2016-02-29

Subject: Papel do caos nas profundezas oceânicas virado de cabeça para baixo

Papel do caos nas profundezas oceânicas virado de cabeça para baixo

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@ Nature/Paul Nicklen/Getty Images

Nos abismos das profundezas do oceano, pequenos remoinhos de água podem ter muito poder: como a proverbial borboleta cujo bater de asas provoca um furacão, esta turbulência caótica há muito que se pensa ser responsável pela subida de água no interior dos oceanos que é o motor das correntes que se estendem pelo globo.

Agora, alguns investigadores estão a repensar o papel desta turbulência, virando-a de cabeça para baixo. Usando simulações de computador alimentadas com medições de campo, defendem que a turbulência em pequena escala é o motor da circulação ao empurrar água para baixo e não para cima.

“Demonstramos que é ao contrário”, diz diz o oceanógrafo do MIT Raffaele Ferrari, que apresentou este novo retrato do abismo esta semana no encontro sobre ciências oceanográficas da União Americana de Geofísica em Nova Orleães.

Ferrari espera que o seu trabalho ajude a compreender melhor a forma como os oceanos profundos regulam o clima: “Tem enormes implicações para o tempo que o carbono e o calor absorvidos da atmosfera irão permanecer no fundo do oceano."

A água que se pensava demorar um milénio a circular, afundando-se nos polos gelados e ascendendo noutros locais para aquecer, pode, pelo contrário, faze-lo em séculos. Compreender o processo é importante para acertar os modelos climáticos: “Atualmente os modelos climáticos têm uma visão simplistica que não representa o papel da turbulência oceânica na circulação profunda de forma correta”, diz o oceanógrafo do MIT Ali Mashayek, que colaborou com Ferrari no projeto.

A ideia de que a mera turbulência pode ser o motor dos oceanos deve muito ao oceanógrafo Walter Munk. Correntes nas profundezas oceânicas começam muitas vezes com água fria e densa que se afunda nas latitudes elevadas mas essa água tem que voltar a subir e aquecer para estimular a circulação e o que causava esse upwelling era um mistério.

Em 1966, Munk sugeriu que a turbulência era o motor deste processo e calculou que quantidade dela seria precisa para mover os seus enormes tapetes rolantes de água. Ao longo dos anos, os seus cálculos passaram de heresia controversa para sabedoria estabelecida. Ao início, expedição após expedição falhou em encontrar, a pouca profundidade, a intensa mistura que ele previa e que se pensava ser mais ou menos uniforme a diferentes profundidades: “A comunidade científica chamou a isto o problema da "miscigenação desaparecida"", refere o investigador de turbulência William Smyth, da Universidade Estadual do Oregon em Corvallis.

Passariam décadas antes de tecnologias capazes de chegar mais fundo começarem a encontrar miscigenação: "Mesmo quando a turbulência é forte, é extremamente difícil de medir”, diz Matthew Alford, oceanógrafo na Instituição Scripps de Oceanografia em La Jolla, Califórnia. “É uma das coisas mais difíceis de medir nos oceanos.” Zonas de água violentamente revirada eventualmente começaram a surgir perto do fundo do mar, geralmente perto de montanhas submarinas.

Desde então, as investigações descobriram evidências de que ondas submarinas criam o caos abissal. Estas ondas formam-se entre camadas de água profunda com diferentes densidades, tal como as ondas de superfície se formam entre a superfície da água e o ar. As ondas no interior dos oceanos rebentam com violência, Alford mediu alguns exemplos particularmente espetaculares de ondas do tamanho de arranha-céus que se deslocam lentamente enquanto sondava uma passagem com 5,5 km de profundidade perto de Samoa.

Este rolar em profundidade inverte o efeito da turbulência, defende o grupo do MIT pois leva a que camadas de água superiores e menos densas se misturem em camadas inferiores e mais densas, puxando enormes fluxos de água para baixo no meio dos oceanos. A água abissal não sobre em qualquer lugar no oceano, como dizia Munk, pelo contrário, desliza pelo fundo e apenas ascende nas orlas dos oceanos, junto aos continentes.

Esta proposta não surpreende completamente Jim Ledwell, oceanógrafo na Instituição Oceanográfica Woods Hole no Massachusetts. Na década de 1990, Ledwell fez parte de uma expedição á crista médio-atlântica. Instrumentos de medição de turbulência, bem como químicos marcadores, lançados á água revelaram que os fluxos de água estavam a descer para uma zona conhecida por bacia do Brasil e a subir nas suas orlas.

Os modelos do MIT incorporaram os das dessa expedição, bem como observações mais recentes de algo semelhante na passagem Drake, entre o cabo Horn no Chile e as ilhas Shetland do Sul na Antártica: “Eles pegaram na ideia da bacia do Brasil e estenderam-na a todo o oceano", diz Ledwell. “Quando o seu artigo for publicado vai dar muito que pensar."

Quando questionado sobre este desafia á sua ideia, Munk, agora com 98 anos, responde: "Ainda não sei se estou errado mas não fico aborrecido se estiver. Acho que o importante é ter posto as pessoas a trabalhar num problema importante que antes era ignorado.”

 

 

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