2016-02-17

Subject: Nova causa para doença de Lyme complica diagnóstico já obscuro

Nova causa para doença de Lyme complica diagnóstico já obscuro

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@ Nature/Erik Karatis / Shutterstock

A doença de Lyme, transportada por carraças, há muito que é considerada como causada por uma bactéria espiroqueta chamada Borrelia burgdorferi, mas esta noção foi desafiada quando uma equipa liderada por cientistas da Clínica Mayo descobriu que, ainda que raramente, a doença pode ser causada por uma espécie diferente de bactéria que desencadeia sintomas mais sérios, desde vómitos a questões neurológicas.

Os cientistas que trabalham no polémico campo da doença de Lyme discordam, no entanto, sobre o que esta informação significa para a saúde pública e se as descobertas são realmente as primeiras do seu tipo. Durante anos, dizem, a investigação tem apontado para a noção de que a espiroqueta que provoca a doença de Lyme é mais heterogénea do que muitos reconheciam.

No novo estudo, publicado na revista The Lancet Infectious Diseases, a patologista da Clínica Mayo Bobbi Pritt testou mais de 100500 espécimes clínicos, como sangue, líquido cefalorraquidiano e tecidos, recolhidos de pacientes americanos suspeitos de Lyme entre 2003 e 2014. Usando PCR (reação em cadeia de polimerase) para encontrar diferenças genéticas entre estirpes bacterianas, descobriram que seis das amostras, recolhidas de pacientes entre 2012 e 2014 no Wisconsin, Minnesota e Dakota do Norte, continham DNA que sugeria uma nova espécie. Eles isolaram algumas dessas bactérias vivas e analisaram partes do seu código genético, confirmando que o microrganismo nunca tinha sido documentado. Propuseram para ele o nome Borrelia mayonii.

Ainda que estas descobertas tenham sido apresentadas como as primeiras evidências de outras bactérias, que não B. burgdorferi, a causar Lyme nos Estados Unidos, “outras espécies de Borrelia já foram implicadas no passado”, diz Richard Ostfeld, ecologista de doenças no Instituto Cary de Estudos dos Ecossistemas. “Parece-me pouco profissional e pouco ético que não seja dado neste estudo o devido crédito científico a outros investigadores."

De acordo com Pritt, os trabalhos anteriores associando a doença de Lyme a outras espécies de Borrelia não provam que elas causaram a infeção: é preciso mostrar que as bactérias “estão vivas ou são responsáveis pelos sintomas dos pacientes”, diz ela. Teoricamente é possível as carraças inserirem partes de bactérias nos seus hospedeiros, ainda que não lhes causem qualquer problema. A equipa de Pritt mostrou que as bactérias que encontraram estavam inteiras e vivas mas não provou que provocaram os sintomas.

Mas muitos cientistas defendem que é praticamente impossível isolar e cultivar B. burgdorferi a partir de sangue: “Raramente conseguimos cultivá-las em pessoas não tratadas com doença de Lyme aguda, onde devíamos conseguir”, explica o médico de doenças infecciosas e investigador John Aucott, diretor do Centro Johns Hopkins de Investigação da Doença de Lyme. A espiroqueta que causa a sífilis, que é parecida, foi descoberta em 1905 e continua virtualmente impossível de cultivar em laboratório.

As bactérias causadoras de Lyme são complexas por uma outra razão: mesmo numa única espécie de Borrelia, a diversidade floresce. Ao contrário do que antes se pensava, algumas espécies são capazes de recombinação genética originando diferentes estirpes que se comportam de forma diferente no corpo. As estirpes também variam consoante as zonas dos Estados Unidos, diz Robert Lane, entomologista médico na Universidade da Califórnia, Berkeley: “Temos que ir dentro das espécies e decompô-las em estirpes e genótipos. À medida que aprendemos mais, mais complicado se torna perceber os ciclos de transmissão na natureza e o que se passo no corpo humano após a exposição a uma dada espiroqueta.”

Serão estas diferenças capazes de explicar porque os pacientes com doença de Lyme têm sintomas e resultados de tratamento tão diversos? Weigang Qiu, biólogo que estuda a genética da Borrelia na Faculdade Hunter em Nova Iorque, diz que ainda ninguém sabe: “Esta é a questão mais importante mas não temos uma resposta definitiva." A B. mayonii, no entanto, parece causar sintomas mais estranhos e mais graves: alguns pacientes sofrem náuseas e vómitos, têm alergias cutâneas difusas drasticamente diferentes da típica olho-de-boi, metade deles tiveram problemas neurológicos e um terço teve que ser hospitalizado.

A nova bactéria pode também complicar o diagnóstico da doença de Lyme. Mesmo para a doença causada pela B. burgdorferi os testes recomendados pelo estado tipicamente não funcionam nas primeiras quatro semanas de infeção pois os níveis de anticorpos são demasiado baixos.

Devido a estas dificuldades, os médicos que diagnosticam Lyme nas suas fases iniciais é suposto dependerem inteiramente de pistas clínicas como alergias olho-de-boi, febre, dores e fatiga mas e se um paciente está a vomitar e tem outro tipo de alergia? “Pode-se não pensar numa doença transportada por carraças", diz Aucott, logo casos de B. mayonii podem não ser diagnosticados e não tratados. Pritt recomenda que os médicos usem a PCR para diagnosticar a B. mayonii nas primeiras fases pois estas bactérias proliferam rapidamente no sangue.

De acordo com o estudo, apenas seis americanos desde 2012 foram infetados com B. mayonii. Analisando a sua árvore filogenética, provavelmente a espiroqueta não é um novo organismo, dizem Qiu e Ostfeld, deve ter andado por aí em pequeno número e pode permanecer assim, ou pode tornar-se mais comum e aumentar a sua distribuição geográfica como outras doenças transportadas por carraças nos últimos anos, graças a diversos fatores ecológicos.

 

 

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