2015-01-28

Subject: Pensamento instintivo não é assim tão esperto

Pensamento instintivo não é assim tão esperto

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@ Nature/John Springer Collection/Corbis

Se temos que tomar uma decisão complexa, devemos embrenhar-nos em algo como palavras cruzadas em vez de ruminar sobre as nossas opções? A ideia de que o pensamento inconsciente é por vezes mais poderoso que o consciente é atractiva e ecoa ideias popularizadas por livros como o sucesso de vendas de Malcolm Gladwell Blink.

Mas na comunidade científica a 'vantagem do pensamento inconsciente' (VPI) tem sido controversa. Agora, psicólogos holandeses levaram a cabo o estudo mais rigoroso à data sobre a VPI e não encontraram qualquer evidência de que ela exista.

A sua conclusão, publicada esta semana na revista Judgement and Decision Making, baseia-se numa grande experiência que conceberam para obter a melhor hipótese de de capturar esse efeito, se ele existisse, bem como numa análise estatística sofisticada dos dados anteriormente publicados.

O relatório vem somar-se a preocupações mais vastas sobre a qualidade dos estudos psicológicos e controvérsia em curso sobre em que grau o pensamento inconsciente de modo geral pode influenciar o comportamento. "O debate maior é sobre até que ponto o nosso inconsciente é esperto", diz o psicólogo cognitivo David Shanks, do University College de Londres. “Este artigo cuidadosamente construído dá uma importante contribuição." 

Shanks publicou no ano passado uma revisão que questionava investigações anteriores que alegavam que várias influências inconscientes, incluindo a VPI, afectavam o processo de tomada de decisão.

Um típico estudo que analise a VPI pede aos sujeitos que tomem uma decisão complexa, como escolher um carro ou um computador, depois de matutarem sobre uma lista dos atributos do objecto ou olhando rapidamente para a lista e depois absorvendo-se numa actividade que os distraia, como palavras cruzadas. No entanto, estes estudos têm chegado a diferentes conclusões, com cerca de metade dos publicados à data relatando o efeito da VPI e a outra metade a não encontrar sinais dela.

Os proponentes da teoria alegam que o efeito é extremamente sensível a variações experimentais e frequentemente atribuem os resultados negativos ao facto de muitas equipas de investigadores variarem elementos iniciais, como a escolha do puzzle usado para a distracção. Os críticos dizem que os resultados positivos derivam de haver demasiados participantes nas experiências.

Os psicólogos Mark Nieuwenstein e Hedderik van Rijn, da Universidade de Groningen,, Holanda, decidiram determinar qual destas explicações era a correcta.

Pediram a 399 participantes, cerca de dez vezes mais do que a dimensão média da amostra nestes estudos, para escolherem entre 4 carros ou 4 apartamentos com base em 12 características desejáveis ou indesejáveis. Incorporaram a lista completa de condições que os proponentes da VPI relatam como sendo a que fornece efeitos mais fortes, bem como o exacto tipo de puzzle usado na distracção. Descobriram que o grupo mais distraído não tinha maior probabilidade de escolher o item mais desejado.

Seguidamente voltaram a analisar 60 das 81 experiências descritas nos 32 artigos sobre VPI publicados antes de Abril de 2014. Para esta meta-análise excluíram experiências que tinham dados insuficientes para análise ou que se desviavam das condições relatadas como favoráveis à VPI. Também incluíram os resultados do seu próprio estudo e aplicaram uma rigorosa meta-análise estatística, não tendo encontrado efeito VPI significativa.

“Historicamente, os psicólogos têm-se orgulhado do seu comando das estatísticas”, diz o psicólogo Jonathan Baron, da Universidade da Pensilvânia em Filadélfia, editor da revista Judgement and Decision Making. Mas este estudo mostra que muitas vezes no passado elas foram mal concebidas: "Se a VPI anda por aí, não consegue ser capturada por experiências concebidas em laboratório."

O psicólogo Ap Dijksterhuis, da Universidade Radboud em Nijmegen, Holanda, que primeiro descreveu a teoria do pensamento inconsciente, que prevê a VPI, em 2004, comenta: “É certamente verdade que a psicologia melhorou muito nos últimos anos quando se trata da análise de dados e é verdade que no passado se aplicaram análises menos boas." Mas ele não aceita as descobertas da meta-análise, pois acha que as conclusões seriam diferentes se os autores não tivessem excluído algumas experiências. Para ele, “as evidências da VPI têm crescido rapidamente".

A VPI não é a única alegação do 'inconsciente esperto' a estar debaixo de escrutínio. Por exemplo, experiências levadas a cabo sob o Projecto de Replicação “Many Labs”, que coordena laboratórios a nível internacional para a repetição de estudos psicológicos de forma a validar as suas alegações, bem como vários estudos separados, também desafiaram outro conceito psicológico conhecido por priming social. De acordo com esse conceito, certos comportamentos são alegadamente modificados de forma inconsciente pela exposição prévia a estímulos, como a bandeira nacional ou pensar em dinheiro.

Outras dúvidas levantadas sobre o pensamento inconsciente incluem o seu papel em alguns tipos de tomada de decisão sob incerteza.

Apesar das descobertas mais recentes, Brian Nosek, psicólogo na Universidade da Virginia em Charlottesville e um dos fundadores do Many Labs, diz que continua optimista sobre a teoria subjacente à VPI: “Ficaria surpreso se a teoria do pensamento inconsciente não se mantivesse pois está de acordo com as teorias contemporâneas."

Shanks concorda que o debate sobre a teoria do pensamento inconsciente não acabou: “Como tomamos decisões e como as podemos tornar melhores tem uma importância prática e teórica.”

 

 

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