2015-05-13

Subject: O que torna vizinhos pacíficos em assassinos em massa?

O que torna vizinhos pacíficos em assassinos em massa?

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@ Nature/AP/Press Association

O que acontece no cérebro de quem passa de pacífico vizinho a chacinar toda a gente em redor? Em 1997, o neurocirurgião Itzhak Fried, da Universidade da Califórnia, Los Angeles, consciente dos recentes massacres na Bósnia e no Ruanda, descreveu esta mudança de comportamento em termos de um síndroma médico, que apelidou 'síndroma E'.

Cerca de 20 anos depois, Fried juntou sociólogos, historiadores, psicólogos e neurocientistas no Instituto de Estudos Avançados em Paris para discutirem novamente a questão. Na conferência, intitulada 'Os cérebros que puxam o gatilho', ele conversou com a revista Nature sobre a necessidade de considerar este tipo de assassínio em massa em termos científicos, bem como sociológicos, e sobre o desafio de estabelecer um diálogo interdisciplinar nesta área tão sensível.

Em que dados baseou o seu hipotético síndroma E?

Os historiadores tinham analisado relatos pessoais de numerosos massacres, como o dos arménios em 1915, dos judeus europeus na II Grande Guerra, dos cambodjanos durante o regime de Pol Pot e as matanças étnicas da Bósnia e do Ruanda na década de 1990. Também recolhi informação das poucas experiências de ciências sociais disponíveis à data, como a famosa experiência Milgram, (que estudou a disponibilidade de alguns para infligir dor a outros em obediência a ordens de figuras de autoridade).

Fiquei particularmente impressionado pelo livro de Christopher Browning Ordinary Men, que descreve o testemunho de centenas de reservistas alemães de meia-idade e não politizados que foram levados para a Polónia em 1942. Num curto período de tempo, quase todos se tornaram assassinos eficientes, participando no fuzilamento de 38 mil judeus e conduzindo 45 mil outros para os comboios para as câmaras de gás. O seu comandante permitiu que os reservistas se escusassem mas apenas cerca de 10% deles decidiu não matar. Achei que a transformação em assassino reincidente tinha que ter a biologia por detrás, todo o nosso comportamento é conduzido pela actividade cerebral.

Quais são as principais características do síndroma?

Existe o mito de que o cérebro primitivo é mantido em cheque pelo córtex pré-frontal mais recente, que está envolvido na análise complexa, e que as zonas primitivas subcorticais assumem o controlo quando cometemos crimes brutais, como homicídios repetidos. Mas eu vi a coisa ao contrário, os sinais e sintomas que recolhi na minha pesquisa indicam que o córtex pré-frontal, e não o cérebro primitivo, é responsável pois já não estava a reagir aos controlos normais vindos das zonas subcorticais.

Eu chamei a isso 'fractura cognitiva', a aversão visceral normal a magoar outros, o horror emocional a esses actos, foram desligados de um córtex pré-frontal hiper-excitado. Também propus um circuito neural no cérebro que talvez fosse responsável por isso. Resumindo, partes específicas do córtex pré-frontal tornam-se hiperactivas e amortecem a actividade da amígdala, que regula as emoções.

Por que razão voltar a esta discussão agora?

Quando propus o Síndroma E, a disciplina da neurociência cognitiva estava a dar os primeiros passos e tecnologias como a fMRI e o electroencefalograma eram jovens. Mas a disciplina cresceu rapidamente e agora há muito mais informação que pode ser relevante.

Os resultados discutidos na conferência apoiam a sua hipótese?

Os neurocientistas no encontro não estavam a trabalhar directamente no fenómeno do assassinato reincidente mas relataram descobertas das suas pesquisas que eram compatíveis com a fractura cognitiva. Por exemplo, Lasana Harris, da Universidade de Leiden, Holanda, que estuda a hostilidade entre grupos sociais, usou fMRI e EEG para mostrar que pessoas 'normais' podem suprimir a sua rede cognitiva social de forma a que os seus 'inimigos' possam ser percebidos como objectos desumanizados e não pessoas e, assim, desprovidos de emoção.

Concorda com os sociólogos presentes no encontro, que defendem que não era adequado medicalizar um problema social?

Não vejo que seja isso que estou a fazer, estou apenas a formulá-lo de uma forma que sei ser útil para a medicina. Como médico, trabalha-se sempre com algum grau de incerteza, que se tenta minimizar determinando sinais e sintomas observáveis na esperança de que a compreensão surja. Parece ser uma boa maneira de criar um quadro para a discussão interdisciplinar.

Funcionou juntar disciplinas tão diferentes?

O conceito dos sociólogos de que as pessoas delimitam fronteiras simbólicas em redor de outros fez sentido para mim. Outros conceitos foram mais difíceis de contornar porque usamos vocabulário diferente, não compreendi o que os sociólogos querem dizer quando falam de termos 'diferentes eus' em diferentes situações. E é verdade que os sociólogos estavam nervosos por dizermos que tudo se baseia no cérebro, particularmente quando se trata de comportamentos de indivíduos no seio de grupos.

Os neurocientistas sentiram-se desconfortáveis quando lhes pediram que considerassem de que forma a sua pesquisa poderia ser usada para compreender a mente de assassinos reincidentes?

Estávamos todos fora da nossa zona de conforto. Eu sabia que estava a correr riscos e que tudo podia cair a qualquer momento mas isto é um problema tão grande, que causa tanta perda de vidas, pensem no terrorismo do Estado Islâmico actualmente, que temos a responsabilidade de começar a falar disso.

Se os assassinatos em massa acontecem devido à actividade no cérebro, o que é que isso nos diz sobre a responsabilidade pessoal?

Quem comete assassinatos repetidamente tem a capacidade de raciocinar e resolver problemas, tal como qual a forma mais prática de matar muitas pessoas rapidamente. Propor a existência de um síndroma não as absolve de qualquer responsabilidade.

Mesmo que compreendêssemos os mecanismos neurais envolvidos, o que poderíamos fazer?

É difícil de imaginar como isto possa ser controlado a nível político mas compreender as coisas a um nível fundamental, biológico, vai encorajar os decisores a focarem-se no tipo adequado de educação sobre isto. Um pequeno número de pessoas não faz a transição para se tornar assassino nestas situações críticas e a educação precoce pode ajudar a aumentar o número daqueles que não serão susceptíveis.

O que significa o ‘E’ do síndroma E?

Um editorial de 1996 na revista The Lancet defendia a esperança de que, um dia, um cientista inquisitivo “se depare com o mal ... e o reconheça pelo que é”. Tomei a decisão de não usar a palavra 'evil', pois achei que convidava as metáforas e condicionava a mente inquisitiva mas mantive o ‘E'.

 

 

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