2016-01-24

Subject: Investigadores contestam conceção do teste clínico fatal

Investigadores contestam conceção do teste clínico fatal

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@ Nature/Stephane Mahe/Reuters

Os cientistas estão preocupados com a conceção do teste clínico de um medicamento em França, que provocou a morte de um participante e deixou vários outros com graves problemas de saúde, e apelam à publicação de mais informação.

Os investigadores, onde se incluem peritos da Real Sociedade Estatística (RSE) do Reino Unido, examinaram o documento que descreve a forma como o teste foi conduzido e dizem que continuam a faltar informações importantes.

Em particular, os investigadores notam a falta de informação sobre se a conceção incluía os adequados intervalos de tempo entre o momento em que os sujeitos que receberam  o regime de doses múltiplas que provocou os problemas. Esses intervalos permitem aos investigadores observar possíveis efeitos secundários num dados voluntário antes de expor outros ao medicamento. A incorporação desses desfasamentos foi identificada como importante tanto pelo grupo de trabalho da RSE, como pela Agência Europeia do Medicamento, após um teste clínico que correu desastrosamente mal no Reino Unido em 2006.

“Um aspeto chave é o adequado intervalo de tempo entre a aplicação das doses aos sucessivos voluntários”, diz a biostatística  Sheila Bird, do Conselho de Biostatística de Investigação Médica da Universidade de Cambridge, Reino Unido, membro do grupo de trabalho da RSE e se foca nos testes realizados pela primeira vez em humanos.

A RSE está agora a apelar à companhia portuguesa Bial, que encomendou o estudo realizado pela Biotrial, que publique mais informação sobre a sua conceção e sobre os testes que a precederam.

A porta-voz da Bial Susana Vasconcelos referiu que a recusa publicar o protocolo, bem como "discussão sobre o assunto sem saber os resultados das actuais investigações e todos os dados clínicos sobre os voluntários do teste clínico”.

Nos dias a seguir aos problemas no teste pouca informação esteve disponível, impedindo os que pretendiam compreender o que tinha acontecido de tirar conclusões. A publicação do protocolo pela Agência Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde (ANSM) não esclareceu todas as dúvidas: o documento identifica, pela primeira vez a estrutura química do medicamento, que pretende tratar ansiedade, perturbações motoras e dor crónica, e o regime que os voluntários seguiram mas ainda deixa muitas questões em aberto.

Os testes de fase I realizam-se em voluntários saudáveis para determinar a segurança e a dosagem de um medicamento, antes de passarem a estudos que testam a eficácia dos medicamentos em pessoas com uma dada doença.

No estudo, os primeiros voluntários receberam ou apenas uma única dose oral do medicamento, conhecido como BIA 10-2474, ou um placebo. Depois, diferentes voluntários receberam uma única administração de doses cada vez mais elevadas. Os seis voluntários que foram hospitalizados, alguns com sintomas graves como sangramento ou morte do tecido cerebral, foram os primeiros a receber doses múltiplas do medicamento, administradas em dias sucessivos. O primeiro paciente a adoecer morreu a 17 de Janeiro e outro recuperou o suficiente para receber alta. Os restantes têm vindo a melhorar.

De acordo com o recém publicado protocolo, os participantes neste teste deviam receber uma dose do medicamento em cada dia durante 10 dias consecutivos mas Bird diz que o protocolo não afirma se havia intervalos entre os sujeitos que estavam a iniciar este regime ou a dosagem que receberam.

Depois do teste inglês de 2006 do anticorpo TGN1412, que levou à hospitalização de seis voluntários, o grupo de trabalho de Bird recomendou que esse intervalo fosse incluído na conceção dos testes de fase I. As diretrizes concebidas pela EMA depois do problema também sublinham a importância destes intervalos e diz que a sua duração deve ser justificada pelos dados recolhidos anteriormente em humanos e animais.

De acordo com a ministra da saúde francesa Marisol Touraine, aqueles que adoeceram tinham começado o tratamento experimental nesse mesmo dia, 7 de Janeiro, e os sintomas adversos surgiram no primeiro sujeito (que foi hospitalizado com morte cerebral) a 10 de Janeiro. O teste foi interrompido a 11 de Janeiro e os cinco outros foram hospitalizados nos dias seguintes.

Catherine Hill, biostatística que já fez parte da comissão científica da ANSM, considera ter sido “um grande erro" começar a dar o medicamento a seis voluntários no mesmo dia. Ela acha que o teste devia ter incorporado um desfasamento entre a introdução de cada voluntário ao regime de doses múltiplas: “Temos que fazer as coisas de forma razoável e este parece-me um protocolo pouco razoável.”

Já Vasconcelos refere: “Reiteramos que o desenvolvimento desta molécula foi desde o início conduzido de acordo com todas as regras internacionais de boas práticas, com a realização completa de testes e pré-testes clínicos, particularmente na área de toxicologia. Os resultados obtidos de acordo com as diretrizes internacionais permitiram o início dos testes clínicos em humanos."

Num comunicado de 22 de Janeiro, a RSE apelou à publicação da 'brochura do investigador', que detalha os estudos pré-clínicos que conduziram ao atual teste. De acordo com a ANSM, a Bial recusou publicar a brochura e outro documento, citando as leis francesas que protegem a revelação de segredos de negócios.

Bird diz que a publicação dessas informações é importante para garantir a segurança dos participantes noutros estudos clínicos: “Há outros estudos em curso em todo o mundo neste momento e queremos saber quais são os problemas de conceção.”

No mesmo dia, a Sociedade Britânica de Farmacologia publicou uma declaração apelando a um acesso mais abrangente aos dados dos testes clínicos catastróficos, na sequência dos recentes problemas em França.

 

 

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