2015-06-20

Subject: Activação de memórias felizes ajuda ratos tristes

Activação de memórias felizes ajuda ratos tristes

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@ Nature/Steve Ramirez

Estimular a actividade nos neurónios que armazenaram memórias felizes pode ajudar a tratar a depressão, pelo menos de acordo com os resultados de um estudo em ratos.

Num estudo publicado na última edição da revista Nature, o neurocientista Susumu Tonegawa, do Instituto de Tecnologia do Massachusetts de Cambridge, relata ter revertido um estudo semelhante à depressão em roedores usando luz para estimular grupos de neurónios que se acredita terem armazenado memórias de uma experiência positiva.

As descobertas são preliminares mas indiciam que as zonas do cérebro envolvidas no armazenamento de memórias podem um dia ser o alvo do tratamento de perturbações mentais em humanos, diz Tonegawa. “Quero ser cuidadoso e não dar falsas expectativas aos pacientes pois estamos numa fase de ciência muito básica.”

“Este é exactamente o tipo de trabalho que a psiquiatria precisa neste momento", diz Robert Malenka, neurocientista na Universidade de Stanford, Califórnia. “É um trabalho elegante."

Este trabalho cresceu a partir de estudos do laboratório de Tonegawa e de outros que pretendem localizar o engrama da memória, o vestígio físico de uma memória, que se pensa estar codificado num grupo de neurónios.

Em 2012, Tonegawa forneceu uma das demonstrações mais claras da existência de um engrama. A sua equipa modificou geneticamente ratos com proteínas sensíveis à luz que se expressavam quando os neurónios eram activados. Em resultado, eles conseguiram seguir os neurónios que foram activados quando os ratos receberam uma memória temerosa ao serem treinados com choques eléctricos repetidos para terem medo de uma jaula. Os investigadores usaram depois flashes de luz azul para levar os mesmos neurónios a disparar, uma técnica conhecida por optogenética, e descobriram que conseguiam assustar os animais, presumivelmente pelo reactivar de uma memória temerosa.

Mais recentemente, os investigadores usaram variações do método do engrama para criar falsas memórias em ratos, desencadear memórias perdidas e até voltar a treinar células dos engramas para codificar uma memória positiva em vez de uma negativa.

Neste último trabalho, o grupo de Tonegawa identificou neurónios que disparavam quando ratos macho desfrutavam de uma experiência compensadora ao passar tempo com uma fêmea. Os investigadores restringiram, depois, os movimentos dos ratos macho durante 10 dias e os animais perderam a sua preferência natural por água açucarada em vez de água normal, sugerindo uma perda de interesse por experiências aprazíveis. Os animais stressados estrebuchavam menos quando levantados pelas caudas, um sintoma vulgarmente interpretado como falta de motivação.

Quando a equipa reactivou um engrama positivo, estes sintomas foram revertidos em minutos. Primeiro, os investigadores viram apenas benefícios de curta duração, que pareciam surgir e desaparecer com a estimulação de luz. Mas eventualmente produziram efeitos persistentes atingindo os engramas positivos com luz duas vezes por dia durante cinco dias consecutivos. Ao sexto dia, os animais antes stressados mostraram mais motivação e comportamentos de busca de prazer, mesmo depois de a luz ser apagada. “Conseguimos curar a depressão dos animais”, diz Tonegawa, apesar de acrescentar que ainda não sabe quanto tempo durará o efeito.

O efeito não parece ser o resultado de alterar simplesmente os circuitos de recompensa e emoção do cérebro, diz Tonegawa. Os animais stressados que recebem cinco dias de exposição real a uma fêmea não revelaram as melhorias desencadeadas pela estimulação cerebral. “Acho que este é um dos aspectos mais intrigantes do estudo”, diz Amit Etkin, investigador psiquiátrico em Stanford. “Há algo especial acerca da codificação de uma memória positiva que é diferente de apenas ser recompensado."

Tonegawa especula que o resultado se relaciona com a observação de que algumas pessoas com depressão têm dificuldade em recordar ou desfrutar experiências positivas. Estimular directamente uma memória positiva codificada antes da depressão pode ter ajudado os ratos a ultrapassar algumas disfunções induzidas pela depressão no cérebro, diz ele.

Mas Etkin alerta que as analogias com humanos são prematuras, dado o fosso entre os modelos animais simples da depressão e a situação humana complexa. “A depressão em humanos é um estado clínico muito heterogéneo. Algumas pessoas têm problemas com a motivação e sensação de recompensa e outras não. Temos que ser cuidadosos com a generalização isto a todas as depressões em humanos."

Também pode ser difícil imaginar de que forma as técnicas de activação de neurónios usadas no estudo com ratos podem ser transpostas para humanos. A estimulação optogenética não é possível em humanos e os implantes estimuladores colocados profundamente no cérebro, que exigem cirurgia invasiva, são usados apenas em último recurso.

Tonegawa enfatiza que o seu trabalho tem como objectivo apenas explorar as disfunções de circuitos que estão por trás de perturbações mentais. “Espero que estes estudos de mapeamento dos circuitos neurais em que a estimulação teve em efeito positivo possam fornecer a lógica ou o potencial para o desenvolvimento de futuras terapias", diz ele.

 

 

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