2016-04-01

Subject: Modelo antártico coloca a possibilidade de colapso imparável do gelo

Modelo antártico coloca a possibilidade de colapso imparável do gelo

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@ Nature/Paul Nicklen/National Geographic Creative

As escolhas que o mundo fará este século podem determinar o destino da gigantesca massa de gelo antártica: um estudo publicado na última edição da revista Nature revela que o crescimento continuado das emissões de gases de efeito de estufa nas próximas décadas pode desencadear um colapso imparável do gelo da Antártica, fazendo subir o nível do mar mais de um metro até 2100 e mais de 15 metros até 2500.

“Isso é alterar completamente o aspeto do planeta visto do espaço", comenta o coautor do estudo Rob DeConto, geólogo da Universidade do Massachusetts Amherst. As boas noticias, diz ele, é que o modelo não projeta subida do nível do mar devida a degelo antártico se as emissões de gases de efeito de estufa forem reduzidas suficientemente depressa de forma a limitar a subida da temperatura média global a cerca de 2°C.

As descobertas vêm juntar-se a um crescente corpo de evidências que sugerem que o gelo antártico é menos estável do que se pensava. No seu relatório de 2013, o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) estimava que o degelo antártico contribuiria apenas alguns centímetros para a subida do nível do mar até 2100 mas à medida que os cientistas compreender melhor a forma como o oceano e a atmosfera afetam o gelo, as projeções para o futuro do continente estão a tornar-se mais preocupantes.

DeConto e o seu colega David Pollard, paleoclimatólogo na Universidade Estadual da Pennsylvania em University Park, desenvolveram um modelo climático que tem em conta a perda de gelo devida ao aquecimento das correntes oceânicas (que destroem o gelo a partir de baixo) e à subida das temperaturas atmosféricas (que derretem o gelo a partir de cima). Os lagos de degelo que se forma na superfície do gelo escoam-se frequentemente através de fendas, o que pode desencadear uma reação em cadeia que quebra as plataformas de gelo e leva ao colapso das escarpas de gelo recém-expostas devido ao seu próprio peso.

Descobriram que ao incluir todos estes processos, conseguiam simular melhor períodos geológicos cruciais que há muito têm intrigado os cientistas. Antes do início da última idade do gelo há 130 a 115 mil anos, por exemplo, o nível do mar era 6 a 9 metros mais elevado que o atual, no entanto os níveis de dióxido de carbono atmosférico era cerca de 30% inferiores. Também há 3 milhões de anos, quando os níveis de CO2 eram aproximadamente iguais aos atuais, os oceanos eram entre 10 e 30 metros mais elevados.

Incorporar a física do degelo conduzido pelo aquecimento atmosférico, bem como o colapso de escarpas geladas, ajudou DeConto e Pollard a reproduzir estes períodos com o seu modelo: “Isso foi uma espécie de epifania de que estávamos no caminho certo." Eles testaram como diferentes versões do seu modelo simulavam o passado e usaram as versões que tiveram melhor desempenho para projetar a subida futura do nível do mar. Descobriram que ao longo do tempo o aquecimento atmosférico pode tornar-se o principal motor da perda de gelo.

“Acho os seus processos ainda algo especulativos mas é um bom trabalho", refere Nick Golledge, modelador das plataformas de gelo na Universidade Victoria de Wellington, Nova Zelândia. A sua pesquisa, publicada na revista Nature em Outubro passado, sugere que o degelo antártico conduzido pela subida dos gases de efeito de estufa pode fazer subir o nível do mar até 39 cm até 2100 e até 3 metros em 2300.

Ainda assim, alerta Golledge, os cientistas sabem muito pouco sobre a forma como a atmosfera e o oceano afetaram os glaciares antigos: “Não temos grande conhecimento de como era o clima no passado."

Um terceiro estudo publicado na revista Nature em Dezembro, sugeria que o degelo antártico não deveria produzir mais que 30 cm de subida do nível do mar até 2100 mas os seus autores salientavam que processos recentemente identificados, como o degelo superficial e o colapso das escarpas geladas, podiam aumentar a perda de gelo. Assim, as projeções de DeConto e Pollard “são consistentes com o nosso estudo recente”, diz a coautora Tamsin Edwards, física na Universidade Aberta de Milton Keynes, Reino Unido.

Os glaciologistas têm consciência do poder destrutivo dos mecanismos do aquecimento atmosférico e do colapso das escarpas que o modelo de DeConto e Pollard simula. Uma série de Verões invulgarmente quentes levou o colapso súbito da plataforma antártica Larsen B em 2002 e os cientistas têm testemunhado a física básica do colapso das escarpas geladas durante os eventos de quebra dos glaciares Jakobshavn e Helheim na Groenlândia.

“Do ponto de vista observacional, eu vejo as coisas de que eles estão a falar", diz David Holland, físico do clima na Universidade de Nova Iorque. “Há muita observação e modelação a fazer mas estão a ajustar o pensamento das pessoas de uma forma muito científica.”

Para DeConto, os resultados do novo modelo sublinham a encruzilhada em que a humanidade se encontra: se ele e Pollard têm uma análise correta, este processo de desintegração da plataforma de gelo seguida de colapso das escarpas geladas será praticamente impossível de parar uma vez iniciado. “Uma vez que o oceano aqueça, esse gelo não será capaz de recuperar até o oceano voltar a arrefecer, algo que pode levar milhares de anos. É um compromisso a muito longo prazo."

 

 

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