2013-06-01

Subject: Pode realmente uma carcaça de mamute preservar sangue líquido e células vivas?

 

Pode realmente uma carcaça de mamute preservar sangue líquido e células vivas?

 

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@ Nature/LEONELLO CALVETTI/SPLQuinta-feira passada trouxe um chorrilho de notícias apregoando uma espantosa descoberta vinda da idade do gelo: uma carcaça com 10 mil anos de mamute-peludo (ou lanudo) que preservou tecido muscular da mesma cor que carne fresca e sangue na sua forma líquida, apesar dos -10ºC das ilhas Novosibirsk, onde os investigadores russos descobriram o animal.

O jornal Siberian Times obteve fotografias impressionantes do espécime, onde se podem ver tecidos avermelhados e um tubo de ensaio contendo um líquido castanho escuro que se diz ser sangue encontrado em cavidades no gelo debaixo da barriga do animal, bem como outros detalhes da descoberta. A história cita o investigador de mamutes Semyon Grigoriev, da Universidade Federal do Nordeste em Yakutsk, que liderou a recuperação do mamute, especulando que o sangue contém “um tipo de anticongelante natural” e declarando o espécime, uma fêmea com 50 a 60 anos quando morreu, como sendo “o mamute melhor preservado da história da paleontologia".

Um comunicado da AFP, entretanto, refere-se ao animal como a primeira mamute fêmea antiga alguma vez encontrada e cita Grigoriev como tendo dito que “esta descoberta dá-nos uma grande possibilidade de encontrar células vivas”, que seria um grande impulso para o projecto da instituição a que pertence, em conjunto com a Fundação de Biotecnologia Sooam da Universidade da Coreia do Sul, de clonar um mamute.

Têm certamente surgido alguns mamutes espectaculares nesta parte do mundo, o mamute-bebé Lubya, descoberto em 2007, por exemplo, mas tecido muscular que parece carne fresca? Sangue líquido? A possibilidade de células vivas? Parece espantoso!

Ainda apenas com as notícias dos jornais como base, pois a descoberta foi anunciada na impressa popular e não em publicações científicas, as revistas Nature e Scientific American contactaram alguns peritos não envolvidos na descoberta para tentar perceber se tudo não seria demasiado bom para ser verdade. 

Daniel Fisher, da Universidade do Michigan, uma autoridade em mamutes que já trabalhou com Grigoriev, refere que as notícias parecem na sua maioria legítimas mas salienta: 

“…alguns pontos parecem ter-se perdido na história, talvez em resultado de diferentes línguas e do facto de repórteres e cientistas não se entenderem muito bem. Por exemplo, esta não é a primeira fêmea de mamute encontrada, apenas é a primeira vez que resta tanto da carcaça em tecidos moles. Da mesma forma, não encontraram células vivas, quando muito, o que poderiam esperar é o que os entusiastas da clonagem chamam células com DNA viável. De facto, apesar de se falar muito desta viabilidade, acho que permanece por demonstrar que qualquer DNA de mamute atinja este critério. De modo geral, o DNA antigo está muito fragmentado e nada pronto para seguir no próximo embrião de mamute."

“Quanto ao sangue, não tenho nenhuma dúvida que terão algo interessante mas o que é exactamente é difícil dizer. Se é mesmo apenas sangue terá que ser determinado por mais análise, incluindo exame microscópico. Já vi sangue coagulado em vasos sanguíneos de mamute, o que está muito próximo do relatado, logo acho que é razoável. Para já, reservo o meu julgamento sobre a natureza específica da amostra, mas tenho a certeza que será muito interessante."

O fisiólogo Kevin Campbell, da Universidade do Manitoba, que usou DNA antigo para recriar a hemoglobina de um mamute-peludo e para estudar como funcionava. Os seus esforços, descritos num artigo conjunto com o biólogo molecular Michael Hofreiter, da Universidade de York, revelaram que a proteína sensível à temperatura desenvolveu adaptações que lhe permitiam desempenhar a sua função nas condições glaciais que os mamutes enfrentavam.

Campbell comenta que “se a amostra de fluido (sangue) estiver tão bem preservada como o músculo, existe a possibilidade de os glóbulos vermelhos estarem intactos".

“O primeiro passo, do ponto de vista do estudo da capacidade de ligação ao oxigénio, é procurar glóbulos vermelhos e isolar a hemoglobina. Dado que a mostra foi recolhida fora do corpo, é provável que também existam contaminações. Baseando-me apenas na cor, acho de deve haver quantidade razoável de hemoglobina no tubo de ensaio."

Campbell diz que Grigoriev lhe disse por email que o "sangue" não congelou nem quando colocado no congelador do museu a -17ºC. Campbell gostaria de saber a razão, salientando que inicialmente foi muito céptico quanto à possibilidade da presença de crioprotectores que mantiveram o alegado sangue no estado líquido.

 

“Se está no estado líquido a -17ºC está num estado ‘superarrefecido', dado que esperamos que os fluidos corporais congelem a -0,6ºC. Muitos insectos e alguns vertebrados conseguem evitar o congelamento a temperaturas muito inferiores através da expressão de péptidos e glicoproteínas anticongelantes, que baixam dramaticamente o ponto de superarrefecimento (de congelação)."

“Se o sangue de mamute tem esta característica, pode ser o único mamífero conhecido que o faz, tanto quanto sei (ainda que os abdómenes dos esquilos do árctico é sabido que ficam superarrefecidos a -2,9ºC, apesar de nãos e conhecer o mecanismo por trás da situação). Em qualquer caso, duvido mesmo muito que a circulação sanguíneo do mamute fosse capaz de superarrefecer a -17ºC, ainda que valha a pena testar as amostras para ver se permanecem fluidas."

“Pode ser que o sangue tivesse realmente algum tipo de anticongelante, como o dos esquilos do árctico, e este se tinha concentrado durante o longo período de preservação. Ou ao contrário, talvez o sangue não tivesse nenhum anticongelante e a maior parte da água tenha sido retirada pela congelação, de forma a que o que restou tenha ficado muito concentrado, o que baixa o ponto de congelação. Ou a mostra pode ter sido contaminada com bactérias que segregaram anticongelantes, ou outra explicação qualquer."

“Outro aspecto importante é como que estas amostras preservaram o seu estado durante tanto tempo? E porque razão, dada a quantidade de descobertas de mamutes recentemente, este é o único achado com sangue fluido? Seja como for, parece ser uma descoberta espantosa, se verdadeira, mas não tenho forma de decidir se valerá a pena investigar."

Tanto Campbell, como Fisher estão em conversações com Grigoriev sobre como estudar o novo espécime. Pelo que se fala, esta descoberta pode vir a revolucionar a compreensão da fisiologia dos mamutes, o que pode ser muito importante. Quanto à sua possível ressurreição, espera-se que não se chegue a tanto pois muitos defendem que a 'des-extinção' é muito má ideia.

 

 

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