2013-04-20

Subject: Monarquia consanguínea mostra sinais de selecção natural

 

Monarquia consanguínea mostra sinais de selecção natural

 

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@ Nature/Bridgeman/Getty ImagesO rei Carlos II de Espanha era física e mentalmente deficiente, estéril e extremamente consanguíneo. Quando morreu em 1700, com 38 anos, morreu com ele a linhagem masculina da família real espanhola dos Habsburg, tão famosa pelos seus queixos pontiagudos como se sua extrema consanguinidade.

Uma análise provocadora vem agora sugerir que a família real Habsburg pode ter-se desenvolvido, sob acção da selecção natural, de forma a contornar os piores efeitos da consanguinidade ao longo de três séculos.

A teoria da evolução prevê esse tipo de processo de 'purga' e os investigadores já documentaram o efeito em animais e plantas. Mas evidências de que tal exista em humanos são escassas, em parte devido reduzido número de dados sobre famílias consanguíneas que abranjam muitas gerações.

As famílias reais, como os Habsburg, são o local ideal para procurar, diz Francisco Ceballos, geneticista na Universidade de Santiago de Compostela, Espanha, que liderou a pesquisa. Ele e o seu colega Gonzalo Álvarez usaram registos escritos para seguir os nascimentos, mortes e casamentos de 4 mil indivíduos ao longo de mais de 20 gerações. “As dinastias reais da Europa são um laboratório de consanguinidade para populações humanas", diz Ceballos, cujo estudo é publicado na edição deste mês da revista Heredity.

A árvore genealógica dos Habsburg assemelha-se à hierarquia organizacional de uma agência governamental disfuncional. Casamentos consanguíneos, como aqueles entre primos direitos ou entre tios e sobrinhas, eram a regra e não a excepção. Este tipo de emparelhamento, que incluiu o casamento entre Filipe II de Espanha (bisavô de Carlos) e da sua sobrinha Anna de Áustria, eram usados para manter os títulos na família e para forjar alianças políticas.

Num artigo de 2009, Ceballos e Álvarez mostraram que o grau de consanguinidade aumentou ao longo do reinado dos Habsburg, pelo que Carlos II era mais consanguíneo do o típico filho de um casamento entre irmão e irmã. Mais, a consanguinidade deve ter sido a culpada pelas altas taxas de doença e mortes prematuras na família.

A consanguinidade aumenta a probabilidade de a descendência herdar duas cópias de uma mutação recessiva causadora de doença. Carlos, por exemplo, acredita-se que sofresse de pelos menos duas doenças causadas por mutações recessivas em genes diferentes: deficiência da hormona pituitária (que pode resultar em infertilidade) e acidose do tubo renal distal (uma causa de falência renal). A infertilidade de Carlos impediu que essas mutações fossem transmitidas às gerações seguintes, pelo menos pela sua linhagem. 

Para determinar, de forma indirecta, se outras mutações deletérias tinham sido extirpadas da família Habsburg, incluindo ramos que sobreviveram aos Habsburg espanhóis, Ceballos e Álvarez contaram as mortes de recém-nascidos (até ao ano de idade, excepto abortos e nados-mortos) e infantis (do ano aos dez anos) da história da família. A equipa registou 502 gravidezes que resultaram em 93 mortes de recém-nascidos e 76 mortes infantis.

Os investigadores colocaram a hipótese de que as mortes prematuras deviam ter sido causadas pelos efeitos nefastos da consanguinidade. Se a selecção natural tivesse purgado a família de mutações deletérias, então essas mortes deveriam ter-se tornado menos frequentes ao longo do tempo. Seria especialmente fácil de detectar essa tendência numa família real: estudos demográficos sugerem que apesar de as taxas de mortalidade neonatal e infantil se terem alterado muito na população europeia em geral entre 1500 e 1800, mantiveram-se estáveis entre a nobreza. As famílias reais estavam protegidas de muitas das causas de morte mais frequentes, diz Ceballos: “Não sofriam com guerras e fomes, por exemplo."

 

Ceballos considera que a sua equipa encontrou evidências de que os Habsburg evoluíram para lidar com a consanguinidade: havia substancialmente mais mortes (quando comparadas após controlar a consanguinidade) entre as crianças da família entre 1450 e 1600 do que entre 1600 e 1800. Estranhamente, no entanto, nos recém-nascidos a mortalidade aumentou nos mesmos intervalos.

Uma possibilidade de explicação é que as mortes de recém-nascidos e de crianças são causadas por tipos diferentes de mutações, diz Ceballos. A teoria da evolução prevê que mutações que quase sempre causem doenças graves, como a fibrose cística, sejam expurgadas mais rapidamente que as mutações que apenas aumentem o risco de doenças. As crianças dos Habsburg podem ter morrido devido aos efeitos de mutações muito deletérias que eventualmente foram eliminadas pela selecção natural, enquanto os recém-nascidos podem ter morrido em resultado de mutações que provocavam problemas apenas parte do tempo, diz Ceballos.

Alan Bittles, geneticista da Universidade Murdoch em Perth, Austrália, está surpreendido com o facto de as crianças Habsburg mais velhas serem as que tinham maior probabilidade de sofrerem os efeitos danosos da consanguinidade: “Os nossos dados sugerem que o maior efeito adverso de um casamento consanguíneo se expressa no primeiro ano de vida."

Leonid Kruglyak, geneticista de populações na Universidade de Princeton em Nova Jérsia, não está convencido que a selecção natural esteja por trás das alterações de mortalidade. Ele considera que os resultados devem ser um artefacto estatístico devido à reduzida dimensão da amostra.

O sul da Índia pode ser um melhor local para procurar evolução em resultado da consanguinidade, diz Bittles, pois os casamentos consanguíneos são comuns em algumas populações e os registos genealógicos têm muitas gerações.

Ceballos está agora em busca de outros efeitos da consanguinidade nos Habsburg, como as alterações de fertilidade. Ele também está a sondar outras famílias reais, incluindo a francesa Casa de Bourbon.

 

 

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