataram ter realizado experiências sob várias condições, incluindo algumas praticamente iguais às usadas por Zhang, e não detetaram alterações no fluxo de cálcio. Os autores concluem que "as descobertas lançam sérias dúvidas" sobre se a IscA1 por si só é capaz de influenciar a atividade neuronal, como alega Zhang.

Vários cientistas fora da China também referiram não te conseguido reproduir os resultados de Zhang, algo que ele não comentou até agora. Entretanto, mesmo com as críticas cada vez mais agressivas, Xie continua a dizer ter dados convincentes que demonstram a reação de um complexo IscA1 a um campo magnético, que irá publicar no espaço de um ano: “Estou mais e mais confiante, certo a 100%, de que estou certo em relação a isto."

 

 

Saber mais:

Moscas criadas na escuridão durante 60 anos revelam os seus segredos genéticos

Descoberta a há muito procurada bússola biológica?

Sistema navegacional dos morcegos permite manobras em três dimensões

Ruído electrónico desorienta aves migratórias

Abelhões detectam campos eléctricos nas flores

Explicado o 'triângulo das Bermudas' dos pombos-correio

 

 

Facebook simbiotica.orgTwitter simbiotica.orgPinterest simbiotica.orgInstagram simbiotica.orgYouTube simbiotica.org

 

Arquivo  |  Partilhar Comentar |   Busca Contacte-nos  |  Imprimir  |  Subscrever | @ simbiotica.org, 2017


Return to Archives

Newsletter service by YourWebApps.com