2015-09-20

Subject: África enfrenta potencial crise de picadas de cobra

África enfrenta potencial crise de picadas de cobra

Dificuldades em visualizar este e-mail? Consulte-o online!

Newsletter não segue Acordo Ortográfico

@ Nature/Paul Starosta/Corbis

A África rural está a enfrentar a ressurgência de uma praga persistente mas que raramente chega às capas dos jornais: as picadas de cobra.

Em Junho do próximo ano, as reservas do anti-veneno mais eficaz contra as víboras, mambas e capelos africanas devem esgotar-se pois a única companhia que o fabrica cessou a produção. Sem qualquer substituto adequado à vista, estaremos certamente perante uma subida no número de mortos, alertam os especialistas num congresso de medicina tropical que decorreu em Basileia, Suíça.

“Estamos a lidar com uma crise de saúde pública negligenciada que se está a tornar numa tragédia para África”, diz Gabriel Alcoba, conselheiro médico para a organização humanitária Médicos sem Fronteiras (MSF).

As cobras venenosas podem parecer uma ameaça arcaica num mundo em tão rápida urbanização mas ainda assim, e segundo estimativas conservadoras, as picadas de cobra matam mais de 100 mil pessoas em todo o mundo por ano. Isso representa mais, em média, do que os que perdem a vida em desastres naturais e os sobreviventes ficam frequentemente com sequelas físicas e mentais permanentes e incapacitantes.

Em 2010, a farmacêutica francesa Sanofi Pasteur em Lyon cessou a produção do Fav-Afrique, um soro de anticorpos que reduz a quantidade de veneno em circulação no sangue de uma vítima de picada de cobra. Produzido a partir de do plasma purificado de cavalos previamente injectados com pequenas quantidades de veneno de cobra, o soro neutraliza o veneno de muitas das cobras africanas mais perigosas.

O antídoto salvou muitas pessoas de picadas de espécies perigosas como a víbora Echis ocellatus, vulgar na África ocidental, e da mamba negra Dendroaspis polylepis, encontrada por toda a região sub-saariana. Mas os custos elevados (US$250 a 500 por pessoa) e uma escassez de fornecimento significam que apenas cerca de 10% das vítimas de picada de cobra em África recebe tratamento e a companhia considera que a produção do antídoto já não é rentável. Produtos mais baratos de competidores forçaram a Sanofi Pasteur a desistir do mercado africano, diz Alain Bernal, porta-voz da companhia. A Sanofi Pasteur está a trabalhar na transferência do seu conhecimento para companhias dispostas a tomar conta da produção do Fav-Afrique, diz ele.

Farmacêuticas da África do Sul, Índia, México e Costa Rica estão entre as que comercializam produtos mais baratos, alguns dos quais funcionam bem contra as cobras desses países. Mas a sua segurança e eficácia contra uma grande variedade de espécies africanas ainda não foi estabelecida em testes clínicos. Para acelerar o processo, os MSF está a oferecer dois dos seus hospitais na República Centro-africana e no sul do Sudão para realizar os estudos mas levará pelo menos dois anos para validar os produtos em desenvolvimento e nenhum é tão abrangentemente eficaz como o Fav-Afrique, diz Alcoba.

Apesar de só agora se estar a tornar crítico, o problema com as picadas de cobra tem estado em crescendo há anos, diz o especialista em medicina tropical David Warrell, da Universidade de Oxford, que é consultor da Organização Mundial de Saúde (OMS). As mortes causadas por picadas de cobra têm subido ao longo da última década na República Centro Africana, Gana e Chade, em parte devido ao falhanço em treinar pessoal médico suficiente, à ignorância dos ministérios da saúde e à “comercialização pouco escrupulosa” de anti-venenos inadequados, diz ele. “Países destruídos pela guerra têm muitos outros problemas mas os milhões de crianças, agricultores pobres e povos nómadas em risco de sofrerem picadas de cobra não têm a atenção dos políticos que vivem nas capitais.”

De acordo com Warrell, a OMS fez pouco para ajudar. Para melhorar a segurança e a eficácia dos anticorpos, a OMS publicou directrizes para a produção de anti-venenos mas não tem um programa formal para a melhoria do tratamento treinando pessoal médico, aconselhando ministros ou educando as comunidades, como faz com 17 doenças tropicais negligenciadas, incluindo o dengue e a doença do sono. No entanto, as picadas de cobra, diz Warrell, causam mais mortes do que todas as 17 doenças em conjunto.

Warrell diz que, enquanto se espera por testes clínicos para obter substitutos para o Fav-Afrique, as chaves para a redução do risco de picadas de cobra são a educação e as medidas preventivas, como a utilização de sapatos adequados, ter luz quando se caminha pelos campos à noite e dormir acima do nível do chão, coberto por uma rede mosquiteira.

Ainda bem, diz Alcoba, a comunidade global da saúde está a começar a perceber a urgência da situação: “As pessoas costumavam rir-se quando lhes falávamos de picadas de cobra, mas agora já não.”

 

 

Saber mais:

Cobra fóssil com quatro patas é a primeira a ser descoberta

Veneno de cobra potencial fonte de medicamentos

Misterioso declínio global das cobras

Estudo revela mecanismo do capelo em cobras

Compreendido sistema de detecção por infravermelhos das cobras

Dragões do Komodo têm mordedura venenosa

 

 

Facebook simbiotica.orgTwitter simbiotica.orgGoogle + simbiotica.orgFlikr simbiotica.orgYouTube simbiotica.org Pinterest simbiotica.org

 

Arquivo  |  Partilhar Comentar |   Busca Contacte-nos  |  Imprimir  |  Subscrever | @ simbiotica.org, 2015


Return to Archives

Newsletter service by YourWebApps.com