2015-10-20

Subject: O que significa para a saúde pública o primeiro caso de ébola sexualmente transmitido?

O que significa para a saúde pública o primeiro caso de ébola sexualmente transmitido?

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@ Nature/Scott Camazine/Science Photo Library

Há muito que se sabe que o vírus ébola consegue permanecer no sémen durante meses após os pacientes terem recuperado da doença mas dois estudos agora publicados na revista New England Journal of Medicine colocam a preocupação de que a transmissão sexual do vírus possa desencadear surtos de ébola na África ocidental depois de a região ter sido declarada livre da epidemia.

O que mostram estes estudos?

Um dos estudos recrutou 93 homens que sobreviveram ao ébola na Serra Leoa. Eles foram examinados dois a nove meses após terem pela primeira vez revelado sintomas e metade deles continha RNA viral do ébola no sémen, o que não foi surpresa pois vestígios do vírus permanecem no sémen durante meses. Aqueles que tinham revelado sintomas há dois meses tinham maior probabilidade de testar positivo para o RNA mas mesmo nas 43 pessoas que tinham tido os primeiros sintomas há sete a nove meses, cerca de um quarto ainda tinham ébola no sémen.

O outro estudo confirma o primeiro caso de transmissão sexual do ébola a uma mulher na Libéria.

Os sobreviventes ainda eram contagiosos?

Não necessariamente. Os investigadores do estudo da Serra Leoa (feito em conjunto com o governo local, a Organização Mundial de Saúde e os Centros para o Controlo de Prevenção de Doenças americanos) não testaram para vírus activos mas sim para sequências específicas do ébola no sémen dos homens, logo podem ter identificado apenas fragmentos do vírus inactivo. "O teste apenas detecta uma pequena porção do genoma viral e nem todo o RNA viral detectado é um vírus activo e infeccioso", diz Michael Wiley, investigador no Centro de Ciências do Genoma do Instituto de Investigação Médica de Doenças Infecciosas do Exército americano em Fort Detrick, Maryland, e um dos autores do estudo da transmissão sexual.

Os investigadores estão a trabalhar para ver se conseguem isolar vírus activos das amostras de sémen. A descoberta de RNA de ébola são apenas os resultados preliminares de um estudo a longo prazo, diz Margaret Harris, porta-voz da OMS. Estudos de seguimento irão verificar a intervalos regulares quanto tempo o vírus persiste no sémen e se está associado a outros problemas de saúde.

Qual é o risco de transmissão sexual do ébola?

As evidências de campo sugerem que é muito baixo: até agora, não tem havido casos documentados de ébola transmitido desta forma e há apenas um outro suspeito de estar relacionado, o caso de um vírus Marburg sexualmente transmitido em 1968.

Como foi este novo caso identificado?

Em Maio, uma equipa internacional de investigadores relatou que um sobrevivente masculino podia ter infectado uma mulher liberiana com ébola. A mulher teve a doença apesar de, aparentemente, não ter sido exposta a pessoas que tivessem sintomas da doença mas tinha tido recentemente relações sexuais vaginais desprotegidas com o sobrevivente masculino. Apesar de esse homem ter tido alta do tratamento ao ébola cinco meses antes, o seu sémen testou positivo para o vírus.

N actualização desta semana, os mesmos investigadores geraram uma sequência praticamente completa do genoma do ébola a partir do seu sémen e mostraram que diferia em apenas uma mutação da sequência do vírus na mulher. Três mutações partilhadas pela mulher e pelo sobrevivente não tinham sido observadas nas 796 outras sequências do ébola na África ocidental. "Acho que podemos mudar o 'provável' para 'confirmado' com base nas evidências disponíveis", diz Gustavo Palacios, um dos autores do estudo e investigador no Centro de Ciências do Genoma.

Pode o ébola persistir noutros locais do corpo?

Sim, também pode persistir algum tempo em tecidos do olho, próstata ou placenta. O risco de transmissão a partir destes locais é ainda mais baixo do que para o sémen mas a persistência do ébola, ou de seus fragmentos, está cada vez mais sob escrutínio pelo seu papel num 'síndroma pós-ébola', um leque de sintomas mal compreendido que inclui problemas visuais, dores musculares e articulares, dores de cabeça e fatiga extrema, de que sofrem milhares de sobreviventes.

A famosa enfermeira escocesa que tinha recuperado do ébola em Janeiro está agora criticamente doente com complicações relacionadas com o ébola.

A investigação do sémen é apenas uma parte de um projecto maior que está a ser planeado na Serra Leoa e que estudará a persistência do ébola numa variedade de tecidos e explorará os seus efeitos na saúde.

Quais são as implicações imediatas para a saúde pública?

A OMS já reviu as suas directrizes em Maio, em resposta à descoberta do caso de transmissão sexual cinco meses após a recuperação. Antes, recomendava aos sobreviventes masculinos a abstinência ou a utilização de preservativo durante 3 meses após a recuperação mas à luz das descobertas, a agência passou a recomendar que o sémen dos sobreviventes seja testado 3 meses após terem adoecido e os que testem positivo deverão ser testados todos os meses até terem dois testes negativos (mantendo as precauções sexuais). Os sobreviventes cujo sémen não seja testado devem praticar sexo seguro pelo menos seis meses.

Será provável que mais casos de transmissão sexual surjam nesta epidemia?

A África ocidental parece estar perto de estar livre do ébola. Uma vez esse objectivo alcançado, a possibilidade de transmissão sexual, ainda que baixa, estará mais em foco. Dado o grande número de sobreviventes masculinos, os estudos sugerem aconselhamento para enfatizar a necessidade de testes e de sexo seguro, como recomenda a OMS, para prevenir mais transmissões.

A transmissão sexual pode significar que as pessoas fiquem doentes com ébola bem depois de a OMS declarar um surto extinto, salienta Armand Sprecher, especialista em saúde pública nos Médicos sem Fronteiras: "O desafio com a transmissão sexual não é o ser fonte de muitos casos de ébola mas pode ser uma fonte de casos tardios."

E apesar de a transmissão sexual ser rara, acrescenta Wiley, vale a pena ter me mente que bastou uma única infecção para desencadear a epidemia na África ocidental.

 

 

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