2016-02-10

Subject: O desafio de provar a ligação entre o vírus Zika e defeitos de nascimento

O desafio de provar a ligação entre o vírus Zika e defeitos de nascimento

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@ Nature/Schneyder Mendoza/AFP/Getty

As autoridades de saúde pública estão a investigar se o vírus Zika é o responsável pelo aparente surto de casos de microcefalia em pelo menos sete países mas determinar de forma conclusiva se o vírus transportado por mosquitos é o culpado pode levar meses ou mesmo anos, dizem os investigadores.

A preocupação surgiu pela primeira vez no Brasil, que declarou em Novembro uma emergência nacional de saúde pública. Até 2 de Fevereiro as autoridades brasileiras tinham investigado 1113 dos 4783 casos suspeitos de microcefalia relatados desde o final do ano passado e confirmado que 404 deles podem estar associados ao Zika. A 1 de Fevereiro, um comité da Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou que há "fortes suspeitas, ainda que não existam provas científicas" da ligação causal entre o Zika e a microcefalia.

Mas a situação não resulta de falta de esforço por parte dos cientistas. Trabalhos em curso incluem estudos de casos-controlo para comparar as taxas de infecção por Zika em bebés nascidos com microcefalia e normais, bem como a sequenciação genética do vírus e esforços para desenvolver um teste de diagnóstico molecular para a infecção.

Fazer progressos tem sido difícil pois os cientistas sabem relativamente pouco sobre o Zika, não há uma forma fácil de diagnosticar a infecção e os médicos discordam na definição de microcefalia, explica Bruno Andrade, imunologista no Instituto de Investigação Fiocruz na Baía, Brasil. “Tudo isto começou há menos de dois meses e desde então tudo foi acelerado, estamos no meio de um pesadelo."

Até à data, duas linhas de evidências apoiam a ligação entre o vírus e a microcefalia. Os casos de microcefalia no Brasil começaram a aumentar cerca de seis meses depois de as autoridades terem confirmado a transmissão do Zika, indiciando que o problema pode ser devido à exposição in utero ao vírus. Investigadores brasileiros também encontraram vestígios do vírus, ou anticorpos contar ele, no líquido amniótico, cérebro e líquido cefalorraquidiano de 15 fetos e bebés diagnosticados com microcefalia.

Isto é sugestivo mas não conclusivo: “A maioria de nós considera altamente plausível que o Zika seja a causa desta epidemia de microcefalia mas precisamos de mais evidências”, diz Albert Ko, médico de doenças infecciosas e epidemiologista na Faculdade de Saúde Pública de Yale em New Haven, Connecticut.

Na esperança de produzir dados mais concretos, o ministério da saúde brasileiro está agora a criar estudos de grande dimensão, um deles ´seguirá 6 mil grávidas no nordeste brasileiro para investigar os efeitos do Zika e da microcefalia.

Os estudos epidemiológicos são muitas vezes complexos pois o Zika é relativamente ameno nos adultos e não há testes disponíveis para o vírus. Isto significa que a maioria das mães que participaram em estudos anteriores nunca foram diagnosticadas com Zika, mesmo que o tivessem. Para lidar com este problema, o ministério da saúde brasileiro está agora a perguntar às mães se tiveram sintomas do Zika, em vez de se foram diagnosticadas.

Mas muitos investigadores dizem que os dados epidemiológicos por si só não os convencerão da existência de uma ligação entre o Zika e a microcefalia, precisarão de ver evidências de como e porquê o vírus causa o problema. Com isso em mente, os cientistas estão a desenvolver modelos animais para investigar os efeitos do Zika no corpo, como que tecidos infecta e porque razão os cérebros fetais poderão ser especialmente vulneráveis.

“Há muito trabalho básico e investigação a ser feita”, diz Anthony Fauci, director do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos em Bethesda, Maryland.

É plausível, por exemplo, que o Zika passe de mãe para filho através da placenta, como fazem alguns vírus aparentados, como o vírus do Nilo, mas estes outros vírus não costumam provocar danos nos cérebros dos bebés logo não é claro como ou porquê o Zika poderá faze-lo, diz David Morens, conselheiro de Fauci.

O vírus pode ser tóxico apenas durante o desenvolvimento das principais estruturas do cérebro fetal, nos primeiros dois meses de gravidez, ou pode persistir no corpo muito tempo, o que poderia explicar porque é identificado em nados mortos com microcefalia. “Se a agressão ocorresse cedo então porque estaria o vírus presente aos sete meses quando ocorre o aborto?”, pergunta Morens. “Deve haver uma combinação de várias coisas.”

Outro quebra-cabeças é o que torna estas mulheres e bebés tão vulneráveis pois a vasta maioria das mulheres infectadas com Zika têm bebés saudáveis.

Mas seja o que for que se venha a descobrir sobre o Zika, outro desafia permanece: apoiar as crianças nascidas com microcefalia. Muitas vivem no que Ko apelida “estado vegetativo" e podem desenvolver convulsões, situação muito difícil para as famílias, muitas delas pobres.

“Temos que começar a acalmar e pensar em como vamos cuidar destas crianças”, diz Ko. Se existe uma ligação entre o Zika e a microcefalia, o número de bebés afectados pode disparar à medida que o vírus se propaga, alerta ele: “Não fazemos ideia da dimensão que isto pode atingir.”

 

 

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