2013-05-25

Subject: Autor reconhece erros em artigo sobre clonagem de células estaminais

 

Autor reconhece erros em artigo sobre clonagem de células estaminais

 

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@ Nature/Richard Clement/ReutersO bombástico artigo que relatava a criação de linhagens de células estaminais humanas por clonagem está debaixo de fogo.

Um comentador online anónimo descobriu quatro problemas no artigo, que foi publicado online a 15 de Maio na revista Cell.

Shoukhrat Mitalipov, que liderou a equipa de peritos em células estaminais, referiu à revista Nature que foram cometidos três erros inocentes na reunião dos dados. O quarto, diz ele, não é um problema de todo. Para muito no campo, houve uma corrida à publicação: apenas três dias desde a submissão à aceitação e outros 12 dias para a publicação.

“Os resultados são reais, as linhagens celulares são reais, tudo é real", diz Mitalipov, especialista em biologia reprodutiva na Universidade de Saúde e Ciência do Oregon em Beaverton. Mitalipov diz ter regressado da Europa para se ver inundado de e-mails e chamadas dos editores da revista Cell e de jornalistas: "Está tudo maluco", diz ele.

Mitalipov consultou primeiro o primeiro autor Masahito Tachibana, que compilou os dados para o artigo e confirmou que o artigo continha erros simples. Os cientistas dizem que tencionam falar com a Cell para discutir uma errata.

Os problemas foram levantados numa crítica no PubPeer, um website onde as pessoas podem fazer comentários anónimos sobre artigos publicados.

O primeiro problema foi uma duplicação de imagem. A figura 2F, que mostra uma colónia de células estaminais clonadas “com morfologia típica", é reproduzida no topo esquerdo da figura 6D onde tem a legenda “hESO-7”, uma linhagem de células estaminais embrionárias derivadas não de clonagem mas de fertilização in vitro (FIV). Mitalipov diz que a duplicação foi intencional mas que a legenda estava invertida: o painel do topo esquerdo da figura 6D devia dizer hESO-NT1, indicando uma colónia clonada, como na figura 2F. A imagem do topo direito é que devia ser a hESO-7.

Ele diz que a inversão da legenda também explica outro conjunto de imagens duplicadas, a figura do topo direito da imagem suplementar S5. Com as legendas invertidas, as imagens idênticas representam ambas a linhagem celular hESO-7.

Ainda assim, a decisão de usar a mesma imagem para ilustrar duas propriedades diferentes, uma vez para mostrar a morfologia típica (2F) e outra como base de comparação de marcadores celulares entre células estaminais embrionárias de embriões FIV normais e embriões clonados (6D), "não é ideal”, diz Martin Pera, perito em células estaminais na Universidade de Melbourne, Austrália. “É mal considerado, a não ser que se tenha uma razão para o fazer."

Mitalipov diz que a decisão foi tomada devido ao número limitado de fotografias disponíveis com barra de escala. 

O crítico anónimo salientou que o artigo também continha duplicações de outras imagens, que mostram que o tipo de genes activados nas linhagens celulares derivadas de clonagem são semelhantes aos das linhagens derivadas de embriões FIV, prova que a clonagem produz verdadeiras células estaminais. Na figura S6 dos dados suplementares, duas imagens são idênticas. Mitalipov diz que os dados errados foram usados numa delas e que será corrigida pelos dados certos.

Outra questão diz respeito a gráficos nos dados suplementares (também na figura S6). Dois deles mostram uma fina linha indicando um grau elevado de sobreposição, cada um a 99,8%, no padrão de actividade genética entre duas réplicas celulares. As réplicas são células estaminais clonadas da mesma colónia original que foram posteriormente cultivadas em placas de Petri diferentes. Seria de esperar que esses padrões fossem próximos mas o crítico anónimo considera-os demasiado próximos. Mitalipov considera a situação uma casualidade e que os dados em bruto estão disponíveis online para quem os quiser analisar.

Robin Lovell-Badge, líder da Divisão de Biologia das Células Estaminais e de Genética do Desenvolvimento no Instituto Nacional de Investigação Médica do Conselho de Investigação Médica em Londres, alerta para julgamentos precipitados. “Espero que os erros mencionados também se devam à pressa de publicar. Os autores devem ter uma hipótese para responder e corrigir os erros."

Qualquer um com acesso às células poderá confirmar se foram criadas por clonagem pois as linhagens de células estaminais embrionárias deverão ter DNA nuclear da linhagem de fibroblastos que foi clonada (uma linhagem vulgarmente usada pela comunidade científica) mas DNA mitocondrial do óvulo dador.

 

Mitalipov está agora a consultar o seu comité de revisão institucional e a recolher acordos de transferência de material com cerca de 10 instituições para que outros possam analisar as suas células. “A primeira coisa que queremos é ter pessoas a confirmar os nossos resultados, não queremos esconder as linhagens celulares."

Muitos cientistas ficaram chocados com o facto de a revista Cell ter aceite o artigo em apenas três dias, especialmente com as controvérsias científicas e éticas que rodeiam o campo da clonagem. O último grupo que alegou ter criado células estaminais embrionárias humanas por clonagem, liderado por Woo Suk Hwang, então professor na Universidade Nacional de Seul, Coreia do Sul, produziu dois artigos em 2004 e 2005, tendo-se acabado por verificar que estavam cheios de dados fabricados que encobriam o facto de a equipa nunca ter produzido linhagens de células clonadas. As primeiras dúvidas emergiram da mesma maneira: imagens duplicadas e manipuladas.

"Seja qual for a explicação, é espantoso que haja outro problema com um artigo sobre transplantação nuclear de células somáticas. O processo de revisão em quatro dias foi obviamente inadequado", diz Arnold Kriegstein, director do programa de células estaminais da Universidade da Califórnia, San Francisco. “É um grau de desleixo que não se esperaria num artigo que teria um perfil tão mediático. Ficamos a pensar se algo mais por detrás da situação e se há questões não aparentes."

Há seis anos, quando Mitalipov criou células estaminais embrionárias clonadas em macacos, os editores da revista Nature forçaram-no a esperar seis meses para a publicação, até que o feito foi verificado independentemente. Tanto o artigo original como os dados confirmatórios foram publicados ao mesmo tempo. “Desta vez somos um laboratório de confiança, já mostrámos que os nosso resultados eram reais", diz Mitalipov.

Mitalipov admite que tinha pressa de publicar desta vez, para que pudesse apresentar os resultados no encontro de Junho da Sociedade de Investigação em Células Estaminais. "Talvez tenha sido apressado mas não tem nada a ver com a Cell, o erro foi meu."

A sua ideia é emitir uma errata rapidamente. “Estamos a trabalhar com a Cell para produzir o comunicado adequado." Mitalipov assume plena responsabilidade pelos resultados finais, mesmo que tenha sido Tachibana a reunir os dados. “Havia muito stress na recolha das imagens, não quero apontar-lhe o dedo." 

Mas ele continua a defender os resultados: “Eu, pessoalmente, fiz as células e, com Masahito, vi-as crescer para colónias."

 

 

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