2014-06-28

Subject: Ciclos de explosão e declínio condenaram pombo-passageiro

 

Ciclos de explosão e declínio condenaram pombo-passageiro

 

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@ Nature/Photo Researchers/Mary Evans Picture Library

John James Audubon sabia de aves e como parte do que apelidava o seu 'frenesim' por elas, o naturalista franco-americano tentou identificar e documentar em desenhos todas as espécies de aves nativas da América do Norte. Foi Audubon quem, em 1833 identificou o pombo-passageiro Ectopistes migratorius como a ave mais numerosa do continente, ilustrando a sua alegação com a descrição de um bando destes pombos migratórios com mais de um quilómetro de largura que passou sobre a sua cabeça e bloqueou o sol durante três dias seguidos.

Na realidade, o pombo-passageiro pode ter sido a ave mais abundante do mundo no início do século XIX, com uma população estimada em pelo menos três mil milhões, ou seja, pelo menos um terço da totalidade de aves actualmente existentes na América do Norte. No entanto, em 1900 não restava nenhum na natureza e a 1 de Setembro de 1914 o derradeiro sobrevivente, uma fêmea chamada Martha, foi encontrada morta no chão da sua gaiola no zoo de Cincinnati no Ohio. A espécie passou de extraordinariamente populosa a extinta no espaço de uma vida humana.

Agora, uma análise genética obtida a partir de amostras das almofadas dos dedos de espécimes empalhados em museus sugere que a tendência para ciclos de explosão e desaparecimento pode ter estado escrita no DNA do pombo-passageiro e ter assim contribuído para a sua perda. 

"O pombo-passageiro deve ter sofrido flutuações dramáticas no seu efectivo populacional", explica o ecologista molecular Hung Chih-Ming, associado de pós-doctoramento na Universidade Normal de Taiwan e principal autor da análise agora publicada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. E “nem sempre foi superabundante", diz Hung, que começou a estudar as aves na Universidade do Minnesota no laboratório do biólogo evolutivo de aves Robert Zink.

Em 2011 Hung estava a conversar com o seus colegas sobre "a forma como o Homem é mau para a vida selvagem", recorda ele. "O pombo-passageiro foi em tempo a ave mais abundante do mundo e de repente desaparece da face da Terra." Seria possível que só a caça fosse capaz de o destruir? E o que revelaria a genética sobre o efectivo populacional da ave que parecia incontável para os primeiros colonos europeus?

Por isso, Hung e os seus colegas reuniram quatro espécimes de museu de E. migratorius recolhidos no Indiana, Minnesota e na Pennsylvania, três machos brilhantemente coloridos e uma fêmea pálida. As almofadas dos dedos das patas dos machos forneceram longos segmentos do genoma do pombo-passageiro, que foram depois comparados com a sequência genética do ainda abundante pombo doméstico Columba livia e, com base nestas comparações, estimaram que teriam obtido entre 57% e 75% da genética do pombo-passageiro. "Tanto quanto sabemos, esta é a sequência de genoma mais longa e com a maior qualidade alguma vez obtida de uma espécie de ave extinta", escreve a equipa no seu artigo.

Com esses longos segmentos de DNA, Hung pode avaliar até que ponto as sequências de DNA nos genes dos três espécimes variavam de ave para ave. Com este mapa de variação genética, os cientistas puderam então estimar a dimensão da população do pombo-passageiro pois, tipicamente, uma população pequena tem menor variabilidade genética pois deriva de um menor fundo de ancestrais que se reproduziram com sucesso. 

No caso do pombo-passageiro, Hung concluiu que a população de aves reprodutoras rondaria os 330 mil animais em média, caindo para tão poucos como 50 mil em alguns momentos dos últimos milhões de anos. Este desencontro entre estes números e as estimativas de 1880 de pelo menos três mil milhões sugere que o pombo-passageiro pode ter sido o que os ecologistas apelidam de um espécie de surtos, como os gafanhotos, que têm explosões e declínios drásticos no seu efectivo populacional com alterações das condições, e não uma espécie que sofre uma única explosão populacional, como o Homem nos últimos 200 anos.

