2016-04-14

Subject: Aumentam os receios sobre o próximo passo da febre amarela

Aumentam os receios sobre o próximo passo da febre amarela

Dificuldades em visualizar este e-mail? Consulte-o online!

@ Nature/Joost De Raeymaeker/EPA

À medida que o maior surto de febre amarela dos últimos 30 anos se continua a propagar em Angola, os cientistas alertam para a falta de preparação do mundo para o que pode ser uma calamidade de saúde pública: o ressurgimento de epidemias urbanas desta infeção mortífera, que pode acabar com os stocks da vacina.

O vírus da febre amarela já causou surtos devastadores em cidades no passado mas na década de 1970 o mosquito Aedes aegypti, seu portador em zonas urbanas, tinha sido erradicado de muitas zonas do globo. Os programas de vacinação também ajudaram a confinar o vírus à selva mas agora, em resultado da redução dos esforços de controlo, os mosquitos Aedes voltaram a surgir em cidades tropicais e subtropicais densamente povoadas onde muitos não estão vacinados. A situação angolana veio renovar os receios de que o vírus pode voltar a libertar-se da selva.

O pior será se a febre amarela ganha tração na Ásia, onde, misteriosamente, nunca se estabeleceu apesar das condições ecológicas aparentemente ideais. “Não sabemos se isto vai acontecer mas se acontecer será um desastre de saúde pública”, diz Duane Gubler, investigador de doenças transmitidas por mosquitos na Faculdade de Medicina Duke-NUS em Singapura.

A febre amarela, que é endémica em partes da América do Sul e África, provoca pelo menos 60 mil mortes todos os anos. Muitas pessoas infetadas recuperam rapidamente (existem entre 84 e 170 mil infeções anuais, mais de 90% das quais em África) mas alguns desenvolvem icterícia, sangram dos orifícios e sofrem danos fatais de órgãos.

Uma iniciativa de 2006, liderada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) aumentou a vacinação em massa e retomou a imunização rotineira de crianças em muitos países africanos de risco elevado mas as taxas de vacinação permanecem demasiado baixas.

O surto angolano salienta o risco continuado que a febre amarela representa: teve início em Dezembro último em Luanda e já se estendeu a 6 das 18 províncias do país. Oficialmente, cerca de 490 pessoas foram infetadas e 198 morreram, apesar dos verdadeiros números serem certamente mais elevados.

A preocupação imediata é que o vírus possa propagar-se a centros urbanos africanos maiores, como aconteceu no maior surto anterior, que começou em 1986 na Nigéria e acabou por infetar 116 mil pessoas e matou 24 mil pessoas.

As populações urbanas africanas são agora muito maiores que na década de 1980, salienta Thomas Monath, especialista em febre amarela e vacinas e conselheiro científico da NewLink Genetics em Ames, Iowa. Pessoas que foram infetadas em Angola já transportaram a doença para o Quénia, Mauritânia e Republica Democrática do Congo, apesar de não terem desencadeado novos surtos até agora.

Desde que o vírus permaneça confinado a pequenos surtos em África, a produção mundial de vacinas (cerca de 40 milhões de doses anuais) deve ser suficiente para repor os stocks de emergência e conter surtos, refere William Perea, que coordena a Unidade de Controlo de Doenças Epidémicas da OMS.

Mas teme-se que a febre amarela possa seguir o mesmo caminho que outras doenças menos graves transmitidas por mosquitos, como a Dengue, Chikungunya e Zika, que já tiveram importantes epidemias urbanas associadas ao reaparecimento dos mosquitos Aedes.

Os cientistas estão em dificuldades para avaliar esse risco, em parte porque há muito pouca investigação sobre o vírus. Na América do Sul, por exemplo, apesar da febre amarela endémica da selva e das cidades infestadas de mosquitos, os surtos urbanos são praticamente inexistentes. A razão para isso pode ser o facto de as populações de macacos (os reservatórios do vírus) serem menores que em África e as taxas de vacinação serem relativamente elevadas nas pessoas que vivem perto da selva.

