2015-01-05

Subject: Novas pistas para o início do actual surto de ébola

Novas pistas para o início do actual surto de ébola

Dificuldades em visualizar este e-mail? Consulte-o online!

Newsletter não segue Acordo Ortográfico

@ Nature/A árvore da borracha oca que cresce numa zona remota do sudeste da Guiné foi em tempos lar de milhares de morcegos, rotineiramente caçados e mortos pelas crianças da vizinhança, que adoravam lá brincar.

Há um ano, uma dessas crianças vivia a 50 metros da árvore, um rapazinho de 2 anos de idade que morreu em Dezembro de 2013 e foi posteriormente identificado como o paciente zero na África ocidental a apanhar ébola no actual surto.

A árvore era uma das poucas que restavam na zona da sua aldeia natal de Meliandou, um agregado de apenas 31 casas, e a questão que agora assombra os investigadores é: foram os ocupantes da árvore os responsáveis por o rapazinho ter contraído o vírus?

Essa é uma pergunta, no entanto, para a qual nunca teremos resposta. Em Março, os oficiais de saúde souberam que tinham um surto de ébola em mãos e alertaram o público para não consumir qualquer tipo de carne selvagem. 

Por coincidência ou devido a esse alerta, a árvore foi queimada e milhares de morcegos mortos choveram sobre a comunidade mas tudo o que os investigadores apenas ficaram com fragmentos de DNA dos animais. Quando um grupo de investigadores alemães chegou para realizar testes em Abril de 2014, a árvore já tinha desaparecido, juntamente com os morcegos e as possíveis respostas.

O seu esboço científico da aldeia é agora conhecido através do artigo publicado na revista EMBO Molecular Medicine. O fogo pode ter ajudado a evitar a propagação o vírus mas também foi um golpe na sua investigação, que esperava testar os morcegos para marcadores de ébola. 

Se tivessem encontrado sinais do vírus isso indicaria que os morcegos tinham adquirido ébola, mesmo que não fossem necessariamente responsáveis pela sua transferência para o Homem. Mas o fogo frustou-lhes os planos e, para tornar as coisas piores, não havia outros representantes da mesma espécie d morcegos na zona, diz Fabian Leendertz, autor principal da pesquisa da equipa do Instituto Robert Koch em Berlim.

O fogo foi uma infelicidade pois assim nunca saberemos se aquela espécie de morcego era realmente o reservatório do vírus, diz Leendertz. A sua equipa conseguiu identificar a espécie de morcego fazendo análises genéticas de fragmentos de DNA, na maior parte a partir de fezes, localizados no solo em volta da árvore mas não obtiveram nenhuma informação sobre o vírus. Os outros tipos de morcego na zona não apresentavam sinais de ébola.

Leendertz ficou apenas com provas circunstanciais de que a espécie de morcegos insectívoros Mops condylurus pode ser candidata a explicar de que forma os humanos contraíram o ébola da primeira vez. “Foi o melhor que conseguimos obter mas estamos muito desapontados com os dados. Assim, a busca para identificar os vectores do ébola continua."

Exactamente que animal consegue transferir o vírus para os humanos tem perseguido os cientistas desde que este foi identificado em 1976 pela primeira vez. Montes de obstáculos, geralmente relacionados com a resposta lenta e falta de notificação, impediram os cientistas de encontrar a resposta. Os morcegos têm permanecido no topo dos suspeitos de vectores de ébola pois outros dados experimentais mostraram que espécies de morcegos, incluindo esta, conseguem sobreviver à infecção com ébola em laboratório.

Mas isso não basta pois um animal pode sobreviver a uma tal infecção sem se tornar o vector. Para provar melhor que o morcego reservatório tinha sido correctamente identificado seria necessário isolar o vírus de um morcego e cultivado em laboratório. Ainda assim, há pistas que sugerem que o M. condylurus é um forte candidato: a espécie já foi considerada suspeita num surto anterior e a maioria dos cientistas acredita que um parente do ébola, o vírus de Marburg, se transmite via morcego.

Mas mesmo que os morcegos sejam os culpados, os investigadores ainda não sabem como como se dá a transmissão para os humanos: será através de salpicos de sangue para os olhos ou ferimentos durante o corte do animal? Ou talvez comendo alimentos que o morcego contaminou com a sua própria urina, saliva ou fezes? 

Revelar estes mistérios pode salvar vidas, “acho que será possível evitar casos de ébola com essa informação", diz Gary Kobinger, chefe do programa de patogénios especiais da Agência de Saúde Pública do Canadá. “Mas isto é muito complicado, estamos a olhar para este evento raro e a tentar compreender as circunstâncias que levaram a ele."

Além das dificuldades logísticas de organizar um grupo para fazer recolha de amostras, os investigadores têm que garantir a segurança de todos, bem como lidar com questões éticas e a utilização de recursos limitados ara proteger a vida humana. 

Outros aspectos menos tangíveis têm que ser acautelados quando se faz investigação numa atmosfera tão emocionalmente carregada durante um surto. Por exemplo, a investigação pode levar a más interpretações e a colocar em risco a vida dos investigadores. “Não queremos que surjam mais rumores", diz Leendertz. “Normalmente apenas recolhemos amostras de sangue e libertamos os morcegos mas neste caso temos de os matar porque as pessoas podem dizer ‘olha os brancos a libertar morcegos maus'. Não podemos dar nenhuma razão para especulações."

O trabalho de Leendertz não identifica a espécie de morcego por trás do ébola mas lança luz sobre outras circunstâncias deste surto. A sua equipa também descobriu que os primatas, outros candidatos de topo para o título de reservatórios, estejam por detrás do surto. A carne selvagem consumida na pequena aldeia da Guiné era enviada de outras localizações em redor e a sua equipa verificou que não houve variações no efectivo dos grandes símios da zona.

Essas observações sugerem que não houve nenhum surto entre os primatas locais de qualquer doença letal como o ébola, diz Leendertz. Para além dos primatas e dos morcegos, no entanto, pode haver outro animal a alimentar o surto que ainda ninguém pensou, diz ele. Por agora o mistério continua.

 

 

Saber mais:

Teste americano de vacina para o ébola mostra resultados positivos

Testes de medicamentos contra ébola começam em Dezembro

Modelos sobrestimam casos de ébola

Surto de ébola bloqueia esforços para controlar malária

Transfusões de sangue consideradas tratamento prioritário para o ébola

Ébola sofre mutações com a mesma rapidez com que se propaga

 

 

Facebook simbiotica.orgTwitter simbiotica.orgGoogle + simbiotica.orgFlikr simbiotica.orgYouTube simbiotica.org Pinterest simbiotica.org

 

Arquivo  |  Partilhar Comentar |   Busca Contacte-nos  |  Imprimir  |  Subscrever | @ simbiotica.org, 2014


Return to Archives

Newsletter service by YourWebApps.com