Esta resposta da genética encaixa bem nos modelos de abundância do alimento do pombo-passageiro (bolotas e outros frutos do bosque) na América do Norte ao longo dos últimos milhares de anos. Essas simulações de computador sugerem um crash populacional do pombo-passageiro há cerca de 21 mil anos, à medida que os glaciares enterravam as árvores que lhes forneciam alimento, seguido de uma recuperação há cerca de 6 mil anos,  para cerca de 1,6 mil milhões de aves.

Este cenário de explosão e crash também encaixa bem com ideias de alguns de que a migração humana europeia pode ter artificialmente aumentado o efectivo de pombos-passageiros ao eliminar os seus caçadores-recolectores nativos, que competiam com as aves pelo alimento na floresta. Este crescimento populacional, conta a história, teria sido temporário pois os enormes bandos danificariam a floresta que os sustentava. "Suspeito que os enormes bandos que foram primeiro observados pelos europeus eram efémeros", diz a paleogeneticista Beth Shapiro, da Universidade da Califórnia, Santa Cruz, que não esteve envolvida neste estudo. "É difícil imaginar como estas aves poderiam manter este enorme efectivo populacional a longo prazo pois seriam incrivelmente destrutivos para a floresta!"

Afinal, os enormes bandos seriam como uma tempestade biológica, partindo árvores com o seu peso e cobrindo o chão de excrementos, entre outros impactos. Os colonos europeus exacerbaram esta destruição da floresta, abatendo a grande floresta do leste americano ao longo do século XIX. Esta tendência de diminuição dos produtos da floresta a par com o aumento da caça pelos mesmos humanos pode ter-se combinado para desencadear a rápida extinção do pombo-passageiro. "Acho que a redução de habitat decididamente reduziu o efectivo populacional", diz Hung, salientando que algo semelhante pode explicar a extinção de outra espécie de surtos na América do Norte, o gafanhoto das Montanhas Rochosas. "O nosso estudo sugere que a combinação de alterações naturais na dimensão da população e perturbações humanas conduziram a rápida extinção desta ave."

Mas o facto de o pombo-passageiro ter persistido com efectivos populacionais relativamente baixos dá nova esperança aos esforços para o fazer regressar. "Talvez não seja preciso criar biliões deles para a população ser sustentável", diz Shapiro.

Ben Novak está a liderar esse esforço através do Projecto Reviver & Restaurar da Fundação Long Now em conjunto com o laboratório de Shapiro. Novak, que não está convencido que qualquer tipo de processo natural tenha contribuído para a perda da ave, prevê, se a recuperação for possível, "que o pombo-passageiro do futuro se adapte às nossas florestas como se adaptou às florestas em mudança no passado." Por outras palavras, o pombo não se tornará uma praga como uma espécie de surtos costuma, restringida pela abundância de frutos do bosque como no seu passado evolutivo.

Claro que existem outras fontes de alimento actualmente que não eram tão abundantes no século XIX, incluindo as culturas agrícolas generalizadas no Minnesota, Indiana em todos os outros locais onde a ave em tempos vivia. Haverá algum local nos Estados Unidos, fora de parques nacionais, para enormes bandos desta ave voarem livremente? O que impediria os agricultores de os envenenar ou caçar novamente até à extinção se destruíssem as culturas? Trazer o pombo-passageiro de volta da extinção não será fácil, seja do ponto de vista social ou genético, salienta Hung. "É interessante mas pessoalmente não acho que valha a pena para a conservação."

Independentemente disto, estas investigações genéticas no cso do pombo desaparecido dão-nos a esperança de que à espera em gavetas de museu esteja um repositório de informação genética sobre espécies vivas e extintas. 

Ao mesmo tempo, para que a ressurreição genética do pombo-passageiro funcione, as grandes florestas do leste americano teria de regressar igualmente. Audubon pensava que a única coisa que podia ameaçar o pombo-passageiro era o desaparecimento da floresta que era o seu lar, o que aconteceu ainda mais depressa do que ele poderia prever. A par com a caça que Audubon praticava ele próprio, mas sob a forma de caçadores pagos pela chegada do telégrafo e do comboio, as duas forças conspiraram para o golpe fatal.

 

 

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