2012-10-18

Subject: Alegado transplante de células estaminais desacreditado

 

Alegado transplante de células estaminais desacreditado

 

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@ Nature/AP/Press AssociationDesde o princípio que parecia demasiado bom para ser verdade. 

Dias após o biólogo da Universidade de Kyoto Shinya Yamanaka ter ganho o Nobel pela sua descoberta em 2006 das células estaminais pluripotentes induzidas (iPS), Hisashi Moriguchi, investigador visitante na Universidade de Tóquio, alegou ter modificado essa tecnologia para tratar uma pessoa com falência cardíaca terminal.

Oito meses após após tratamento cirúrgico em Fevereiro, dizia a parangona do jornal japonês Yomiuri Shimbun, o paciente estava saudável.

Mas após ter sido alertado para a história pela Nature, a Escola de Medicina de Harvard e o Hospital Geral do Massachusetts (MGH), onde Moriguchi alegava ter realizado o trabalho, negaram que o processo alguma vez tivesse existido. “Nenhuns testes clínicos relacionados com o trabalho de Moriguchi foram aprovados na Universidade de Harvard ou no MGH”, escreveu David Cameron, porta-voz da Escola de Medicina de Harvard em Boston, Massachusetts. “O trabalho que está a relatar não foi feito no MGH”, disse Ryan Donovan, relações públicas do MGH, também em Boston.

Um vídeo colocado online pela Nippon News Network, e posteriormente removido, mostrava Moriguchi a apresentar a sua investigação no encontro da Fundação de Células Estaminais de Nova Iorque na semana passada.

Se fosse verdade, o feito de Moriguchi teria catapultado as células iPS para utilização num vasto leque de situações clínicas, anos antes das previsões da maioria dos especialistas mas havia razões para se suspeitar da sua veracidade.

Moriguchi ter inventado um método para reprogramar as células usando apenas dois produtos químicos: um inibidor microRNA-145 e um ligando TGF-β. Mas Hiromitsu Nakauchi, investigador de células estaminais na Universidade de Tóquio comentou que “nunca tinha ouvido falar de sucessos com este método" e nem sequer tinha ouvido falar de Moriguchi antes da semana passada.

Moriguchi também alegou que as células podiam ser diferenciadas em células cardíacas usando um método de 'superarrefecimento' que tinha inventado, “outra coisa estranha" no entender de Nakauchi.

O artigo em que Moriguchi apresentou o seu método dos dois químicos, publicado num livro sobre avanços na investigação de células estaminais, inclui parágrafos copiados quase literalmente de outros artigos. A secção intitulada “2.3 Western blotting”, por exemplo, é idêntica à passagem do artigo de 2007 de Yamanaka. A secção 2.1.1, em que Moriguchi descreve as biopsias a fígados humanos, é igual no número de pacientes e momento de colheita de espécimes descritos num artigo anterior, apesar do nome da instituição ter sido alterado.

Em apoio à sua técnica de superarrefecimento, Moriguchi citou um artigo seu na revista Scientific Reports (pertencente ao grupo Nature). Quando a Nature lhe apontou que esse artigo descreve o superarrefecimento de ovários humanos para preservação e não, como tinha afirmado, para a diferenciação de células iPS em células cardíacas, Moriguchi referiu que tinha sido aconselhado a deixar a experiência fora do artigo “porque era basicamente a mesma tecnologia".

Moriguchi alegou ter realizado a maior parte do trabalho ele próprio, incluindo pesquisas de segurança em porcos, cirurgias iniciais e outros cinco procedimento similares em outros pacientes de Agosto em diante. Outros investigadores teriam estado envolvidos nos procedimentos mas não forneceu os seus nomes.

 

Moriguchi concordou que estava a alegar “uma grande variedade de competências" para este leque de procedimentos. À Nature, disse que tinha desenvolvido as necessárias técnicas cirúrgicas durante uma licenciatura em medicina na Universidade Médica e Dentária de Tóquio mas depois mudou a sua história para uma licenciatura em enfermagem e não em medicina.

A Universidade de Tóquio confirmou que Moriguchi lá trabalhou entre 2006 e 2009, tempo em que estudou “economia da medicina" e “avaliação de tecnologias clínicas". Neste momento é investigador visitante no laboratório de Makoto Mihara, na secção de cirurgia cosmética do hospital.

Moriguchi também alegou ter um laboratório no MGH e na Escola de Medicina de Harvard mas as instituições apenas confirmaram que tinha sido parceiro entre 1999 e 2000, mas nunca mais esteve associado a eles.

Quando questionado sobre quem tinha financiado os seus procedimentos com células iPS, onde tinham sido realizados, onde tinha sido feita a sua revisão ética e quem tinha fornecido as células de qualidade clínica necessárias, Moriguchi referiu novamente o MGH e Harvard mas foi incapaz de indicar o nome do chefe da comissão de revisão ética ou qualquer contacto no GMP.

Jerome Ritz, co-director da Instalação Central de Manipulação de Células Connell O'Reilly da Escola de Medicina de Harvard, disse à Nature, “não produzimos nenhuma célula iPS para qualquer paciente nas nossas unidades e não consigo imaginar que outra instalação as poderia ter produzido".

A 13 de Outubro, Moriguchi deu uma conferência de imprensa em Nova Iorque, onde admitiu que a maior parte das suas alegações eram falsas mas manteve que teria injectado células cardíacas derivadas de células iPS num paciente e que terias as notas que o provavam. Desde então, a Universidade de Tóquio e a Universidade Médica e Dentária de Tóquio lançaram investigações sobre o caso.

É raro que uma alegação científica tão espectacular seja desmistificada tão rapidamente. O triste episódio pode ser classificado como a fantasia delirante de um enfermeiro mas salienta a natureza febril do campo das células iPS, especialmente no Japão. Muitos investigadores temem que a promessa de terapias que estas células oferecem desencadeie uma corrida prematura a aplicações clínicas, antes de a sua segurança e eficácia ser devidamente provada. 

 

 

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