2015-01-16

Subject: Em busca das raízes do terrorismo

Em busca das raízes do terrorismo

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@ Nature/Richard Davis/Artis Research

No seguimento dos ataques terroristas da semana passada ao jornal satírico Charlie Hebdo e a um supermercado parisiense, o mundo luta para compreender a combinação de religião, cultura europeia e influência de organizações terroristas que motivou os atiradores.

Scott Atran, antropólogo na Universidade do Michigan em Ann Arbor e no Centro Nacional de Investigação Científica de Paris, estuda essas questões entrevistando terroristas em formação e condenados sobre o seu compromisso extremo para com as suas organizações e ideais. Atran regressou recentemente de Paris, onde falou com membros das comunidades dos atiradores.

Que factores sociológicos e culturais estão por detrás dos ataques de Paris?

Ao contrário do que acontece nos Estados Unidos, onde os imigrantes alcançam um estatuto socioeconómico e educação médios no espaço de uma geração, na Europa mesmo após três gerações, dependendo do país, continuam a ter 5 a 19 vezes maior probabilidade de serem pobres ou sem educação. A França tem cerca de 7,5% de muçulmanos e no entanto eles representam 60 a 75% da população prisional. É uma situação muito semelhante à da juventude negra nos Estados Unidos.

A diferença é que aqui há uma ideologia que lhes é apelativa. Em França, uma sondagem feita pela ICM Research revelou que 27% dos jovens franceses, não apenas muçulmanos, entre os 18 e os 24 anos tinham uma atitude favorável ao Estado Islâmico. A jihad é apenas a ideologia cultural sistémica que é eficiente, em crescimento, é atraente e gloriosa, que basicamente diz aos jovens “vocês são postos de lado, ninguém se preocupa convosco mas olhem para o que podemos fazer, podemos mudar o mundo”.

E são mesmo. Estes três imprestáveis conseguiram capturar a atenção do mundo inteiro durante uma semana. Mobilizaram toda a sociedade francesa, o que é bastante bom em termos de relação custo - benefício para os maus da fita.

Então esta é uma população pré-preparada para ser recrutada por grupos como o Estado Islâmico ou a Al Qaeda?

Não se trata de recrutamento, é auto-procura. O Estado Islâmico e a Al Qaeda não encomendam directamente operações de comandos. Basicamente eles dizem “Hey rapazes, estão aqui ideias, agora façam vocês mesmos. Está aqui uma maneira de fazer uma bomba com uma panela de pressão, estão aqui alvos possíveis que aterrorizarão as pessoas, estão aqui as coisas que odiamos. Agora vão e façam-no.”

Os atiradores de Paris parecem encaixar nesse padrão?

Falei com pessoas dos bairros de onde os atiradores eram e com as suas famílias. Eles não sabiam o que raio eles andavam a fazer. Eram homens que trabalhavam na universidade técnica, juntaram-se, iam à mesquita juntos, arranjaram um apartamento juntos e resolveram fazer alguma coisa juntos. Arrastaram uns colchões, começaram a ver alguns vídeos, os vizinhos disseram-me que o apartamento cheirava mal porque eles nunca de lá saíam.

Nada disto foi planeado cuidadosamente mas os ataques de que nos recordamos, os que funcionam, escolheram alvos cuidadosamente planeados. Os ataques ao World Trade Centre e ao Pentágono abanaram a América até ao coração. Em Madrid, quando várias bombas explodiram num comboio em 2004 mataram 191 pessoas, mudaram o governo. Mas estes eram criminosos de meia-tigela com um pouco de treino

É a anarquia organizada que tem maior impacto a aterrorizar do que as operações de comandos cuidadosamente planeadas. Claro que muitos destes tipos são agora heróis, vão ser modelos para outros tipos.

Pode-se fazer alguma coisa para prever ataques extremistas?

Acho que as pessoas querem ser capazes de prever, de ter segurança mas não ajudaria se soubéssemos de todos os ataques prevenidos em termos de sermos capazes de os prever. O facto é que qualquer um pode começar a qualquer momento a criar a sua própria rede com os amigos. É como quando se ferve água, não sabemos qual vai ferver primeiro e entornar. A teoria da complexidade não é boa a modelar estas coisas, nunca seremos capazes de o prever com certeza.

Depende da sondagem que leias mas entre 7 e 14% dos muçulmanos de todo o mundo apoiaram o ataque da Al Qaeda aos Estados Unidos. Se algo como isso apoiarem o Estado Islâmico estamos a falar de muita gente (mais de 100 milhões). Mas quem está verdadeiramente disposto a lutar e morrer? Há a questão da especificidade, mesmo pessoas que embarquem na ideologia e nos valores estão longe de chegar lá.

Os melhores factores de previsão acabam por ser quem são os vossos amigos ou se pertences a um grupo de acção. No caso dos irmãos Kouachi, tivemos a melhor experiência de aproximação, que é a prisão. Mas também pode ser o futebol ou canoagem.

Se queres descobrir quem vai lutar e morrer, se queres destruir uma célula terrorista em particular, descobre o que comem e o que vestem. As conspirações nunca ocorrem nas mesquitas, lá tens que estar em silêncio. Ocorrem nos restaurantes de comida rápida, nos campos de futebol, nos pic-nic e nas churrascadas.

Por que razão não há mais pessoas a fazer trabalho antropológico de campo, como entrevistar jihadistas e as suas famílias?

O problema é que não consegues amostras grandes. A perspectiva que obténs não pode ser obtida a partir de censos, tem que vir de entrevistas aprofundadas no campo e de experiências controladas de forma muito rigorosa.

Se realmente queres fazer um estudo científico com jihadistas, eu faço-o, tens que os convencer a baixar as armas, a não falarem uns com os outros e a responder às tuas questões. Se perguntares a algumas pessoas se abandonariam a sua crença em Deus se lhes oferecessem dinheiro, elas matam-te logo ali, logo não podes fazer essa pergunta.

A questão não é apenas o perigo, é porque as análises a sujeitos humanos não são permitidas em universidades e especialmente pelo Departamento de Defesa americano. Não porque coloque o investigador em perigo mas porque a ética da investigação em sujeitos humanos foram definidos para defender os estudantes universitários da classe média. O que vais fazer com este tipo de protocolo quando se fala com jihadistas? Pedes-lhe para assinarem “agradeço ao Departamento de Defesa ter financiado este trabalho” e, já agora, se tiver alguma queixa telefone o secretário para os sujeitos humanos? Tudo isto soa ridículo e, literalmente, acaba por não se fazer nada.

Encontra essas dificuldades no seu trabalho de campo?

Por exemplo, obtive autorização para entrevistar os três bombistas de Bali, que levaram a cabo um conjunto de ataques simultâneos em 2002, antes de serem executados. Iam ser fuzilados por terem morto 200 pessoas. Mas acabei por não ter aprovação para os considerar objectos de estudo pois "tinha que trazer um advogado porque nunca havia a certeza de não estar a violar o seu direito a falar".

Há exigências doidas por parte das entidades financiadoras americanas, como a autorização do país de origem. Supõe que queres trabalhar em Israel e na Palestina. Vais aos israelitas e dizes “quero fazer estudos como fazemos nas universidades americanas e precisamos da autorização do governo" e eles respondem-te “estás maluco?” Para já não falar do caos que há em tantos países, a quem é que vais pedir a autorização?

 

 

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