2017-03-10

Subject: Placa dentária dos Neanderthal indicia dieta e, quem sabe, beijos

Placa dentária dos Neanderthal indicia dieta e, quem sabe, beijos

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@ Nature/Mauricio Anton/SPL

Os Neanderthal da gruta El Sidrón no norte de Espanha tinham vidas duras mas antes de morrerem, há cerca de 50 mil anos, jantaram cogumelos, musgo e pinhões. Um deles pode até ter usado plantas e bolores para tratar as suas maleitas.

Este retrato tão íntimo das suas vidas é revelado pela análise do DNA da placa dentária endurecida de cinco indivíduos Neanderthals. O estudo também reconstrói os primeiros microbiomas de uma espécie extinta de hominídeo e indicia a existência de intimidade, quem sabe até beijos, entre humanos e Neanderthal. “Pinta realmente uma imagem diferente, quase da personalidade, de quem eles eram", explica Laura Weyrich, paleomicrobióloga na Universidade de Adelaide na Austrália que coliderou o estudo.

Christina Warinner, geneticista arqueológica no Instituto Max Planck de Ciência da História Humana em Jena, Alemanha, elogia as reconstituições dos microbiomas feitas pela equipa. O facto de as bocas dos Neanderthal parecerem ter sido colonizadas por microrganismos que atualmente são raros em humanos significa que “estamos só a arranhar a superfície do microbioma humano", diz ela.

Os coautores Alan Cooper, da Universidade de Adelaide, e Keith Dobney, da Universidade de Liverpool, tentaram primeiro sequenciar DNA da camada de placa calcificada (cálculo) dos dentes de humanos antigos, há mais de duas décadas. A dupla esperava saber mais sobre a dieta e as doenças do passado mas contaminações vestigiais impediram qualquer tentativa de identificar microrganismos e alimentos antigos.

A melhoria das técnicas de análise de DNA antigo, no entanto, permitiu que essas sequências vestigiais fossem identificadas e conduziu a uma explosão de investigações sobre a placa antiga.

Num estudo de 2013, uma equipa liderada por Cooper sequenciou placa preservada para revelar revoluções no microbioma oral humano após importantes alterações de dieta, incluindo o enorme aumento de amido devido ao surgimento da agricultura, há cerca de 10 mil anos, e a introdução de farinhas processadas e açúcar em algumas dietas humanas durante a revolução industrial do século XIX.

A equipa de Weyrich comparou o DNA da placa de Neanderthal de El Sidrón e da gruta Spy na Bélgica. A análise revelou que enquanto os habitantes de Spy pareciam consumir rinocerontes lanudos e ovelhas selvagens, os de El Sidrón consumiam plantas. Ambos, no entanto, comiam cogumelos.

  No entanto, Hervé Bocherens, paleobiólogo na Universidade de Tübingen, Alemanha, não está convencido que o DNA da placa identifique diferenças entre refeições e dietas. As bases de dados de DNA de plantas e animais tendem a ser omissas em espécies extintas que os Neanderthal teriam comido e estudos anteriores sugeriram que ambos os grupos comiam carne. “De momento não consideraria a conclusão robusta", refere ele.

Os Neanderthal de El Sidrón provavelmente usavam plantas para se automedicarem. O DNA de choupo (árvores que contêm ácido salicílico, historicamente usado no fabrico da aspirina) e de bolores Penicillium (a fonte da penicilina) surgiu nos dentes de um dos indivíduos. Weyrich suspeita que eles estariam a tentar tratar um abcesso visível e uma infeção de estômago causada pela bactéria Enterocytozoon bieneusi.

As evidências genéticas de um microrganismo chamado Methanobrevibacter oralis oferece outra perspectiva, pois também pode ser encontrado na boca dos humanos modernos. As comparações genéticas sugerem que o microbioma da linhagem humana moderna divergiu do dos Neanderthal algumas centenas de milhares de anos depois do último ancestral comum ter vivido, o que indicia que a arqueobactéria terá sido transmitida entre eles.

“Se há trocas de saliva entre espécies é porque há beijos entre elas, ou, pelo menos, partilha de alimentos", diz Weyrich, “o que sugeriria que essas interações eram muito mais amigáveis e muito mais íntimas do que antes alguém pensou ser possível."

 

 

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