2016-10-26

Subject: Ferramentas dos macacos lançam dúvidas sobre registo arqueológico humano

Ferramentas dos macacos lançam dúvidas sobre registo arqueológico humano

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@ GloboEm Janeiro, o arqueólogo Tomos Proffitt estava a examinar um conjunto de ferramentas de pedra recolhidas pelo seu colega Michael Haslam.

Alguns dos pedaços de quartzo pareciam ferramentas feitas por humanos há 2 ou 3 milhões de anos em África mas Haslam explicou que os artefatos eram obra recente de macacos capuchinhos brasileiros: “Fiquei de boca aberta", recorda Proffitt. “Fiz o meu doutoramento em ferramentas de pedra feitas por humanos, aprendi a faze-las e estava a olhar para aquilo e parecia-me genuíno."

A equipa liderada por Proffitt e Haslam, ambos da Universidade de Oxford, Reino Unido, veio agora descrever os artefatos num artigo na revista Nature.

Os capuchinhos fazem os fragmentos inadvertidamente ao atirar pedras para o chão, descobriram os investigadores. Alguns cientistas dizem que os resultados lançam dúvidas sobre algumas das ferramentas de pedra atribuídas a hominídeos, incluindo os artefatos com 3,3 milhões de anos do Quénia, os mais antigos de que há registo.

“É um ponto de viragem este artigo”, diz Susana Carvalho, arqueóloga de primatas, também de Oxford. “Estes capuchinhos estão, sem intenção, a produzir algo que tem sido apelidado de ferramenta de pedra."

Várias espécies de primatas foram observadas a utilizar ferramentas rudimentares. Quando a primatóloga Jane Goodall descreveu chimpanzés a usar paus para recolher térmitas, Louis Leakey teve uma resposta que ficou famosa: "Agora temos que redefinir ferramenta, redefinir Homem ou aceitar os chimpanzés como humanos."

Os macacos capuchinhos estão entre os mais frequentes utilizadores de ferramentas do reino animal. No Parque Nacional da Serra da Capivara, Brasil, capuchinhos barbudos Sapajus libidinosus usam pedras para partir nozes, para escavar buracos e até para exibições sexuais.

Em 2005, os cientistas observaram pela primeira vez capuchinhos do parque a brandir pedras de uma forma peculiar. Ao pé de uma falésia erodida, os macacos apanhavam pedras de quartzo, batiam-nas contra outras rochas e lambiam o pó resultante. Proffitt especula que o quartzo pode ser um suplemento mineral, melhorando a saúde intestinal, ou simplesmente saber bem.

Investigações anteriores aos capuchinhos lambedores de quartzo tinha examinado a dimensão e a forma das maiores pedras partidas. Proffitt explica que ninguém recolheu os pedaços menores, até Haslam o fazer.

Ao olhar de Proffitt, muitos desses pedaços assemelham-se ás lascas afiadas recuperadas por Leakey em Olduvai, Tanzânia, na década de 1930. Com 2,5 a 1,7 milhões de anos, pensa-se que estas ferramentas terão sido feitas batendo um martelo de pedra em ângulo, levando a que se soltassem lascas aguçadas do martelo.

  Cerca de metade das lascas feitas pelos capuchinhos apresentam as características das ferramentas de Olduvai, diz Proffitt. Um dos conjuntos de lascas parece ter sido partido em sucessão do mesmo martelo, “algo que apenas tem sido associado a humanos", diz Proffit.

No entanto, ele enfatiza que os macacos obtêm os fragmentos por acaso e não pensa que as ferramentas de Olduvai tenham sido mal atribuídas a hominídeos pois foram encontradas com outras evidências humanas. Mas Proffitt considera que os arqueólogos que correm África em busca de ferramentas ainda mais antigas têm que ser cuidadosos na atribuição da sua origem na ausência de outras evidências.

Proffitt continua a pensar que os artefatos com 3,3 milhões de anos encontrados recentemente em Lomekwi, Quénia, são humanos mas Carvalho não tem tanta certeza.

Hélène Roche, arqueóloga na equipa que as descobriu, considera que não há confusão entre os pesados artefatos (alguns com 15 kg) e os ligeiros feitos pelos capuchinhos: “A observação é muito boa e muito importante mas penso que o é relativamente aos capuchinhos, não tanto na compreensão dos primeiros humanos."

O paleoantropólogo Bernard Wood, da Universidade George Washington em Washington DC aceita que as ferramentas dos macacos se assemelham bastante com alguns artefatos de hominídeos mas não está convencido que as descobertas tenham implicações para a paleoantropologia: “Mas ainda estou a tentar perceber o que significam", diz ele.

 

 

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