A febre amarela também parece propagar-se com maior dificuldade através do mosquito Aedes do que outros vírus, como o Dengue, diz Pedro Fernando da Costa Vasconcelos, investigador de doenças infecciosas e diretor do Instituto Evandro Chagas em Ananindeua, Brasil.

Ainda assim, a OMS estima que a América do Sul está agora “em maior risco de epidemias urbanas do que qualquer outro momento nos últimos 50 anos”. A vacinação é oficialmente recomendada apenas nas zonas onde o vírus é endémico pois provoca graves (por vezes fatais) efeitos secundários em cerca de 1 em cada 100 mil pessoas. Isto significa que poucas pessoas são vacinadas na costa oriental densamente povoada do Brasil, por exemplo, pois é única zona do país onde o vírus não é endémico.

Na Ásia, a ausência de febre amarela é um enigma: o continente tem macacos, mosquitos e clima nas zonas quentes, o que parece ideal para o florescimento do vírus. Mais, viajantes infetados noutras zonas introduziram o vírus muitas vezes no continente e as populações asiáticas não têm qualquer resistência específica contra ele.

Uma hipótese, diz Gubler, é estirpes de Dengue e outras doenças por flavivírus serem tão prevalentes há séculos que fornecem proteção cruzada contra a febre amarela, pelo que as cargas virais são reduzidas a níveis abaixo das necessárias para manter o ciclo nos mosquitos. Mas com o recente crescimento descontrolado de grandes cidades e bairros de lata infestados de mosquitos, esta situação pode vir a mudar, alerta Gubler.

O surto angolano também desencadeou maiores preocupações pois centenas de milhar de pessoas vindas da China e outros países asiáticos trabalham em Angola e noutras zonas de risco em África e muitas não estão vacinadas, diz Monath.

Muitos especialistas pretendem que as autoridades aumentem os stocks internacionais de vacinas e acelerem as campanhas de vacinação nas zonas endémicas mas isso exige compromissos de financiamento que garantam um mercado aos produtores da vacina, diz Pereas. Atualmente, apenas existem quatro fornecedores em todo o mundo e o fornecimento fica aquém da procura. Numa crise, a OMS pode diluir a vacina dez vezes para aumentar os stocks sem comprometer a sua eficácia mas o processo exige uma seringa descartável específica, que não está disponível, acrescenta Pereas.

Gubler defende que a vacinação deve ser considerada em cidades infestadas por A. aegypti próximas de regiões endémicas de África e da América do Sul. Na Ásia o grau de risco é demasiado incerto para recomendar desde já a vacinação, diz ele, mas os prestadores de cuidados de saúde precisam de ser treinados para identificar casos para que qualquer surto possa ser imediatamente controlado. Também é essencial retomar o controlo do mosquito A. aegypti a nível mundial, considera ele.

Por agora, a zona de preocupação imediata é África, onde alguns países (como a Nigéria) têm menos de 50% de cobertura de vacinação. A disponibilidade de vacinas levou a uma complacência indevida sobre a ameaça que a febre amarela representa, avisa Perea: “É uma doença esquecida e negligenciada.”

 

 

Saber mais:

Relação entre o Zika e os defeitos de nascença: onde está a verdade?

Vacina contra Dengue brilha em teste pioneiro

Declarado fim da propagação do ébola: 7 lições a tirar de uma epidemia devastadora

Novas estirpes de meningite podem proliferar na sequência de sucesso de vacina

Falta de adequação ao parasita explica mau desempenho da principal vacina da malária

Dados encorajadores parecem indicar abrandamento do surto sul-coreano de MERS

 

 

Facebook simbiotica.orgTwitter simbiotica.orgGoogle + simbiotica.orgFlikr simbiotica.orgYouTube simbiotica.org Pinterest simbiotica.org

 

Arquivo  |  Partilhar Comentar |   Busca Contacte-nos  |  Imprimir  |  Subscrever | @ simbiotica.org, 2016


Return to Archives

Newsletter service by YourWebApps.com