2016-05-06

Subject: Salvar rinocerontes da extinção com células estaminais?

Salvar rinocerontes da extinção com células estaminais?

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@ Nature/Ben Curtis/AP Photo

O rinoceronte branco do norte é uma espécie à espera da extinção: os seus três representantes vivos, mantidos num parque de conservação queniano muito bem guardado, não podem reproduzir-se naturalmente. A fêmea com 15 anos de nome Fatu pode muito bem vir a ser a última dos milhares que em tempos deambulavam pelas savanas da África central.

Num último esforço para evitar esse cenário, os investigadores revelaram os detalhes de um audacioso plano para salvar o rinoceronte branco do norte Ceratotherium simum cottoni, transformando células de rinocerontes vivos e de amostras congeladas de espermatozoides e óvulos e, seguidamente, usar fertilização in vitro (FIV) para criar embriões e revitalizar a população.

Equipas lideradas pelo San Diego Zoo Global na Califórnia e pelo Instituto Leibniz de Investigação Zoológica e da Vida Selvagem em Berlim já começaram a trabalhar na ideia. Consideram que ela poderá conduzir o salvamento de outros animais em vias de extinção e, quem sabe, a ressurreição daqueles que já desapareceram. Mas os críticos apelidam o plano, que deverá exigir milhões de dólares, descabido e estão preocupados com a possibilidade de ser apenas uma distração dos esforços de conservação mais genéricos.

“Os rinocerontes brancos do norte vão extinguir-se se não o fizermos”, diz Oliver Ryder, geneticista da conservação no San Diego Zoo Global e um dos principais arquitetos do plano de salvamento publicado na revista Zoo Biology. A estratégia foi delineada Dezembro passado em Viena, num encontro onde estiveram equipas de ambos os zoos, bem como especialistas em biologia de células estaminais e reprodutiva: “É um mapa estratégico com muitos obstáculos", diz o biólogo reprodutivo Thomas Hildebrandt, líder da equipa de Leibniz.

A caça furtiva reduziu o efetivo de rinocerontes de cerca de 2300 na década de 1960 para os atuais 3, que não se podem reproduzir: Sudan, um macho de 42 anos, tem baixa contagem de espermatozoides, a sua filha de 26 anos Najin tem problemas nas patas que a impedem de suportar um macho sobre o dorso ou mesmo uma gravidez e a sua filha Fatu tem um problema uterino que impede a nidação de um embrião. Existem, no entanto, espermatozoides e outras células de outros 10 indivíduos congeladas.

Para começar, os investigadores irão tentar criar embriões a partir de espermatozoides e óvulos existentes. Hildebrandt tenciona ir, este ano, ao parque Ol Pejeta Conservancy, onde os animais vivem, recolher óvulos de Fatu e Najin, que poderão ser fertilizados com esperma congelado e implantados numa mãe de aluguer, uma rinoceronte branco do sul Ceratotherium simum simum.

Mas nunca se produziu um embrião viável de rinoceronte branco usando FIV, quanto mais implantá-lo numa barriga de aluguer, pelo que as equipas de San Diego e Leibniz estão a trabalhar para desenvolver a técnica em rinocerontes brancos do sul, cujo número ronda os 20 mil. Hildebrandt está confiante de que obstáculos como a implantação de um embrião numa barriga de aluguer serão ultrapassado em alguns anos: “Najin ou Fatu verão outros rinocerontes brancos do norte antes de morrerem, garanto-vos isso."

Najin e Fatu são atualmente a única fonte de óvulos para a FIV logo a falta de diversidade genética tornará impossível criar uma população de rinocerontes brancos do norte selvagens capazes de florescer na natureza. Por isso, na fase dois do projeto, os investigadores irão tentar reprogramar células estaminais congeladas de rinoceronte. Em 2011, uma equipa liderada pela perita em células estaminais Jeanne Loring, do Instituto Scripps de Investigação em La Jolla, Califórnia, criaram essas células iPS a partir de células da pele de Fatu.

Mas a criação de gâmetas a partir de células iPS não será simples e pode exigir que as células de rinoceronte sejam cultivadas com tecido reprodutor de outros animais, como ratos. “Todas estas técnicas já foram feitas mas em outros animais", diz Loring. “Não é certo que possam ser transpostas para os rinocerontes.”

Não é a primeira vez que os conservacionistas tentam recupera espécies no limiar da extinção através de tecnologias reprodutivas. Na década de 2000, por exemplo, os investigadores tentaram clonar e ressuscitar o ibex dos Pirenéus Capra pyrenaica e um gauro Bos gaurus mas os elementos de reprogramação celular do rinoceronte são ainda mais ambiciosos. “Não vejo questões técnicas impeditivas", diz George Church, perito em genómica na Faculdade de Medicina de Harvard em Boston, Massachusetts. Ele espera usar algumas das mesmas abordagens para ressuscitar os mamutes lanudos ou, pelo menos, modificar elefantes asiáticos de modo a que possam viver na estepe siberiana.

O financiamento pode ser a maior barreira: o San Diego Zoo angariou cerca de US$2 milhões para o projeto desde que o seu último rinoceronte branco do sul, Nola, morreu no ano passado mas recusou dar uma estimativa dos custos totais do projeto. Hildebrandt teve muito menos sucesso na angariação de fundos e precisará de vários milhões de dólares para criar um rinoceronte via FIV.

Ryder considera os custos significativos de salvar e proteger os rinocerontes brancos do norte válidos, não apenas para salvar a espécie mas também para demonstrar o que os conservacionistas podem fazer para salvar outros animais. Esse precedente é o que mais preocupa Stuart Pimm, biólogo conservacionista na Universidade Duke em Durham, Carolina do Norte: “Isto diz que podemos deixar as espécies chegarem ao limiar da extinção pois a tecnologia moderna pode traze-las de volta mas há um perigo moral muito substancial nisso.”

“É ciência tipo Star Trek”, diz Michael Knight, presidente do grupo de especialistas de rinocerontes africanos da União Internacional para a Conservação da Natureza. Ele teme que este esforço possa retirar dinheiro de outros esforços de conservação do rinoceronte, incluindo os dirigidos aos rinocerontes brancos do sul cujos números se devem a uma boa gestão. “Não deviam estar a impingir a ideia de que estão a salvar a espécie, se queres salvar rinocerontes deves investir na sua conservação.”

 

 

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