2016-05-30

Subject: Pobreza associada a alterações epigenéticas e doenças mentais

Pobreza associada a alterações epigenéticas e doenças mentais

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@ Nature/Moises Saman/Magnum

Crianças de famílias empobrecidas são mais propensas a desenvolver doenças mentais e as alterações à estrutura do DNA podem ser as culpadas, de acordo com um estudo publicado na revista Molecular Psychiatry.

A pobreza traz um número de diferentes fatores de stress, como a nutrição desadequada, aumento da prevalência de consumo de tabaco e a dificuldade geral se safar, de modo geral. Todos estes fatores podem afetar o desenvolvimento de uma criança, particularmente no cérebro onde a estrutura de áreas envolvidas na resposta ao stress e tomada de decisões estão associadas a um estatuto socioeconómico baixo.

As crianças pobres são mais propensas a doenças mentais, como a depressão, do que os seus pares de famílias mais abastadas mas também têm maior probabilidade de ter problemas cognitivos. Algumas destas diferenças são claramente visíveis na estrutura do cérebro e parecem surgir logo no nascimento, o que sugere que a exposição pré-natal a estes fatores de stress podem estar envolvidos.

Mas o neurodesenvolvimento não termina com o nascimento. O neurocientista Ahmad Hariri, da Universidade de Duke em Durham, Carolina do Norte, suspeitava que a exposição contínua aos fatores de stress pode afetar também crianças mais velhas. Ele decidiu testar esta ideia estudando os marcadores químicos, grupos metilo, que alteram a estrutura do DNA de forma a regular a forma como os genes são expressos. Existem algumas evidências de que os padrões de metilação podem ser transmitidos de geração em geração mas também são alterados por fatores ambientais, como o tabaco.

Pra testar se estes mecanismos estão envolvidos na taxa aumentada de depressão que se observa em crianças empobrecidas, Hariri focaram-se no gene SLC6A4, que codifica uma proteína que transporta o neurotransmissor serotonina através da membrana dos neurónios. Há muito que se sabe que o gene está envolvido na depressão e o recetor da serotonina é o alvo de muitos medicamentos antidepressivos.

Hariri recolheu amostras de sangue de 183 crianças caucasianas com idades entre os 11 e os 15 anos e testou-as para sintomas de depressão. Também examinou a forma como as crianças responderam ao stress fazendo scans ao cérebro para monitorizar a sua atividade quando observavam uma imagem de uma face assustada. As pessoas altamente sensíveis a ameaças mostram maior atividade na amígdala em presença dessa emoção.

Os investigadores repetiram estas experiências com as mesmas crianças várias vezes, ao longo de 3 anos. Seguidamente compararam os resultados de cada criança com alterações na sua atividade cerebral, ao longo do mesmo período, bem como alterações nos seus padrões de metilação perto do gene SLC6A4.

Os cientistas descobriram que crianças que cresceram na pobreza tinham maior metilação nesta região, quando comparadas com os seus pares mais abastados. Isto pode ter suprimido a produção da proteína transportadora de serotonina nas crianças pobres, logo estas teriam uma menor quantidade do neurotransmissor disponível no cérebro, uma situação associada à depressão. As amígdalas dessas crianças também se tornaram mais ativas e aquelas com um histórico familiar de depressão tinham maior probabilidade de ficarem deprimidas elas próprias.

Seth Pollak, pedopsiquiatra na Universidade do Wisconsin—Madison, considera que não é claro que a pobreza crie problemas de cognição e e saúde mental ou se a biologia intrínseca da pessoa aumenta a probabilidade de serem pobres em adultos.

Mas investigações epigenéticas, como este novo estudo, mostram que as diferenças genéticas não são os únicos fatores importantes: “Podemos ter um dado gene mas dependendo das experiências que temos, ou não, o gene pode nunca vir a ser ativado”, diz Pollak.

O novo artigo é notável pelo facto de analisar os efeitos de stress de baixo nível durante longos períodos de tempo, diz ele, em vez dos efeitos de traumas extremos. Mas Pollak alerta para o facto de a amostra ser muito pequena para um estudo que tenta compreender interações complexas entre a genética e o ambiente, e que que alguns dos indivíduos serem muito mais susceptíveis que outros ao impacto da pobreza.

Hariri diz que a sua equipa pretende agora analisar a metilação de genes num grupo de cerca de mil pessoas em Dunedin, Nova Zelândia, cuja saúde tem vindo a ser seguida desde 1972–73.

“É muito bom ver uma experiência tão bem construída", diz Dan Notterman, biólogo molecular na Universidade de Princeton em Nova Jérsia. Ele está surpreendido com a clareza da ligação entre epigenética, comportamento e estatuto socioeconómico.

A própria investigação de Notterman já tinha descoberto que os telómeros são mais curtos em crianças provenientes de famílias empobrecidas. O comprimento dos telómeros está envolvido no envelhecimento e em má saúde de modo geral. Se os investigadores poderem identificar marcadores do DNA fortemente associados a atividade cerebral e comportamento, diz Notterman, eles podem ser usados como teste para se saber se os medicamentos para a depressão estão a tratar eficazmente uma pessoa.

Mas Robert Philibert, geneticista comportamental na Universidade do Iowa em Iowa City, considera que para as crianças empobrecidas a resposta pode ser mais simples, pelo menos do ponto de vista científico: “O que isto salienta é que se queremos realmente mudar o neurodesenvolvimento, temos que mudar o ambiente."

 

 

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