2014-06-21

Subject: Dois corvídeos separados apenas pela aparência

 

Dois corvídeos separados apenas pela aparência

 

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@ Nature/Markus Varesvuo/naturepl.com

Para ocidente os céus pertencem ao corvo comum e para leste à gralha-cinzenta. Entre os dois, numa estreita faixa norte-sul através da Europa central, as duas aves encontram-se e têm acasalado desde há 10 mil anos. Mas apesar de os dois tipos de corvídeos continuarem com aparências muito diferentes (os corvos comuns são totalmente negros, enquanto as gralhas-cinzentas são, obviamente, cinzentas), os investigadores descobriram que são praticamente idênticos do ponto de vista genético.

O estatuto taxonómico do corvo comum Corvus corone e da gralha-cinzenta Corvus cornix tem sido debatido desde que Carl Linnaeus, o fundador da taxonomia, os declarou espécies distintas em 1758. Um século depois, Darwin considerou esse tipo de classificação impossível até que o termo 'espécie' tivesse sido definido de forma genericamente aceite mas a definição permanece sujeita a contencioso e muitos pensam que o será sempre.

Sabe-se que os dois tipos de corvídeos se reproduzem e originam descendência viável, pelo que a falta de barreiras reprodutivas, que alguns biólogos consideram essenciais à separação de espécies, levou a propostas para que fossem consideradas subespécies do corvo comum. 

De facto, o biólogo evolutivo Jochen Wolf, da Universidade de Uppsala, Suécia, descobriram agora que as populações que vivem na zona de reprodução cruzada são tão semelhantes geneticamente que os corvos são mais aparentados com as gralhas-cinzentas do que com os corvos de zonas mais a ocidente.

Apenas uma pequena parte do genoma, menos de 0,28%, difere entre as duas populações, relata a equipa de investigadores na edição desta semana da revista Science. Esta secção do genoma está no cromossoma 18, numa área associada à pigmentação, percepção visual e regulação hormonal. 

Não será coincidência, sugerem os investigadores, que as principais diferenças entre os corvos e as gralhas-cinzentas estejam na cor da plumagem, preferências de acasalamento (ambas as espécies preferem plumagens que sejam iguais à sua) e nos comportamentos sociais influenciados por hormonas (os corvos são dominantes em relação às gralhas-cinzentas).

Os dois corvídeos podem ter divergido a partir de um ancestral comum depois de os períodos glaciares os terem isolado em enclaves mais a sul, como em Itália e na Península Ibérica, diz Wolf. Quando o gelo recuou, espalharam-se por toda a Europa e recomeçaram a reproduzir-se. Assim, a tendência para a divergência foi interrompida e as populações tiveram nova oportunidade de se fundir.

Ainda assim, pelo menos nos últimos 10 mil anos, a preferência pelo acasalamento no interior de cada um dos grupos foi forte o suficiente para manter as duas populações distintas, explica Wolf. O nível de miscigenação pode ser actualmente relativamente estável, diz ele, e é “possível que as partes do genoma relevantes para a escolha do parceiro aguentem o fluxo génico muito tempo”. Se estas regiões forem ultrapassadas, ele prevê que as gralhas-cinzentas se tornem mais parecidas com os corvos, pois estas aves são socialmente dominantes.

Peter de Knijff, geneticista na Universidade de Leiden, Holanda, tem a visão oposta. Segundo ele, os dados mostram que o fluxo genético é essencialmente das gralhas-cinzentas para os corvos, tornando a adopção de características de gralha pelos corvos alemães “um destino que parece inevitável”.

Quanto à questão de serem, ou não, espécies diferentes, de Knijff fundamentalmente não se importa. “Para mim qualquer discussão sobre o conceito de espécie é irrelevante pois esse conceito é uma invenção humana, devido apenas ao nosso desejo antropogénico de colocar tudo num sistema cuidadosamente organizado. Para as aves, ou para qualquer outro organismo, não interessa nada.”

Mesmo Wolf, sobre a questão da espécie, diz “prefiro deixar isso para os taxonomistas”.

 

 

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