2014-08-01

Subject: O maior surto de ébola de que há registo não é uma ameaça global

 

O maior surto de ébola de que há registo não é uma ameaça global

 

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O mortífero vírus ébola provavelmente aterrou em Lagos, Nigéria, a maior cidade africana a 20 de Julho. Pensa-se que um homem infectado com o vírus terá aí chegado num voo vindo da Libéria, onde, tal como na Guiné e na Serra Leoa, o maior surto de ébola está em pleno. O caso de Lagos é o primeiro a ser exportado internacionalmente por via aérea, causando alarme a nível mundial. Enquanto o vírus continuar a infectar pessoas na Libéria, Guiné e Serra Leoa há um pequeno risco de mais exportações a longa distância da doença mas o ébola continua a não ser uma ameaça global.

É preocupante que o vírus tenha atingido a maior cidade do país mais populoso de África?

A Organização Mundial de Saúde (OMS) ainda considera o caso de Lagos uma infecção "provável" pois ainda não foi confirmado que o homem liberiano de 40 anos tinha ébola. Ele foi colocado em quarentena ao chegar ao aeroporto e conduzido ao hospital, onde morreu a 25 de Julho. Assumindo que tivesse ébola, se as medidas adequadas de controlo foram tomadas no hospital e no aeroporto, o risco de pessoal médico ou outros serem infectados em resultado desse contacto é baixo. 

O Centro Europeu para a Prevenção e Controlo de Doenças (CEPCD) classifica as pessoas que partilham um transporte público com alguém infectado como tendo um "risco muito baixo" de contrair o vírus. O pessoal de saúde, vários dos quais foram infectados e morreram em resultado de tratar doentes durante o actual surto, têm um risco muito maior e a OMS aconselha que se apliquem precauções rigorosas, que o reduzem grandemente.

Qual é o risco das viagens aéreas exportarem o vírus para outras cidades?

O CEPCD também considera a probabilidade de um indivíduo infectado entrar num voo baixa, dado o reduzido número total de casos de ébola. Mais, sistemas de saúde funcionais devem ser capazes de impedir a propagação a partir de qualquer caso exportado. A OMS estima que haja um risco elevado de propagação para países que fazem fronteira com aqueles onde o surto já existe, um risco moderado para países da mesma sub-região mas muito poucas hipóteses de propagação além-mar. 

Não há qualquer razão para assumir que um caso exportado, seja para Lagos, uma cidade com 17 milhões de habitantes, ou para qualquer outro local, desencadeie novos surtos pois o ébola não é altamente contagioso.

O ébola é difícil de apanhar?

Apesar de a estirpe de ébola do actual surto ter uma taxa de  mortalidade de 56% dos infectados, para se ser infectado as mucosas ou uma zona de pele danificada têm que ficar em contacto com os fluidos corporais (sangue, urina, saliva, sémen ou fezes) de um indivíduo infectado ou com objectos contaminados com esses fluidos (como roupas pessoais ou de cama sujas). 

Ao contrário, agentes patogénicos respiratórios como os da constipação ou da gripe são lançados ao ar pela tosse e pelos espirros e podem ser transmitidos pela respiração ou pelo toque em superfícies contaminadas, como maçanetas de porta. Um vírus da gripe pandémico pode propagar-se a todo o mundo em dia sou semanas e pode ser imparável, enquanto o ébola apenas causa surtos esporádicos e localizados que podem ser contidos.

Então porque razão surto continua na Guiné, Serra Leoa e Libéria?

Em princípio, de via ser directo controlar um surto de ébola apenas através de medidas de saúde pública, nomeadamente identificar todas as pessoas infectadas e isolá-las, monitorizar todos os que estiveram em contacto com eles durante 21 dias (o período máximo de incubação) e promover medidas básicas de controlo da infecção. Dado que os infectados com ébola não transmitem a doença a outros até apresentarem sintomas, é mais fácil seguir os seus contactos do que com outras doenças. O ébola está descontrolado nestes países porque a dimensão do surto está a sobrecarregar as equipas de resposta e também devido a factores socioculturais locais.

Que tipo de factores socioculturais?

As autoridades locais de saúde e organizações internacionais como a OMS ou os Médicos sem Fronteiras estão a ter grandes dificuldades para controlar a doença nessas zonas devido à falta de cooperação e confiança das populações afectadas. O pessoal de saúde já foi impedido de aceder aos locais afectados por oposição dos aldeões que temem que eles estejam a trazer a doença. 

Segundo a OMS, nem todos os infectados estão a procurar ajuda logo continuam a transmitir o vírus à família e aos contactos próximos. Outra fonte de novas infecções é a continuação de funerais tradicionais, que envolvem contacto directo com o corpo dos mortos e, frequentemente, com o ébola.

A dimensão deste surto é invulgar?

Este surto é maior do que qualquer outro na história registada: a OMS relata que a 23 de Julho existiam 814 infecções confirmadas laboratorialmente, incluindo 456 mortes. Se casos ‘prováveis' e 'suspeitos' forem incluídos, estes números sobem para 1201 infecções e 672 mortes mas alguns destes podem ter sido causados por outras doenças. Apenas 7 outros das poucas dúzias de surtos passados envolveram mais de 100 casos e, antes deste, o surto maior foi no Uganda entre 2000 e 2001, em que 425 pessoas foram infectadas e 224 morreram.

Desde que o ébola surgiu pela primeira vez, em 1976, apenas 19 surtos tiveram mais de 10 vítimas e cerca de 2 mil pessoas morreram com a doença no total. Por comparação,  a malária mata cerca de 3200 pessoas por dia e as doenças diarreicas perto de 4 mil. As cobras e outros animais venenosos causam 55 mil mortes por ano, 27 vezes mais do que o número total de mortes devidas ao ébola em 38 anos.

Existem tratamentos ou vacinas contra o ébola?

Não existem medicamentos ou vacinas licenciados para o ébola, apesar de existirem candidatos em desenvolvimento. Os novos tratamentos ajudariam a reduzir a elevada mortalidade da doença, que em surtos passados tem variado entre 25% e 89%, com uma média de 62%. Jeremy Farrar, do Wellcome Trust de Londres tem defendido o uso de medicamentos experimentais não aprovados no surto actual mas outros cientistas consideram que com a falta de confiança no pessoal de saúde já a dificultar o controlo do surto, esse tipo de medida pode ser contraproducente ao criar suspeição e minando ainda mais a confiança.

O que é preciso fazer para controlar o surto?

O envolvimento dos líderes das comunidades locais será vital para persuadir as pessoas a confiar no pessoal de saúde e a seguir os conselhos de saúde pública. As autoridades precisam de ganhar a confiança do público, persuadir as pessoas a enterrar os seus mortos de forma segura e continuar a aumentar os esforços locais e regionais para localizar e isolar os infectados e os seus contactos.

 

 

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