2016-07-19

Subject: Mais velhos são o motor da epidemia africana de HIV

Mais velhos são o motor da epidemia africana de HIV

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@ Nature/Marco Longari/AFP/Getty Images

O sexo entre jovens mulheres e homens mais velhos não é segredo na África do Sul: a designação ‘aquele que abençoa’ é vulgarmente usada para descrever um homem que inicialmente paga o bilhete de autocarro para a escola a uma adolescente, depois paga-lhe os livros ou o almoço e, eventualmente, a rapariga acaba por dormir com o seu benfeitor.

Uma análise genética veio agora sugerir que este fenómeno social desempenha um papel importante no ciclo de transmissão do HIV no país, que tem a maior epidemia de HIV do mundo. Analisando o grau de semelhança das sequências genéticas virais de perto de 1600 pessoas com HIV numa comunidade do KwaZulu-Natal, o estudo mostra que as adolescentes e as jovens mulheres tendem a contrair o vírus de homens com cerca de 30 anos. Quando as mulheres envelhecem, infetam, por sua vez, os seus parceiros de longa duração, que podem passar o vírus através relações extraconjugais com mulheres mais jovens.

“É este o motor por detrás das altas taxas de HIV”, diz o epidemiologista Salim Abdool Karim, autor principal do estudo ainda por publicar e diretor do Centro de Investigação do Programa para a SIDA da África do Sul (CAPRISA). Ele vai apresentar o estudo esta semana na Conferência Internacional da SIDA em Durban.

Karim pensa que o estudo vem ao encontro das crescentes evidências de que mulheres jovens não infetadas que vivem em zonas com altas taxas de HIV devem ser encorajadas a tomar medicação antirretroviral regularmente para prevenir a infeção. A Organização Mundial de Saúde (OMS) também recomenda que todos os que têm um risco substancial de contrair o HIV devem receber a chamada PrEP (profilaxia pré-exposição). Mas, em parte devido aos desapontantes resultados dos testes clínicos, o governo sul-africano ainda não recomendou a PrEP para as mulheres jovens.

O estudo de Karim também mostra a importância de alterações sociais mais alargadas, acrescenta Michel Sidibé, diretor executivo do Programa Conjunto para o HIV/SIDA das Nações Unidas (UNAIDS). Em partes da África do Sul, as adolescentes têm até oito vezes maior probabilidade de estar infetadas que os rapazes e, em algumas comunidades do KwaZulu-Natal, uma rapariga de 15 anos em um risco de 80% de ficar infetada com HIV algures durante a sua vida. “O que está subjacente ao estudo é como é comum homens mais velhos terem sexo com raparigas novas. Os comprimidos são úteis mas como podemos quebrar este silêncio em redor da falta de aplicação das leis que protegem as jovens mulheres? Como podemos investir na capacidade das pessoas reclamarem os seus direitos e reduzirem este tipo de violência?”

Há muito que os investigadores sabem do elevado fardo das infeções por HIV que as jovens mulheres sul-africanas carregam e que são infetadas por homens mais velhos, diz Thomas Quinn, epidemiologista na Faculdade de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg em Baltimore, Maryland, que não esteve envolvido no estudo. Mas, diz ele, “é muito entusiasmante usar informação genética molecular para demonstrar como o vírus se propaga” e identificar idades de homens e mulheres em pontos críticos do ciclo de transmissão do HIV.

Karim tem seguido dados genéticos do HIV nos últimos anos e o seu trabalho já alterou a forma como governos e organizações internacionais lidam com o vírus. Tem partilhado resultados regularmente com Deborah Birx, coordenadora americana global para a SIDA, que supervisiona o Plano Presidencial de Emergência para a SIDA (PEPFAR), o maior financiador federal da investigação na prevenção da infeção por HIV.

Em 2014, o PEPFAR lançou uma iniciativa chamada DREAMS para proteger as jovens mulheres do HIV, em resposta á descoberta de que mais de mil mulheres com idades entre os 16 a 24 anos são infetadas por dia no sul e leste de África. Quando Birx soube dos detalhes dos resultados de Karim no ano passado, ela convenceu o PEPFAR a focar-se em grupos demográficos em particular. Por exemplo, diz ela, metade dos recipientes do Desafio de Inovação DREAMS, no valor de US$85 milhões, são raparigas com idades entre os 15 e os 19 anos.

Apesar dos resultados, os agentes de saúde permanecem relutantes em recomendar a PrEP ás adolescentes e jovens mulheres. Em Junho, o governo sul-africano apoiou a PrEP para trabalhadoras do sexo mas não para outros grupos de risco elevado, como homens homossexuais e mulheres jovens. Uma razão para esta hesitação é o facto de os tratamentos não se terem revelado eficazes em testes clínicos e testes sanguíneos terem sugerido que isso se deve ás mulheres não tomarem os comprimidos diários ou aplicarem o gel vaginal de forma consistente.

Mas na conferência, a equipa CAPRISA anunciou outra descoberta por publicar que sugere que o microbioma vaginal pode ter parte da culpa na ineficácia da PrEP.  Um estudo em mulheres que usaram o gel tenofovir para prevenir a infeção por HIV sugere que este foi menos eficaz naquelas que tinham bactérias Gardnerella vaginalis na flora vaginal. Os investigadores descobriram que a G. vaginalis absorvia os medicamentos da PrEP, reduzindo a sua quantidade no sangue.

Esta descoberta indicia que mais mulheres podem ter tomado os seus medicamentos do que os desapontantes testes sanguíneos de testes anteriores sugeriam, diz Karim, e também que o tratamento para um desequilíbrio nas bactérias vaginais pode ajudar a PrEP a funcionar melhor para algumas jovens mulheres.

 

 

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