2015-08-07

Subject: Modelos cruciais da acidificação oceânica aquém do exigido

Modelos cruciais da acidificação oceânica aquém do exigido

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@ Nature/NOAA

À medida que a química dos oceanos é alterada pela subida nos níveis de dióxido de carbono atmosférico, a resposta dos seus habitantes, como peixes, moluscos e corais é uma enorme incógnita que tem implicações para as pescas e para a conservação. Mas os investigadores que tentam encontrar uma resposta não estão a conseguir conceber e reportar as suas experiências, de acordo com uma análise de duas décadas de literatura.

Os oceanos absorvem grande parte do CO2 emitido pelas actividades humanas, o que conduz a um leque de alterações químicas, como a acidificação das águas.

As Nações Unidas alertaram para o facto de a acidificação oceânica poder custar à economia global US$1 trilião por ano até ao final do século, devido a perdas nas pescas e no turismo. Estima-se que a pesca de ostras nos Estados Unidos já tenha perdido milhões de dólares em resultado da redução das capturas, em parte atribuída à acidificação dos oceanos.

Na última década assistiu-se a cada vez mais tentativas para prever o que estas alterações no pH irão significar para os seus habitantes, em particular através de experiências que colocam organismos em tanques de água que simulam os cenários futuros da química oceânica.

No entanto, de acordo com uma análise publicada no mês passado pelo oceanógrafo Christopher Cornwall, que estuda a acidificação oceânica na Universidade da Austrália Ocidental em Crawley, e pela ecologista Catriona Hurd, da Universidade da Tasmânia em Hobart, Austrália, a maioria dessas experiências laboratoriais usaram métodos inadequados ou não relataram adequadamente os seus métodos.

Cornwall diz que “evidências avassaladoras" desses estudos sobre os efeitos negativos da acidificação oceânica continuam válidos, no entanto: por exemplo, águas mais ácidas abrandam o crescimento e pioram a saúde de muitas espécies que constróem estruturas, como conchas de carbonato de cálcio. Mas a sua descoberta de que muitas das experiências são problemáticas torna difícil avaliar com rigor a magnitude dos efeitos da acidificação oceânica e combinar resultados de experiências individuais para criar predições abrangentes para a forma como o ecossistema como um todo se comportará, diz ele.

A análise, publicada na revista ICES Journal of Marine Science, baseou-se numa busca na base de dados Scopus de artigos de investigação. Cornwall e Hurd analisaram 465 estudos publicados entre 1993 e 2014 que manipulavam a química da água do mar e descobriram que muitas vezes as experiências não implementavam medidas de garantia de qualidade generalizadamente aceites.

Por exemplo, para garantir a robustez, os estudos de manipulação devem usar múltiplos conjuntos de tanques independentes que simulam as condições marinhas e, em experiências que comparam animais marinhos em condições de acidificação com controlos, esses tanques devem ser aleatórios para remover deturpações. Mas os investigadores descobriram que em vários artigos, os investigadores usaram um tanque de água do mar principal para fornecer vários, supostamente independentes, tanques menores.

Os investigadores também encontraram erros em química básica: alguns autores simplesmente adicionaram ácido a um tanque e ignoraram outras alterações químicas que resultam da absorção do CO2, como a subida do nível de carbonatos. Apesar da frequência destes erros químicos ter caído desde em 2010 ter sido publicado um guia de boas práticas internacional para as experiências sobre acidificação oceânica, os investigadores não encontraram melhorias na concepção dos conjuntos de tanques.

Bayden Russell, investigador de acidificação oceânica na Universidade de Hong Kong que reviu rascunhos deste último artigo, também salienta que alguns investigadores não têm em conta as complexidades da acidificação oceânica na concepção das suas experiências e “são elas que irão conduzir as respostas do ecossistema à situação", diz ele.

Globalmente, Cornwall e Hurd descobriram que apenas em 27 casos podiam ter a certeza da utilização de uma concepção experimental apropriada e, em 278 casos, a concepção era claramente inadequada. Os restantes estudos não tinham detalhes suficientes sobre a montagem experimental, o que por si só já é um problema.

Os investigadores apresentam uma série de recomendações para experiências bem concebidas e sugerem uma lista de verificação de detalhes que devem ser incluídos nos artigos para permitir a replicação das experiências, incluindo quais os químicos usados para manipular a química da água do mar e a configuração dos conjuntos de tanques.

Ove Hoegh-Guldberg, director do Instituto de Alterações Globais da Universidade de Queensland em St Lucia, Austrália, sugere que os investigadores também devem ter em conta as variações naturais na temperatura e no CO2 nas suas concepções experimentais e garantir que as experiências que manipulam a acidez também simulam a subida da temperatura devida ao aquecimento global que a acompanham, o que muitos não fazem.

Russell pensa que os grupos de investigação estão agora a tentar usar as concepções apropriadas mas considera que ainda há problemas, que atribui a uma variedade de factores: “Infelizmente, as concepções verdadeiramente rigorosas são logisticamente complexas e dispendiosas, tanto em custo de instalação, como em tempo de manutenção. Quando juntamos a crescente pressão para publicar rapidamente e em revistas de topo, alguns investigadores ainda tentam publicar pesquisas que só posso classificar como sub-standard.”

Jonathan Havenhand, que trabalha com invertebrados marinhos na Universidade de Gotemburgo, Suécia, e co-autor do guia de 2010, vê com agrado este último artigo: “Todos devem conhecer os factos aqui presentes, ainda bem que o escreveram, ainda que seja desapontante que tenham tido a necessidade de o fazer.”

Havenhand suspeita que o artigo será bastante citado: “Se as pessoas ficarão felizes por faze-lo, isso já não sei dizer.”

 

 

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