2016-08-01

Subject: Brasil questiona se Zika agirá sozinho para provocar defeitos de nascença

Brasil questiona se Zika agirá sozinho para provocar defeitos de nascença

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@ Nature/Felipe Dana/AP

Investigadores governamentais brasileiros estão decididos a explorar a peculiar distribuição da microcefalia associada ao vírus Zika: o Zika propagou-se por todo o país mas as taxas de microcefalia apenas se revelam extremamente elevadas na zona nordeste. Apesar das evidências sugerirem que o vírus é a causa deste defeito de nascença, o padrão agrupado indicia que outro fator ambiental, socioeconómico ou biológico pode estar em jogo.

“Suspeitamos que algo mais que o Zika está a causar a alta intensidade e severidade dos casos”, diz Fátima Marinho, diretora de informação e análise de saúde do ministério brasileiro da saúde. Se isso se revelar verdadeiro, pode mudar a avaliação dos investigadores do risco que o vírus coloca ás grávidas e seus bebés.

Há muito que a ideia está na cabeça dos investigadores brasileiros: "Isto está a ser debatido em todos os encontros científicos", diz Lavínia Schüler-Faccini, investigadora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Mas a pergunta marca a primeira vez que os cientistas do ministério da saúde abraçaram a hipótese.

O ministério pediu a Oliver Brady, epidemiologista na Faculdade de Higiene e Medicina Tropical de Londres, e a Simon Hay, diretor de ciência geoespacial no Instituto de Métrica da Saúde e Avaliação em Seattle, Washington, para colaborarem com os investigadores brasileiros: “O objetivo é compreender porque razão se observam taxas elevadas no nordeste", diz Brady.

"Acho que deve haver aqui qualquer coisa", diz Linda Birnbaum, diretora do Instituto Nacional de Ciências Ambientais e da Saúde (NIEHS) americano. O Zika foi descoberto em 1947 e não tinha sido implicado em defeitos de nascença até agora. As estirpes atuais do vírus não revelam mutações significativas que possam ter aumentado a sua virulência, "então, porquê agora?", pergunta ela.

O nordeste foi a zona onde foi relatado o primeiro surto de microcefalia no Brasil, há um ano. Os funcionários da saúde esperavam ver taxas igualmente elevadas mais tarde nouras zonas do país, diz Marinho. Mas até ao final de Julho, praticamente 90% dos 1709 casos confirmados no microcefalia congénita relatados no Brasil desde Novembro último estavam localizados numa área relativamente pequena: o sertão costeiro da ponta nordeste do país. A área afetada tem mais ou menos o tamanho de Portugal, enquanto o Brasil tem o tamanho dos Estados Unidos.

O que é particularmente surpreendente, diz Marinho, é apenas termos 3 casos confirmados no segundo estado brasileiro mais populoso, Minas Gerais, que faz fronteira a zona mais afetada. A falta de dados sobre a escala e o momento dos surtos de Zika por todo o Brasil tornam difícil saber se grandes aumentos de microcefalia noutros locais podem simplesmente ter sido adiados mas os cientistas do ministério pensam que o nordeste nitidamente um valor atípico, diz ela.

Há muitas hipóteses sobre o que pode estar a passar-se. Marinho refere que os dados não publicados da sua equipa indiciam que fatores socioeconómicos podem estar envolvidos. Por exemplo, a maioria das mulheres que tiveram bebés com microcefalia eram jovens, solteiras, negras, pobres e a viver em pequenas cidades ou nos arredores das maiores, diz ela.

Outra ideia é que as coinfeções de Zika e outros vírus, como o dengue e o chikungunya, podem estar a interagir para causar a elevada intensidade de defeitos de nascença na zona.

Uma terceira possibilidade foi avançado num artigo do mês passado, em que investigadores de laboratórios brasileiros salientaram a correlação entre as baixas taxas de vacinação para a febre amarela e os núcleos de microcefalia. Dado que os vírus da febre amarela e Zika pertencem á mesma família, são ambos flavivírus, os cientistas especularam que a vacina pode fornecer alguma proteção contra o Zika. "É uma hipótese plausível", diz Duane Gubler, que estuda doenças transportadas por mosquitos na Faculdade de Medicina Duke–NUS em Singapura. Marinho, no entanto, está cética, defendendo que há muitas zonas onde as taxas de vacinação contra a febre amarela são baixas e não tem havido muitos casos confirmados de microcefalia.

A médica brasileira que primeiro relatou uma associação firme entre o Zika e a microcefalia, Adriana Melo do IPESQ de Campina Grande, é outra das que sugerem que há outros fatores envolvidos. Melo e os seus colegas da Universidade Federal do Rio de Janeiro relatam ter descoberto proteínas do vírus da diarreia bovina viral (VDBV) nos cérebros de 3 fetos com microcefalia no estado da Paraíba. Os cérebros testaram positivo para RNA do Zika mas não foram encontradas proteínas do Zika.

O VDBV provoca graves defeitos de nascença no gado mas não se sabe que infete pessoas. Melo sugere que a infeção por Zika pode reduzir as barreiras fisiológicas, tornando mais fácil ao VDBV provocar infeções. No entanto, não eliminaram a possibilidade, colocada por outros investigadores, que as suas descobertas podem ser devidas a contaminação (o VDBV é um contaminante vulgar do soro fetal bovino e outros reagentes laboratoriais derivados de bovinos).

O estudo do ministério brasileiro da saúde vai testar todas estas hipóteses, diz Brady. Os investigadores vão voltar a analisar os dados sobre os casos de microcefalia e vão modelar as relações com possíveis cofatores, como o estatuto socioeconómico, contaminação da água e outras doenças transportadas por mosquitos. A maior parte desta informação virá das bases de dados do ministério da saúde mas a equipa também vai estudar dados experimentais, como pode variar a resposta imunitária das pessoas após infeções anteriores com outros vírus, como o dengue.

No entanto, os investigadores temem que a informação disponível pode não ser suficiente para identificar se outros fatores, para além do Zika, estão envolvidos. Muitos dos dados não trabalhados sobre microcefalia provêm de relatórios hospitalares de rotina, muitas vezes incompletos, e os testes de confirmação da infeção pelo Zika raramente foram feitos.

Em último caso, os investigadores e os prestadores de cuidados de saúde podem ter que esperar por dados de melhor qualidade de programas de pesquisa como o lançado no mês passado em Porto Rico, que pretende seguir até 10 mil grávidas. Os Institutos Nacionais de Saúde (incluindo o NIEHS de Birnbaum) e a Fundação Oswaldo Cruz estão a fazer o trabalho, que também inclui testar se fatores nutricionais, socioeconómicos e ambientais têm algum papel. O estudo irá posteriormente estender-se ao Brasil, Colômbia e outras zonas afetadas pelo Zika.

Até que mais se saiba sobre o Zika e as causas do aumento das taxas de microcefalia no nordeste brasileiro, as ações de saúde pública e o aconselhamento devem estar do lado da cautela, diz Ian Lipkin, virologista e especialista em surtos na Universidade da Colúmbia, Nova Iorque.

 

 

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