2016-04-03

Subject: Zika salienta a importância da controversa investigação em tecidos fetais

Zika salienta a importância da controversa investigação em tecidos fetais

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@ Nature/Nacho Doce/REUTERS

Uma proteína que ajuda o vírus Zika a infectar células adultas da pele pode também permitir que o vírus tenha acesso às células estaminais que produzem células cerebrais, sugere um estudo realizado em tecido fetal humano doado.

O resultado, agora publicado na revista Cell Stem Cell, faz parte de um crescente corpo de investigação que procura determinar de que forma o Zika pode causar os defeitos de nascença mas isso exige um tecido cada vez mais controverso nos Estados Unidos.

Recentes avanços em neurociência e tecnologias celulares deram indicação da razão porque as mães infectadas com Zika dão à luz bebés com microcefalia e outros problemas, como danos oculares. Mas para verdadeiramente compreender o que se passa no útero, alguns cientistas consideram necessário estudar tecidos fetais, que podem ser doados pelos casais que terminam deliberadamente gravidezes.

Os investigadores já sabiam que a proteína AXL permitia ao Zika penetrar em células humanas da pele. Agora, Arnold Kriegstein, neurocientista na Universidade da Califórnia, San Francisco, mostrou que a proteína também é produzida por células fetais que formam o olho e o cérebro, logo a AXL pode fornecer os meios para o Zika infectar essas células.

Dois outros estudos publicados recentemente mostraram que o Zika tem como alvos preferenciais, e mata, células neurais dos organóides (estruturas semelhantes a pequenos cérebros derivados de células humanas da pele reprogramadas).

Estes estudos sugerem que o Zika provoca microcefalia por causar danos às células fetais que originam o cérebro, diz o neurocientista Patricia Pestana Garcez, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil, que liderou um dos estudos com organóides. “Podemos dizer garantidamente que o Zika tem a capacidade de infectar progenitores neurais e essa é uma boa explicação para a razão porque o Zika está relacionado com a microcefalia", diz ela.

Kriegstein diz que o tecido fetal usado neste seu estudo foi doado por pacientes tratados nas instalações médicas da UCSF mas esses tecidos podem ser difíceis de arranjar pois a sua recolha e utilização está sob renovado escrutínio nos Estados Unidos. Em Julho último, um grupo anti-aborto chamado Centro para o Progresso Médico em Irvine, Califórnia, publicou imagens de vídeo de empregados de um fornecedor de cuidados de saúde sem fins lucrativos Parentalidade Planeada a discutir a venda de tecido fetal retirado de abortos para investigação. Membros da Câmara dos Representantes americana estão agora a investigar a utilização de tecidos fetais na investigação.

Os cientistas americanos estão preocupados com o facto desta controvérsia estar a afectar a disponibilidade de tecido fetal doado e pode, assim, atrasar investigações cruciais sobre o vírus Zika. “Muitos menos pessoas estão disponíveis para doar e isso está a atrasar-nos”, diz Susan Fisher, bióloga do desenvolvimento e de células estaminais na Universidade da Califórnia, San Francisco.

Fisher está a estudar a forma como o Zika é transmitido de mãe para filho através da placenta. Ela encontrou AXL nos trofoblastos fetais que ancoram a placenta ao útero materno. Sabe-se que essas células transmitem infecções de citomegalovírus da mãe para o filho: “Isto sugere que a placenta é perfeitamente capaz de transmitir o Zika”, diz Fisher, cujos estudos dependem de tecido fetal doado de gravidezes terminadas e de termo.

Carolyn Coyne, virologista na Universidade de Pittsburgh na Pennsylvania, também está a analisar a transmissão do Zika entre mãe e filho mas usando linhagens celulares e placentas doadas após gravidezes de termo. Ela diz que tecido fetal é particularmente crítico para estudos com o Zika pois o vírus parece ser capaz de atacar o feto ao longo da gravidez. “É absolutamente essencial para estudar a infecção do Zika em tecidos humanos fetais", diz Coyne. “Este tipo de estudos precisa de ser estendido a todos os estágios da gravidez."

Como o aborto é ilegal ou fortemente restringido em muitos países latino-americanos, a investigação laboratorial em desenvolvimento neural nas regiões mais fortemente atingidas pelo Zika depende essencialmente de outro tipo de tecidos humanos, como os organóides. Os investigadores brasileiros, por exemplo, estão a estudar a letalidade dos diferentes vírus Zika em neurónios e organóides derivados de sangue do cordão umbilical.

Fisher usou tecido fetal doado em parte porque uma linhagem de células estaminais embrionárias que ela desenvolveu não foi ilegível para financiamento federal. Fisher derivou a sua linhagem de células estaminais, capazes de produzir células do trofoblasto, a partir de um embrião com 8 células mas as directrizes federais actuais restringem o financiamento à investigação com células estaminais embrionárias a células derivadas de blastocistos, um embrião cerca de 3 dias mais velho do que o deu origem à linhagem celular de Fisher.

Tanto Fisher como Kriegstein estão a planear mais estudos para testar a forma como o Zika infecta o cérebro em desenvolvimento e as células placentárias. Eles defendem que esses estudos são cruciais para estabelecer a razão porque o vírus danifica os cérebros dos bebés e se isso pode ser evitado.

Os cientistas também irão usar organóides e modelos animais mas salientam que nenhum deles é um substituto perfeito para tecidos fetais humanos. Por exemplo, os investigadores não têm a certeza com que grau de fiabilidade o crescimento dos organóides replica o desenvolvimento do cérebro humano.

“Será importante demonstrar em tecido humano exactamente como o vírus está a criar o padrão de danos que surge”, diz Kriegstein. “Em situações como esta, onde há uma considerável pressão de tempo para deslindar o que se passa e proteger o desenvolvimento do cérebro humano, é especialmente importante.”

 

 

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