2016-11-07

Subject: Paciente zero do HIV exonerado

Paciente zero do HIV exonerado

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@ Nature/Barbara Alper/Getty Images

Em 1982, o sociólogo William Darrow e os seus colegas do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) viajou da Georgia para a Califórnia para investigar uma explosão de casos de sarcoma de Kaposi, um tipo de cancro da pele, entre homens homossexuais.

Darrow suspeitava que o agente causador do cancro, posteriormente demonstrado como uma complicação associada á infeção por HIV, era transmitido sexualmente mas não tinha provas. O seu grande avanço surgiu um dia de Abril quando três homens de três países diferentes disseram a Darrow que tinham tido sexo com a mesma pessoa: um hospedeiro de bordo franco-canadiano de nome Gaétan Dugas.

Os investigadores do CDC seguiram Dugas até Nova Iorque, onde estava a ser tratado para o sarcoma de Kaposi. Com a sua cooperação, os cientistas associaram definitivamente o HIV á atividade sexual. Referiram-se a Dugas como o 'paciente zero' no seu estudo e devido á comunicação social o hospedeiro de bordo ficou conhecido como a pessoa que trouxe o HIV para os Estados Unidos. Dugas e a sua família foram, por isso, vilipendiados durante anos.

Mas uma análise ao HIV usando amostras de sangue com décadas de idade exonera o franco-canadiano, que morreu em 1984. O artigo, agora publicado na revista Nature, mostra que o vírus já circulava na América do Norte desde, pelo menos, 1970 e que a doença chegou ao continente via Caraíbas, vinda de África.

Richard McKay, historiador da Universidade de Cambridge, Reino Unido, e coautor do estudo, diz que os cientistas sempre questionaram a ideia de um único paciente zero, pois as evidências sugeriam que o vírus entrara várias vezes na América do Norte.

A equipa liderada por McKay e pelo biólog evolutivo Michael Worobey, da Universidade do Arizona em Tucson, quiseram uma imagem mais clara da chegada do HIV e para isso reuniram mais de 2 mil amostras de soro que clínicas foram recolhendo de homens homossexuais em 1978 e 1979 para testar hepatite B. Os investigadores descobriram evidências suicientes de HIV para sequenciarem três amostras de San Francisco e cinco de Nova Iorque.

Quando os cientistas examinaram essas sequências genéticas em detalhe, descobriram que eram semelhantes a estirpes de HIV presentes nas Caraíbas, particularmente no Haiti, no início de 1970. No entanto, as estirpes eram diferentes uma da outra, sugerindo que o vírus já estava em circulação e a sofrer mutações em San Francisco e Nova Iorque desde 1970.

A análise de Worobey do sangue do próprio Dugas mostrou que a estirpe de HIV que o matou não correspondia às outras: “Não há nenhuma indicação de que ele tenha sido mais do que mais um dos muitos que já tinham sido infetados antes de doença se tornar notada", diz Worobey.

Este último estudo mostra como é fácil tirar conclusões precipitadas sobre um vírus que não provoca a doença imediatamente, diz Beatrice Hahn, microbióloga na Universidade da Pensilvânia. Investigadores na década de 80 ainda não tinham descoberto que o vírus tinha um período de incubação tão longo que pode permanecer no corpo em média 10 anos antes de fazer a pessoa adoecer. Os muitos sintomas associados à SIDA também tornavam difícil o seu diagnóstico.

 

“A história das doenças tem sido sempre, pelo menos em parte, a busca de alguém para culpar”, diz Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas em Bethesda, Maryland. Na década de 1980 foi particularmente fácil para o público dirigir a sua ira contra um homem homossexual 'promíscuo'.

Dugas foi crucial para os esforços dos investigadores para compreender o HIV e “é bastante mais do que um pequeno erro o que aconteceu, em termos de imaginação popular", diz Worobey. O livro de 1987 de Randy Shilts And the Band Played On que sugere que o assistente de bordo espalhou a doença intencionalmente, foi particularmente danoso.

Dugas espalhou realmente a doença, refere o médico que lhe tratou o sarcoma de Kaposi, pois continuou a ter sexo sem proteção até que estava demasiado doente, citando a falta de evidências de que ele pudia espalhar o "cancro dos gay”", diz Friedman-Kien.

Muitos homens homossexuais da época resistiram à ideia de que sexo desprotegido era a causa da propagação do HIV, diz o dermatologista: “Era algo muito difícil pois tinham lutado tanto pela liberdade sexual, reconhecimento e aceitação, para agora ouvirem dizer que todos os gays eram um potencial transportador desta doença terrível.”

O estudo é uma lição sobre como pode ser cientificamente e eticamente difícil identificar o 'patiente zero', diz McKay. A história de Dugas enfatiza que o HIV “não foi apenas um retrovírus a sofrer alterações num vazio temporal”, acrescenta ele. A busca da compreensão científica da doença teve um impacto muito real sobre este homem e a sua família.

 

 

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