2016-04-18

Subject: Biologia sintética enfrenta escassez global de antivenenos

Biologia sintética enfrenta escassez global de antivenenos

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@ Nature/Camilla Carvalho/Instituto Butantan

Quando os Médicos sem Fronteiras chamaram à escassez mundial de antivenenos de cobra crise de saúde pública em Setembro passado, o bioquímico brasileiro Paulo Lee Ho não ficou surpreendido. Ele passou a sua carreira no Instituto Butantan de São Paulo em busca de formas melhores para criar antiveneno para tratar as picadas de cobras-coral.

Os métodos convencionais dependem de veneno natural de cobra-coral, que é muito difícil de obter: as cobras produzem quantidades muito pequenas a cada picada e são difíceis de criar em cativeiro. Por isso, Ho virou-se para a proteómica e para a biologia sintética na esperança de melhorar a qualidade e a disponibilidade do antiveneno. “Precisamos de uma nova forma de suprir a procura de antivenenos do Ministério da Saúde."

Estes esforços estão agora a dar frutos. No mês passado, Ho relatou ter modificado pequenos segmentos de DNA que, quando injetados em ratos, desencadearam a formação de anticorpos contra o veneno de cobra-coral. Seguidamente os cientistas estimularam a resposta imunitária dos animais injetando-os com pequenos pedaços de anticorpos para veneno sintético sintetizados em bactérias Escherichia coli.

Outro estudo, também publicado no mês passado, revelou que outra equipa brasileira usou fragmentos sintéticos de anticorpos para neutralizar os efeitos de picadas da víbora Bothrops jararacussu.

Estes progressos são encorajadores, dado pesado fardo médico causado pelas picadas de cobra nos países em desenvolvimento, diz Robert Harrison, chefe da Unidade de Investigação de Venenos Alistair Reid na Faculdade de Medicina Tropical de Liverpool. Todos os anos, cerca de 90 mil pessoas morrem depois de serem mordidas por cobras venenosas.

No entanto, os antivenenos continuam a ser produzidos segundo o método inventado há mais de um século. Animais de grande porte, geralmente cavalos, são injetados com pequenas doses de proteínas purificadas extraídas do veneno de cobras, o que desencadeia a produção de anticorpos. O plasma contendo esses anticorpos é depois ministrado às vítimas de picadas de cobra.

Mas este tratamento que salva vidas está limitado de muitas formas importantes: cada antiveneno é eficaz apenas contra a picada de uma única espécie ou, quando muito, de um pequeno grupo de espécies, e tem que ser refrigerado, um problema grave em países tropicais sem fornecimento de eletricidade fiável. "Se pensarmos nisso, o espantoso é que estes antivenenos sequer funcionem", diz Leslie Boyer, diretor do Instituto de Venenos, Imunoquímica, Farmacologia e Resposta de Emergência da Universidade do Arizona, Tucson.

O número de companhias farmacêuticas que os produzem é cada vez menor pois não são rentáveis: em 2010, por exemplo, a gigante Sanofi de Paris, terminou a produção do antiveneno Fav-Afrique, concebido para o tratamento de picadas de 10 das cobras mais venenosas de África.

Ho espera que a sua abordagem ajude a preencher este vazio. Em vez de depender do veneno extraído de cobras-coral vivas, ele começou com pequenos segmentos de DNA de cobra-coral que codificam as toxinas do veneno. A sua equipa injetou estes pedaços de DNA em ratos para iniciar a resposta imunitária, um mês depois deram uma injeção estimulante contendo anticorpos sintéticos para o veneno.

Apenas 60% dos ratos injetados com uma dose letal de veneno de cobra-coral sobreviveram depois de receber o tratamento experimental de Ho, comparados com os praticamente 100% para os antivenenos existentes mas ele não desanimou: “Este resultado mostra que existem outras formas de obter anticorpos neutralizadores mas talvez para obtermos melhores resultados precisemos de usar mais anticorpos, ainda não sabemos."

A segunda equipa brasileira, liderada pela bióloga molecular Carla Fernandes, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Porto Velho, testou uma técnica diferente, usando um fago para produzir versões sintéticas dos anticorpos que lamas produziram quando injetados com veneno da víbora B. jararacussu. A administração desses anticorpos a vítimas de picadas de cobra eliminaria a necessidade de usar plasma animal e reduziria o risco de danos musculares e morte tecidular no local da picada, quando comparado com os antivenenos tradicionais pois os anticorpos sintéticos são menores e penetram melhor nos tecidos.

O caminho para novos antivenenos não é fácil mas os investigadores acreditam que a velocidade é crucial. “Tem havido progressos significativos e rápidos nesta área mas precisamos de mais velocidade, há muitas pessoas a morrer do que é uma doença evitável", diz Harrison.

Para Boyer, no entanto, a escassez de antivenenos não se deve a atrasos na ciência: “Custa US$14 produzir um frasco de antiveneno que custa US$14 mil nos Estados Unidos. Não pode ser mais barato, a parte cara não é a ciência, é toda a gente querer uma parte dos lucros que inflaciona o preço e torna os antivenenos inacessíveis.”

 

 

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