2016-03-24

Subject: Polémica sobre esperança de vida de orcas em cativeiro

Polémica sobre esperança de vida de orcas em cativeiro

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@ Nature/Mike Blake/Reuters

Numa decisão muito apreciada pelos grupos de defesa dos direitos dos animais, o parque marinho americano SeaWorld Entertainment anunciou na semana passada que irá deixar de procriar orcas mas se o cativeiro é realmente mau para o maior predador do planeta é uma área de activo debate científico.

As discussões mais recentes centram-se em dois estudos de 2015 que retiram conclusões dramaticamente diferentes sobre a esperança de vida das orcas Orcinus orca em cativeiro relativamente às de populações selvagens. Apesar de muitos factores afectarem o bem-estar, uma aparente discrepância entre a sobreviência dos animais em cativeiro e na natureza há muito que tem sido citada pelos activistas como evidência das pobres condições de vida das baleias em catieiro.

Um dos estudos tem autoria de uma equipa composta largamente por investigadores do SeaWorld, sediado em Orlando, Florida, e detém vários parques com animais que mantêm orcas, enquanto o outro foi realizado por dois antigos treinadores de orcas na companhia que apresentou em 2013 o documentário Blackfish, onde se critica o SeaWorld. Em cartas publicadas na semana passada, os autores de cada um dos artigos acusam-se mutuamente de seleccionar os dados que apoiam as suas posições sobre se os animais devem ser, ou não, mantidos em cativeiro, acusações que cada equipa rejeita, obviamente.

Apesar do programa de orcas em cativeiro do SeaWorld ter agora uma data de fim, os 23 animais detidos pela companhia permanecerão nos parques até ao fim da vida e a fêmea grávida Takara irá dar à luz em cativeiro. Outros 33 animais são mantidos noutros parques marinhos por todo o mundo.

São necessários estudos robustos sobre a longevidade das orcas para melhorar o bem-estar dos animais em cativeiro que restam, diz Douglas DeMaster, director de ciência do Centro de Ciência das Pescas do Alasca da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica em Seattle, Washington.

Mas os anais da investigação sobre orcas em cativeiro são escassos. Antes de 2015, o último grande estudo publicado datava de 1995, quando cientistas do governo americano calcularam que a taxa de sobrevivência anual das orcas em cativeiro era vários pontos percentuais inferior à de uma população selvagem que vivia ao largo da costa do estado de Washington conhecida por orcas residentes do sul.

Num dos estudos de 2015, os antigos treinadores, John Jett, biólogo na Universidade Stetson em DeLand, Florida, e Jeffrey Ventre, cirurgião veterinário na Faculdade de Medicina do Campus de Lakeview em Yakima, Washington, tentaram medir de que forma as baleias em cativeiro se safavam desde que as condições foram melhoradas na década de 1980. Recolheram dados entre 1961 e 2013 sobre 201 orcas em cativeiro em instituições por todo o mundo, incluindo o SeaWorld. Concluíram que as taxas de sobrevivência em cativeiro melhoraram desde 1985 mas que mesmo as taxas de sobrevivência mais recentes estão abaixo das dos animais na natureza.

No outro estudo de 2015, investigadores liderados pelo cirurgião veterinário do SeaWorld Todd Robeck chegaram a uma conclusão muito diferente: os animais actualmente em cativeiro nos parques do SeaWorld vivem tanto tempo como os de populações selvagens. Os investigadores apenas olharam para animais mantidos nesses parques após 2000 e produziram uma taxa de sobrevivência mais alta que a taxa que calcularam para as orcas residentes do sul e equivalente à de outra população selvagem que vive nas águas ao largo da Colúmbia Britânica, Canadá.

Agora, cada autor principal tem na mira o trabalho do outro. Numa carta publicada na revista Marine Mammal Science, Robeck e três colegas salientam que Jett e Ventre incluiram no seu estudo de 2015 animais encalhados, que podem ter chegado ao cativeiro com problemas de saúde, e recém-nascidos, que risco de morte especialmente elevado. Isso empurra para baixo a taxa de sobrevivência dos animais em cativeiro, diem eles.

Na mesma revista, Jett responde a essa crítica e acusa o estudo de 2015 de Robeck de facciosismo pois, por exemplo, compara baleias em cativeiro com a população residente do sul que se encontra ameaçada e exposta a poluentes e tráfego marítimo, cujos números têm declinado ao longo das últimas quatro décadas.

Jett refere que o seu estudo com Ventre teve intenção de obter uma visão abrangente da sobrevivência das orcas em cativeiro, logo incluíram o máximo de dados possível mas Robeck mantém a sua crítica: “Podem incluir todos os animais que quiserem mas as conclusões que tiraram não se baseiam nas evidências que mostram.”

DeMaster salienta que a comparação que Robeck e os seus colegas fazem entre as orcas em cativeiro e uma população selvagem perturbada não ajuda. Acrescenta que também é difícil comparar as abordagens seguidas pelas duas equipas pois analisam animais diferentes ao longo de períodos de tempo diferentes.

A 8 de Março outro grupo de investigadores entrou na refrega, criticando o estudo de 2015 de Robeck noutra frente. Na Revista Journal of Mammalogy, o grupo acusa o estudo de Robeck inferir que as evidências para uma esperança de vida pós-reprodutora longa nas orcas ser um artefacto que deriva de estimativas exageradas da idade dos adultos nos primeiros dias da investigação de orcas em cativeiro. “As pessoas começaram a olhar para as orcas no início da década de 1970 e não se tornaram imediatamente peritos", diz Robeck, que também publicou uma resposta a essa crítica.

Os autores da crítica dizem que as evidências para a esperança de vida pós-reprodutiva, uma adaptação evolutiva rara que apenas se pode observar, para além das orcas, em humanos e baleias-piloto, são robustas. “Existem baleias ainda vivas actualmente que já cá estavam nos 70 e não tiveram crias”, diz um dos autores, Darren Croft, ecologista do comportamento na Universidade do Exeter, Reino Unido. Será necessário mais tempo de observação para dar números firmes à esperança de vida pós-reprodutiva das orcas, diz Andrew Foote, ecologista evolutivo na Universidade de Berna e outro dos co-autores.

A única forma de resolver a disputa sobre a longevidade das orcas em cativeiro é as duas equipas analisarem os mesmos dados da mesma maneira, diz DeMaster. Esses estudos podem melhorar o bem-estar dos animais em cativeiro, por exemplo, ao identificar as instalações e práticas de procriação que mais as beneficiam.

 

 

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