2014-06-19

Subject: Árvore vai à boleia até ilha

 

Árvore vai à boleia até ilha

 

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@ Nature/Dave Richardson

No que é provavelmente o evento singular de dispersão mais longo algumas vez registado, investigadores mostraram através de análise genética que uma acácia endémica da Ilha da Reunião no oceano Índico descende directamente de uma árvore havaiana vulgar conhecida por koa. De facto, estas duas árvores presentes minúsculas ilhas em lados opostos do globo são da mesma espécie.

O evento é espantoso não apenas pela distância percorrida (perto de 18 mil quilómetros, ou seja, quase o máximo de distância possível entre dois pontos em terra) mas por ter ocorrido entre duas pequenas ilhas. As sementes de koa não devem ter flutuado até Reunião pois não germinariam depois de estarem tanto tempo mergulhadas em água salgada e as árvores crescem nas montanhas e não perto da costa.

Os investigadores, liderados por Johannes Le Roux, ecologista molecular na Universidade Stellenbosch em Matieland, África do Sul, propôs num estudo publicado esta semana que uma ave marinha terá trazido a semente do Havai para Reunião no estômago ou presa nas patas num evento único que terá ocorrido há cerca de 1,4 milhões de anos.

Le Roux salienta que as semelhanças físicas entre as duas árvores, Acacia heterophylla da Reunião e Acacia koa do Havai, eram reconhecidas há décadas: “Para mim o mais entusiasmante é termos resolvido este enigma", diz ele, “e como é improvável?”

Le Roux sequenciou o DNA de 88 árvores, incluindo A. heterophylla, A. koa e uma espécie de acácia aparentada que vive na Austrália, de onde a família é originária. Descobriu que todas as acácias de Reunião partilham uma assinatura genética apenas um passo mutacional distante de algumas das koas australianas. Usando as ligeiras diferenças entre as sequências das árvores, desenvolveram uma árvore filogenética que mostra claramente que todas as A. heterophylla são mais proximamente aparentadas com um tipo de koa havaiana do que outros tipos de koa entre si.

Para perceber quando o evento de dispersão ocorreu, a equipa usou um relógio molecular para contar as alterações genéticas entre populações que usa uma taxa de mutação estimada para derivar a data de divergência inicial das populações. A equipa sabia que a koa tinha originalmente vindo da Austrália e que se teria no Havai pela primeira vez quando Kauai, uma das ilhas havaianas mais antigas com as altas elevações favorecidas pela espécie, se formou, há 5,1 milhões de anos.

Comparações entre as koas havaianas e as árvores de Reunião mostraram que mutações que ocorreram nos subsequentes 3,7 milhões de anos estão presentes em ambas as linhagens mas mutações que ocorreram depois apenas surgem num ou noutro tipo de árvore, nunca nos dois. Esta divergência genética sugere que o evento terá ocorrido há 1,4 milhões de anos.

Le Roux eliminou a possibilidade de ter sido o Homem a transferir a semente pois o relógio molecular sugere que as alterações genéticas começaram antes da chegada do Homem a Reunião. “Apesar do seu parentesco genético próximo com as koas havaianas, já existe diversificação única de Reunião", diz ele.

A espantosa descoberta é a última numa série de improváveis eventos de dispersão a longa distância que foram descobertos nos últimos 15 anos. Neles se incluem o proposto movimento dos macacos do Novo Mundo numa jangada de África para a América do Sul há menos de 50 milhões de anos, muito depois de os dois continentes se terem separado ou a transferência das plantas carnívoras Drosera da Austrália ocidental para a Venezuela provavelmente através de aves. Estas descobertas abalaram o campo da biogeografia, que se ocupa a perceber porque razão as espécies estão onde estão.

No passado, espécies semelhantes encontradas em diferentes massas terrestres presumia-se serem o resultado da deriva continental, diz Alan de Queiroz, biólogo evolutivo na Universidade do Nevada, Reno, e autor do livro The Monkey’s Voyage (Basic, 2014) sobre dispersão de longa distância. Pensava-se igualmente que as ilhas eram essencialmente becos sem saída relativamente à dispersão de espécies.

Mas os recém-descobertos eventos de longa distância estão a mudar essa opinião e  os biogeógrafos cada vez mais salientam o papel dos eventos improváveis e do acaso na forma como as espécies surgem e onde. “O evento da dispersão da koa é um acaso monumental e essa é parte importante da mensagem dos recentes estudos biogeográficos”, diz Queiroz.

À medida que estes relatos de dispersão a longa distância se acumulam, alguns ecologistas dizem que o próximo desafio é fazer generalizações preditivas sobre a frequência com que esses eventos ocorrem e quais os mecanismos (como dispersão por aves ou jangadas vegetais) são mais importantes. “O que precisamos de fazer é ir além deste acumular de evidências anedóticas”, diz Ran Nathan, ecologista do movimento na Universidade Hebraica de Jerusalém.

Mas o problema é que a raridade e natureza acidental destes eventos pode desafiar a categorização. “Pode haver um argumento de que iremos obter uma longa lista de mecanismos peculiares”, diz Nathan. “Haverá uma longa lista mas haverá alguns mecanismos mais frequentes.”

O ecologista Jon Waters, da Universidade de Otago em Dunedin, Nova Zelândia, diz que apesar do potencial papel importante das dispersões a longa distância na organização global da fauna e flora, essas dispersões não são completamente ao acaso ou imprevisíveis. “Para além de pensar sobre a proximidade geográfica ao fazer previsões sobre a dispersão, há numerosos outros factores a considerar, como os padrões de conectividade oceanográfica, ventos predominantes, percurso de tempestades e mesmo migrações de aves", diz ele.

Noutras palavras, a distribuição de algumas espécies pode ser o resultado do acaso, tempo e sorte mas continuam a existir padrões e a ciência ainda tem um papel a elucidá-los.

 

 

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