2015-09-11

Subject: Autópsias revelam sinais de Alzheimer em pacientes que tomaram hormonas de crescimento

Autópsias revelam sinais de Alzheimer em pacientes que tomaram hormonas de crescimento

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@ Nature/Jaunmuktane et al. Nature 525, 247–250 (2015

Apenas há uma década, a ideia de que a doença de Alzheimer pudesse ser transmissível teria sido alvo de chacota mas os cientistas desde então mostraram que tecidos podem transmitir sintomas da doença entre animais e os resultados mais recentes indiciam que os humanos (pelo menos numa circunstância invulgar) podem não ser excepção.

As descobertas, publicadas na edição mais recente da revista Nature, surgiram a partir de estudos de autópsias ao cérebro de oito pessoas que tinham morrido com a rara mas mortífera doença de Creutzfeldt–Jakob (DCJ). Essas pessoas contraíram a doença há décadas, após receberem tratamentos com lotes contaminados de hormonas de crescimento extraída da glândula pituitária de cadáveres humanos. Seis desses cérebros, para além dos danos causados pela DCJ, apresentavam a patologia amilóide associada à doença de Alzheimer.

“Estas são as primeiras evidências de transmissão no mundo real da patologia amilóide”, refere o neurocientista molecular John Hardy, do University College de Londres (UCL). “É uma potencial preocupação.”

Se forem confirmadas, as descobertas levantam o fantasma de dezenas de milhar de pessoas tratadas com extractos de hormona de crescimento humana (hGH) poderem estar em risco de desenvolver Alzheimer. Apesar de não haver qualquer sugestão de que o Alzheimer possa ser contraído através do contacto normal com pacientes, alguns cientistas estão preocupados com o facto de as descobertas terem implicações mais abrangentes, nomeadamente que o Alzheimer possa ser transmitido por outras vias através das quais a DCJ também o é, como transfusões de sangue ou instrumentos cirúrgicos contaminados.

A DCJ é uma das várias doenças neurodegenerativas causados por uma proteína infecciosa mal formada (um prião) conhecida por PrP. A sua forma incorrecta torna-a aderente, originando agregados. Os cientistas agora acreditam que o Alzheimer também pode ser desencadeado por uma má formação semelhante, nesse caso do péptido β-amilóide, com as placas típica da doença a formarem-se a partir de pequenas 'sementes' de β-amilóide. Os ratos e alguns macacos desenvolveram placas quando os seus cérebros foram injectados com extractos de  de cérebros contendo β-amilóide. Nos ratos, as placas até se desenvolveram placas quando os extractos foram injectados na barriga.

Os autores deste último artigo fornecem o primeiro apoio à teoria de que a formação de placas amilóides pode ser desencadeada desta forma em humanos, apesar de “ficarem aquém de fornecerem a prova final disso", diz o neurocientista Mathias Jucker, da Universidade de Tübingen, Alemanha. Essa prova exigiria a injecção de hGH derivada de cadáveres em animais debaixo de condições controladas e ver se os depósitos amilóides se desenvolviam em consequência disso.

Mas pode não ser fácil obter os extractos de hGH originais, que foram preparados em várias localizações. Alguns foram armazenados no Reino Unido, onde existem processos judiciais em curso, mas os cientistas não sabem se outros stocks foram mantidos. Também pode ser difícil seguir as pessoas que receberam as injecções de hGH após tantos anos.

De 1958 a 1985, quando os riscos foram percebidos pela primeira vez, cerca de 30 mil pessoas por todo o mundo foram injectadas com hGH nos músculos, na maioria crianças que não estavam a crescer à taxa normal. As preparações incluíam material extraído de milhares de cadáveres, tendo-se verificado que alguns extractos estavam contaminados com priões de DCJ, o que levou a 226 infecções mortais até 2012, a maioria em França (119), Reino Unido (65) e Estados Unidos (29). Os números continuam a aumentar pois a DCJ tem um período de incubação longo.

Nenhum dos pacientes estudados, com idades entre os 36 e os 51 anos à data da morte, tinham revelado sintomas clínicos de Alzheimer, outra doença com um período de incubação longo. Dos seis que já revelavam patologia amilóide, esta era generalizada em quatro.

Como é raro observar este tipo de patologia amilóide em idades tão precoces, os cientistas suspeitaram que as sementes amilóides podiam ter sido transferidas com a injecção de hGH, tal como o prião de DCJ. Para excluir outro tipo de explicação, realizaram uma série de pesquisas.

Determinaram que nenhum dos oito indivíduos transportava genes que os predispusessem a Alzheimer precoce ou outras doenças neurodegenerativas. Procuraram, mas não encontraram, patologia amilóide significativa em pacientes com idade semelhante que morreram de DCJ ou de outra doença neurodegenerativa por priões que nunca tivessem sido tratados com hGH.

Mais, a equipa confirmou se a patologia amilóide podia realmente propagar-se do cérebro para a glândula pituitária, o que confirmaram em em princípio, apoiando um estudo americano de 2013 que já o referia. Examinaram as glândulas pituitárias de 49 pessoas que tinham morrido com placas amilóides no cérebro e descobriram que sete delas continham depósitos amilóides.

“Pensamos que a explicação mais plausível para a ocorrência de patologia amilóide é que esta tenha sido transmitida por extractos específicos de hGH que tinham sido contaminados com sementes de β-amilóide, bem como com priões de DCJ”, explica John Collinge, um dos co-autores do artigo e neurologista no UCL. Se isso se verificar, a β-amilóide teria sido um contaminante muito mais frequente dos diferentes lotes de hGH que a PrP, pois o Alzheimer é uma doença muito comum.

Os priões são mais difíceis de desactivar que as bactérias e os vírus: ligam-se fortemente a metais e a descontaminação exige condições de esterilização extremas, que podem danificar os instrumentos médicos frágeis. Por essas razões, os neurocirurgiões geralmente não a realizam, refere um neurocirurgião alemão off the record, acrescentando que se se confirmar que o Alzheimer se transmite da mesma forma que os priões, o impacto sobre a saúde pública e a prática cirúrgica será importante e muito dispendiosa.

“Aprendemos muito sobre a descontaminação com a nossa experiência com a DCJ”, diz o neuropatologista Charles Duyckaerts, do Hospital Pitié-Salpêtrière em Paris. “Mas isto é um alerta para a comunidade médica ficar particularmente vigilante.”

Com tanto em jogo, os cientistas estão a preparar-se para replicar os resultados de forma independente. Duyckaerts refere que tem planos para o fazer em 20 ou 30 sujeitos que morreram de DCJ em França, após receberem o tratamento com hGH derivada de cadáveres.

 

 

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