2015-07-31

Subject: Morte de leão carismático revela dificuldades dos conservacionistas

Morte de leão carismático revela dificuldades dos conservacionistas

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@ Nature/Zimbabwe National Parks/AFP/Getty

David Macdonald, director da Unidade de Investigação para a Conservação da Vida Selvagem da Universidade de Oxford, Reino Unido, viu a sua pesquisa trazida para a ribalta depois da morte de um dos leões da sua equipa ter chegado às primeiras páginas por todo o mundo.

O leão Cecil, que equipa de Macdonald tinha equipado com uma coleira com GPS e era seguido desde 2008, era um dos felinos mais famosos do Zimbabwe. O animal terá sido morto após ser atraído para fora do Parque Nacional Hwange e abatido ilegalmente por um turista americano que pagou para obter um troféu. Dois outros caçadores acusados de o ajudar enfrentam um processo criminal.

Macdonald comenta na conversa com a revista Nature que se relata o impacto da caça para troféus e da caça furtiva sobre as populações de leões e a importância da morte de Cecil.

Por que razão a sua equipa seguia o Cecil e outros leões?

Desde há 20 que eu e o meu colega Andrew Loveridge lideramos um projecto sobre conservação dos leões sedeado no Parque Nacional Hwange, no Zimbabwe. É certamente um dos maiores projectos de conservação alguma vez feito com leões, temos seguido os nascimentos, mortes e casamentos de mais de 500 animais, com o auxílio de satélite para mais de 200 deles, de modo a construir a ciência por trás da política de conservação, trabalhando de perto com os parques nacionais e a Autoridade de Gestão da Vida Selvagem do Zimbabwe.

O projecto forneceu uma quantidade enorme de dados sobre a ecologia comportamental dos leões e sobre os factores que ameaçam a sua conservação, incluindo a perda de habitat, o conflito entre leões, agricultores e comunidades locais, bem como o abate de leões para a obtenção de troféus e a caça furtiva.

Conhecia o Cecil?

Sim, muito bem. Ainda há poucos meses eu e o Andy andávamos de jeep atrás do Cecil enquanto ele se deslocava para a orla do parque. Conhecendo este animal bem, a sua beleza e magnificência, tive esperança que voltasse para trás antes que atravessasse as fronteiras do parque. Dessa vez ele voltou e lembro-me de ficar muito aliviado mas a sua sorte acabou desta vez.

De que forma a caça para troféus ou a caça furtiva afectam os leões de Hwange?

Das mortes de leões macho que registámos durante os primeiros anos do estudo, mais de 70% ocorreram quando saíam do parque. Agora já temos episódios suficientes de morte de leões macho para sabermos que isso causa perturbações que afectam outros.

A consequência da morte de um macho, legal ou ilegalmente, é o enfraquecimento a coligação de que faz parte, frequentemente uma irmandade. Uma coligação maior e mais forte vem usurpar a sua posição, frequentemente levando à morte dos irmãos sobreviventes. Os machos recém-chegados geralmente matam as crias dos destronados. Uma abordagem simplista pode pensar que menos um leão é apenas menos um leão, há outros, mas a realidade é que menos um leão pode conduzir à morte de muitos outros leões, bem como a uma reorganização da sua organização espacial e sociedade.

Isso é um problema para as populações de leões em geral? É que não estão classificados como espécie ameaçada.

Um estudo de há alguns anos sugeria que havia mais de 30 mil leões em África mas cada vez mais as evidências que temos é que há muito menos que isso, na maior parte da sua distribuição geográfica actual o seu número está em declínio. Os leões estão metidos em apuros.

Então considera que o estatuto de vulnerável do leão precisa de ser actualizado para ameaçado?

Não, não digo isso mas digo que a conservação dos leões é uma prioridade, não só é apropriado cientificamente mas praticamente imperativo como forma de manter a biodiversidade em África.

A caça para troféus é legal no Zimbabwe e noutros países, ainda que Cecil tenha sido morto ilegalmente. Acha possível que este tipo de actividade possa ser mantida de forma sustentável?

Sob uma regulamentação rigorosa pode ser. Alguns conservacionistas defendem que em alguns locais é a melhor forma de atribuir valor aos leões, fazendo com que as comunidades locais os tolerem. Mas é importante que isso beneficie directamente os accionistas da vida selvagem, neste caso as comunidades em redor do parque nacional que vivem lado a lado com os leões.

No entanto, outros conservacionistas consideram essa visão impossível de aceitar, seja qual for a circunstância.

E qual é a sua posição?

Eu não apoio nenhum dos lados, a minha posição é compreender os factos e assim as consequências prováveis de cada acção e apoiar as autoridades na aplicação da lei.

É a morte de Cecil, um leão, uma distracção dos problemas enfrentados por outras espécies que estão perante ameaças mais urgentes?

Cada espécie tem a sua importância, tanto no funcionamento das comunidades ecológicas, como na conservação. Mas a realidade é que o público em geral, e até muitos especialistas, têm prioridades. O leão é carismático, ganha a simpatia das pessoas, é um monumento, um emblema para a conservação. O entusiasmo da comunidade por animais carismáticos pode ser um porta-estandarte para o entusiasmo pela natureza em geral, o que é algo bom.

Então pode haver um lado positivo para a morte de Cecil?

A reacção que causou é algo que nos agradou: milhões de pessoas usaram a situação para expressar o seu entusiasmo pelo valor da natureza. Esse é o tipo de entusiasmo que espero que venha a influenciar a formulação de políticas que permitam à humanidade florescer a par da biodiversidade. Esse seria um belo memorial para a morte ilegal deste leão em particular, um animal invulgarmente carismático e fascinante.

 

 

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