2013-06-24

Subject: Genética canina desencadeia controvérsia

 

Genética canina desencadeia controvérsia

 

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@ Nature/Les Hirondelles Photography/Flickr/Getty Images

Os cientistas que investigam a transformação de lobos em cães estão a comportar-se um pouco como os animais que estudam, com as crescentes disputas entre os que usam a genética para compreender a domesticação dos cães.

Nos últimos meses, três equipas internacionais publicaram artigos comparando os genomas de cães e lobos. Em alguns aspectos, como o tipo de alterações genéticas que tornam os dois diferentes, os cientistas estão mais ou menos de acordo mas todos chegaram a conclusões radicalmente diferentes sobre o momento, localização e base para a reinvenção dos ferozes lobos em plácidos cachorros.

“É um campo de estudo sexy", diz Greger Larson, arqueogeneticista na Universidade de Durham, Reino Unido. Ele ganhou um financiamento de £950 mil para estudar a domesticação do cão, estudo que teve início em Outubro passado. “Há muitas personalidades, muito dinheiro e as pessoas querem ver o seu artigo na revista Nature em primeiro lugar."

Em Janeiro, Erik Axelsson e Kerstin Lindblad-Toh, geneticistas na Universidade de Uppsala, Suécia, relataram na revista Nature que genes envolvidos na degradação do amido pareciam ter diferenciado os cães domésticos dos lobos selvagens. No artigo e nas entrevistas aos órgãos de comunicação social, os investigadores defendiam que a domesticação dos cães tinha sido desencadeada pelo surgimento da agricultura há cerca de 10 mil anos no Médio Oriente, com os lobos a rondar os acampamentos humanos e a remexer as pilhas de lixo.

Mas Larson, que já trabalho com Lindblad-Toh noutros projectos, diz que a sua alegação é dúbia. Ele salienta que os ossos que parecem semelhantes aos dos cães domésticos são anteriores à revolução Neolítica em vários milhares de anos, logo a domesticação terá que ter ocorrido antes disso. “Porque gastar espaço num artigo a referir algo que é notoriamente falso?", diz ele.

Axelsson aceita que as alterações na digestão do amido nos cães possam ter ocorrido após a sua domesticação mas contesta que a era Neolítica durou milhares de anos e que os cães podem ter sido domesticados nas primeiras etapas da vida agrária, quando os caçadores-recolectores passaram a sedentários e começaram a comer mais plantas selvagens ricas em amido.

Um segundo estudo, publicado no mês passado na revista 0ature Communications, defende que os cães foram domesticados há 32 mil anos quando começaram a alimentar-se dos cadáveres deixados pelos humanos paleolíticos no sul da China. Uma equipa liderada por Ya-ping Zhang, do Instituto de Zoologia Kunming na China chegou a essa conclusão pelo estudo de genomas inteiros de vários lobos cinzentos, raças europeias modernas de cães e cães chineses indígenas.

Mas Larson não encontra evidências que sugiram que os lobos alguma vez viveram no sul da China, “logo como é que se domestica um lobo se não temos nenhum?" Jean-Denis Vigne, arqueozoólogo no Museu de História Natural de Paris, concorda, salientando que num trabalho anterior a equipa de Zhang “ignorou completamente o que tinha sido publicado, mesmo na área da genética".

 

Peter Savolainen, geneticista no Real Instituto de Tecnologia KTH em Solna, Suécia e co-autor do artigo da Nature Communications, defende que a literatura científica chinesa sugere que lobos terão vivido em tempos no sul da China, junto ao rio Yangtzé, e que entretanto se terão extinguido. Mas reconhece que a data que a sua equipa relata, tal como todos os esforços de datação molecular, depende de várias assunções, como o número de mutações genéticas que se desenvolvem em cada geração.

Um terceiro artigo defende que uma data mais provável para a domesticação terá algures há 11 mil a 16 mil anos. Publicado no servidor arXiv a 31 de Maio, tal como o de Zhang compara genomas inteiros de lobos e cães mas pinta uma imagem ainda mais obscura, sugerindo que os lobos e os ancestrais dos cães modernos continuaram a reproduzir-se muito depois da domesticação e que a população de lobos que originou os cães está extinta.

Os autores, uma equipa de geneticistas co-liderada por John Novembre, da Universidade de Chicago, Illinois, recusou comentar o seu trabalho pois ainda não foi publicado em revistas científicas mas Larson e outros consideram que o artigo marca uma posição forte: estudar o genoma de cães há muito mortos e lobos é a única forma de resolver esta disputa.

Pelo menos três outras equipas americanas e várias outras na Europa estão na corrida para sequenciar genomas de cães e lobos ancestrais mas os investigadores dizem que muitos espécimes serão necessários para se obter uma imagem nítida da domesticação. Ainda assim, “não estamos em posição de ser esquisitos", diz Adam Boyko, geneticista de cães na Universidade de Cornell em Ithaca, Nova Iorque, que esteve envolvido no artigo do arXiv. “Estaremos limitados às amostras donde conseguirmos obter DNA."

A decisão de analisar DNA antigo pode tornar o pequeno campo da genética canina ainda mais espinhoso pois as amostras arqueológicas de ossos são tão preciosas. Novembre considera que o campo está mais fracturado que a genética humana e a sua experiência dá-lhe alguma reserva sobre os futuros trabalhos caninos. Já Boyko, colaborador do grupo chinês, considera que apesar do campo ser competitivo, permanece colegial.

 

 

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