2014-03-06

Subject: Como as videiras apanharam acne

 

Como as videiras apanharam acne

 

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@ Nature/imagebroker/Alamy

O flagelo dos adolescentes, uma bactéria vulgar na pele humana e que é em parte responsável pelo acne, instalou-se nas videiras. É a primeira situação que se conhece de um agente patogénico bacteriano humano que se tornou dependente de um hospedeiro de um reino diferente da vida. 

Os investigadores italianos relatam que uma recém-descoberta estirpe de Propionibacterium acnes parece ser incapaz de sobreviver noutro lugar que não seja o interior de células de videira e especulam que esta adaptação pode ter ajudado os humanos a domesticar esta planta.

A equipa baptizou a nova espécie de bactéria Propionibacterium acnes tipo Zappae ou P. Zappae, em homenagem ao falecido Frank Zappa, o músico favorito de um dos autores. Eles descrevem as suas descobertas num artigo publicado no mês passado na revista Molecular Biology and Evolution.

As bactérias, vírus e outros microrganismos saltitam frequentemente de espécie para espécie em busca de novos lares mas, até agora, situações em que o novo hóspede se torna simbiótico têm estado limitados a saltos entre espécies fortemente aparentadas, havendo apenas um punhado de exemplos entre linhagens distantes. Mesmo assim, nesses exemplos, os microrganismos não ficaram tão sintonizados com o seu novo hospedeiro que já não conseguissem sobreviver noutros locais.

A equipa de investigadores estava a estudar o DNA da videira Vitis vinifera quando descobriram sequências genéticas bacterianas que não pareciam pertencer ali. “Nesse momento não sabíamos que a P. Zappae era uma nova estirpe. Pensámos que se tratava de uma P. acnes normal que tinha penetrado na videira acidentalmente", talvez por contaminação das amostras no laboratório, diz Omar Rota-Stabelli, um dos autores principais do estudo e biólogo evolutivo na Fundação Edmund Mach em S. Michele all'Adige, Itália. 

Mas uma análise mais detalhada revelou que as sequências bacterianas não só pertenciam aos habitantes microbianos normais da videira, como indiciavam uma nova linhagem de bactérias, um parente próximo mas, ainda assim, geneticamente diferente do tipo que habita a pele humana.

Com base no DNA bacteriano obtido de várias videiras diferentes, os autores estimam que a P. Zappae tenha invadido as plantas há cerca de 7 mil anos, o que seria consistente com o momento em que o Homem começou a domesticar esta cultura, dizem eles. O salto pode ter ocorrido graças à intensa poda associada ao cultivo das videiras, que pode ter permitido que as bactérias passassem das mãos dos antigos agricultores para as vinhas. “Não é surpreendente que esta bactéria se tenha espalhado pelo mundo juntamente com o seu hospedeiro", diz Andrea Campisano, outra das autoras principais do artigo e microbióloga na Fundação Mach.

 

Para além de serem geneticamente distintas, a nova bactéria também tem um sistema de reparação do DNA parcialmente desactivado, descobriram os investigadores. Esta situação acontece frequentemente em bactérias que adoptam um estilo de vida simbiótico, pois podem tirar partido dos sistemas de reparação celular do hospedeiro.

A prima humana da P. Zappae alimenta-se de triglicéridos da pele, o que pode explicar porque se sentiu tão à vontade na videira: “A uva tem muitos ácidos gordos, o que a torna um hospedeiro perfeito para uma bactéria devoradora de sebo como a P. acnes”, diz Rota-Stabelli.

“O que torna este estudo tão espantoso é a grande distância genética entre os dois hospedeiros", diz Frank Jiggins, biólogo evolutivo da Universidade de Cambridge, Reino Unido, que não esteve envolvido no estudo. “Os agentes patogénicos frequentemente têm uma pletora de diferentes adaptações que lhes permitem viver dentro de outro organismo", acrescenta ele. Mas estas adaptações tendem a correr mal num novo hospedeiro, o que torna a situação de uma bactéria “saltar enormes distâncias na árvore da vida" tão invulgar, diz ele.

Os autores especulam que a P. Zappae pode ter ajudado a domesticação das videiras ao fornecer alguma vantagem ainda desconhecida sobre as plantas selvagens não portadoras do simbionte. “Estamos a investigar se um composto produzido pela propionibactéria, o ácido propiónico de que deriva o seu nome, pode ter algum efeito sobre a planta", diz Campisano. Pode muito bem ser que devamos o nosso vinho, pelo menos em parte, às nossas borbulhas.

 

 

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